terça-feira, outubro 24, 2006

Só crescimento econômico não garante desenvolvimento do país

O debate da Rede Record, que prometeu ser mais um repeteco dos anteriores, quase cumpriu esta previsão. A nota diferenciada foi ouvir de Geraldo Alckmin, e não de deduções de terceiros, a defesa ao modelo de política externa atrelada aos mandos e desmandos dos Estados Unidos, e o conseqüente desejo de adesão à ALCA. Algo que me leva a ponderar o fato de o candidato tucano não ser apenas fraco e de conteúdo ralo, mas também perigoso.

Ademais, Alckmin vem se utilizando insistentemente de um argumento bastante interessante nos debates: crescimento econômico. O fato de a Argentina e a China crescerem a taxas entre 7 e 9% esse ano, contra menos de 3 do Brasil baseia grande parte do repertório do tucano. Realmente, o crescimento é desejado por todos. Vejamos, porém, a correlação entre esse crescimento e a situação real, do ponto de vista da qualidade de vida e do desenvolvimento social, no Brasil, na Argentina e na China.

China
Trata-se do maior dos países emergentes. Baseia grande parte do seu crescimento em produtos industrializados, assim como a Índia, conseguindo baixíssimo preço de venda, tornando-se assim um forte concorrente internacional em muitas áreas da indústria, como eletrônicos e calçados, por exemplo. A menção que costuma ser suprimida ao engrandecer esse crescimento é a maneira como esse preço baixo é conseguido: além da diminuição drástica da qualidade dos produtos, a política trabalhista chinesa permite que os operários trabalhem num regime de semi-escravidão, com jornadas excessivas, direitos quase inexistentes e baixíssimos salários. A liberdade de expressão é cerceada, dificultando ao máximo a organização de grupos para tentar uma melhoria dessas condições. Portanto, não se pode falar de um desenvolvimento real, mesmo com as altas taxas de crescimento econômico.

Argentina
Depois de ter o Estado quebrado na gestão de Menem, a Argentina decretou moratória de sua dívida externa. Após muita negociação do Presidente Nestor Kirchner com o FMI e órgãos internacionais, o país convenceu-os a perdoar 80% de sua dívida. Livre de entraves contratuais, que determinam como o Estado deve agir, e com muito menos juros para pagar, ou seja, com muito mais superávit revertido para o próprio Estado, a Argentina iniciou novamente um processo de crescimento a altas taxas. Essas taxas se explicam, em parte, pelo fato de o país ter vindo de uma quebra, com uma depressão muito grande no PIB, sendo portanto o PIB potencial muito muito maior queque o real. Cabe lembrar que no Brasil Lula quitou a dívida com o FMI, no que foi duramente criticado pelo PSDB e o PFL.

Brasil
O período mais notável do crescimento econômico brasileiro foi o chamado "milagre econômico", ocorrido durante a ditadura militar na década de 70. Calcado no superinvestimento em industrialização, o período ficou marcado por um excepcional endividamento externo. Além disso, nesta época consolidaram-se os centros urbanos como grandes concentradores de população, devido ao êxodo rural provocado pela mecanização do campo. Além do inchaço das cidades, da instituição das Regiões Metropolitanas, destaca-se o aumento superlativo do desemprego, o declínio da agricultura familiar e de subsistência, e o surgimento dos conhecidos problemas das grandes cidades: miséria, periferias precárias, serviços públicos incapazes de atender à demanda, etc. Apesar do incremento do crescimento econômico, houve nesse período o maior aumento da miséria da história. O chamado "milagre" é sucedido por uma inflação galopante, revelando que as estratégias artificiais de controle do câmbio jogaram o País num círculo vicioso de degradação sócio-econômica.

Baseando-se, portanto, no pensamento dos dois candidatos, percebemos que Alckmin pretende alavancar um crescimento do Brasil. A pergunta que fica é: com que finalidade? Geração de emprego? A que custo? Ao custo que paga a classe trabalhadora chinesa? Eu gostaria de ver Alckmin desenvolver o assunto sob o viés da política trabalhista. Seu partido já tentou inúmeras vezes extinguir direitos históricos conquistados pelos trabalhadores, em nome desse crescimento que interessa apenas aos concentradores de renda.

Lula frisou no debate que o social é sua prioridade. Nada de novo, disso todos já sabem. O Governo do ex-metalúrgico não prioriza a tecnocracia econômica, mas os resultados reais para a população. O crescimento de 10% na década de 70 foi realmente um "milagre": enriqueceu brutalmente os donos dos bens de produção, à custa da penúria do trabalhador, e da construção do cenário do caos, que foram as regiões metropolitanas e suas periferias.

Novamente, o desenho de cada um dos dois possíveis governos que escolheremos no dia 29, se mostra bem claro. A essa altura, o eleitor já sabe o que cada candidato representa, e sabendo o que deseja para si mesmo e para o país, dificilmente haverá grandes mudanças nas intenções de voto.

Enviada por Marcelo Vargas para http://sobreassuntos.blig.ig.com.br/

4 comentários:

só curioso... disse...

“O que é pior – ver um candidato mentir ou ver o povo acreditar?”

Ricardo disse...

Lembro disso ter acontecido em 1998...

Anônimo disse...

Olá pessoal. Divulgando...

A mídia e as eleições de 2006 será o tema do próximo “Debates Carta Maior”, a ser realizado nesta próxima quinta-feira, 26 de outubro. O evento acontece no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, às 19:00 horas, e será aberto ao público. Estão confirmadas as participações de Raimundo Pereira, colaborador da revista Carta Capital, Luiz Nassif, comentarista econômico da TV Cultura, Bernardo Kucinski, editor associado da Carta Maior, e Paulo Henrique Amorim, editor do blog Conversa Afiada . A mediação será feita pelo editor da Carta Maior, Flávio Aguiar. A TV Carta Maior (www.tvcartamaior.com.br) fará a transmissão do evento ao vivo.

Aline disse...

Companheiros, é muito importante que nos cadastremos como fiscais pra garantir que não haja fraude nas urnas!
A nossa obrigação não pode se restringir ao voto! vamos fiscalizar nessas eleições! Cadastrem-se em suas cidades!
no DF:
http://www.ptdf.org.br/fiscais.asp