sábado, outubro 14, 2006

Haja saúde!

O candidato tucano disse nesta sexta-feira, no programa eleitoral horário gratuito, que "Saúde não é discurso, é trabalho". Ocorre que tanto o discurso quanto a prática dos tucanos, na área da Saúde como em outras áreas, é condenável.

Na verdade os tucanos não defendem o Sistema Único de Saúde (SUS).

A Saúde no Brasil é responsabilidade dos três níveis da administração (federal, estadual e municipal). Portanto, uma tarefa do presidente da República, de governadores/as e prefeitos/as.

Além de participar com recursos financeiros para custeio dos serviços de Saúde, tanto o governo federal quanto os estados e municípios devem promover ações que garantam a qualidade de vida da população.

Nessa divisão de responsabilidades, o governo Lula vem cumprindo a sua parte. O Orçamento da Saúde aumentou no governo Lula. E os recursos para ações básicas de Saúde (Piso de Atenção Básica), repassados pelo governo federal diretamente aos municípios, aumentaram 50%.

No governo Lula, o número de equipes do Programa Saúde da Família subiu de 16 mil para 26.296.

O governo Lula criou a maior política pública de saúde bucal da história do país. Por meio do Brasil Sorridente, a população brasileira agora tem acesso a tratamento odontológico preventivo e especializado.

Os recursos para a produção, a compra e a distribuição de medicamentos dobraram.

O governo Lula também investiu nos hospitais. Foram R$80 milhões para reestruturação de hospitais filantrópicos e Santas Casas; R$270 milhões para os hospitais de ensino; R$163 milhões no credenciamento de leitos de UTI; R$220 milhões na qualificação das urgências e emergências.

Já no governo tucano de FHC, o Piso de Atenção Básica ficou congelado durante sete anos. Ou seja: os municípios, durante este período, assumiram os serviços estaduais e federais de Saúde, mas não receberam recursos para manter esses serviços.

Coisa semelhante ocorreu durante o governo Alckmin: entre 2001 e 2006, deixaram de ser aplicados 2,4 bilhões em Saúde, valor suficiente para construir 50 hospitais de 250 leitos.

Apesar desse péssimo desempenho, Alckmin tem dito que no estado de São Paulo, quem faz Saúde é o governo do estado. E dá como exemplo a construção de hospitais, afirmando ainda que entregou dezenove unidades à população de São Paulo.

Acontece que esta afirmação não encontra respaldo nos dados oficiais, divulgados no Balanço Geral do Estado de 2005 (Diário Oficial do Estado de São Paulo, número 104, de 3/6/06, suplemento do Poder Legislativo).

Vale lembrar, ainda, que o SUS está baseado na cooperação e na divisão de tarefas entre o governo federal, os governos estaduais e os municípios, que são o pilar fundamental do sistema, por meio da municipalização.

Mas o governo Alckmin não respeita as atribuições dos municípios. Tampouco cumpre suas obrigações. Um exemplo disto é o boicote e o descaso com que trata o Pacto de Gestão, fundamental para o bom funcionamento do SUS!

Alckmin fala em "melhorar o atendimento". Mas não é isso que acontece nos hospitais administrados pelo estado de São Paulo.

Quem está efetivamente trabalhando pela humanização é o governo Lula, através do Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar.

Os tucanos defendem uma concepção privatista de saúde. Em São Paulo, por exemplo, vários hospitais públicos foram entregues a "organizações sociais". A absoluta prioridade concedida a essas "organizações" tem como contrapartida o sucateamento dos demais hospitais mantidos pelo governo de São Paulo.

Na contramão do descompromisso do governo Alckmin, o custeio da Saúde no estado de São Paulo vem sendo crescentemente financiado por recursos federais. Os recursos vinculados federais para a gestão do SUS estadual evoluíram de R$383 milhões em 2003, para R$2,457 bilhões em 2006.

Ao mesmo tempo os programas do governo Lula atendem mais pessoas em São Paulo. O programa de Saúde Bucal cobre 4,3 milhões de pessoas. O Samu atende 20,6 milhões de pessoas. Foram implantadas 50 unidades da Farmácia Popular e, em 2006, efetivaram-se convênios com 589 farmácias particulares, para vendas com desconto de medicamentos para hipertensão arterial e diabetes. Em 2005, o Qualisus investiu R$9,13 milhões para melhorar o atendimento nos hospitais de São Paulo.

A Saúde no Brasil precisa melhorar muito, inclusive para superar os prejuízos causados tanto pelo discurso errado, quanto pelo trabalho privatista dos governos neoliberais.

O governo Lula está fazendo a sua parte para garantir o bom funcionamento do Sistema Único de Saúde. Por isso, na Saúde, como no resto, Alckmin é um risco.

Não vamos trocar o certo pelo duvidoso.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Carta Capital revela complô da imprensa para prejudicar Lula

A reportagem de capa da revista Carta Capital desta semana revela o submundo da trama armada por um delegado da Polícia Federal, em conluio com alguns dos principais veículos de comunicação do país - entre eles a TV Globo e os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo - para prejudicar o PT e a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas do primeiro turno.

A revista conta em detalhes como os meios de comunicação omitiram as informações de como o delegado Edmilson Pereira Bruno obteve e repassou, aos próprios jornalistas, as fotos do dinheiro apreendido com duas pessoas ligadas ao PT num hotel de São Paulo. Bruno chegou a confessar sua ação criminosa aos repórteres, afirmando que iria forjar um roubo para justificar o fato de a imprensa estar de posse das imagens.

Embora a confissão tenha sido gravada em áudio, sem que ele soubesse, nenhum veículo a publicou. Alguns - como a Folha e o Estadão - ainda produziram textos procurando inocentá-lo pelo vazamento das fotografias.

Leia abaixo os trechos iniciais da matéria, transcritos pelo site do PT. A reportagem completa está na versão impressa da revista:


OS FATOS OCULTOS
(Por Raimundo Rodrigues Pereira)

Pode-se começar a contar a história do famoso dossiê que os petistas teriam tentado comprar para incriminar os candidatos do PSDB José Serra e Geraldo Alckmin pela sexta-feira 15 de setembro, diante do prédio da Polícia Federal, em São Paulo. É uma construção pesada, com cerca de dez pavimentos, de cor cinza-escuro e como que decorada com uma espécie de coluna falsa, um revestimento de ladrilho azul brilhante, que vai do pé ao alto do edifício, à direita da grande porta de entrada. Dentro do prédio estão presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ligados ao Partido dos Trabalhadores e com os quais foi encontrado cerca de 1,7 milhão de reais, em notas de real e dólar, para comprar o tal dossiê. Mas essa notícia é ainda praticamente desconhecida do grande público.

É por volta das 5 da tarde. A essa altura, mais ou menos à frente do prédio, que fica na rua Hugo Dantola, perto da Ponte do Piqueri, na Marginal do rio Tietê, na altura da Lapa de Baixo, estaciona uma perua da Rede Globo. Ela pára entre duas outras equipes de tevê: uma da propaganda eleitoral de Geraldo Alckmin e outra da de José Serra.

Com o tempo vão chegando jornalistas de outras empresas: da CBN, da Folha, da TV Bandeirantes. E a presença das equipes de Serra e Alckmin provoca comentários. Que a Rede Globo fosse a primeira a chegar, tudo bem: ela tem uma enorme estrutura com esse objetivo. Mas como o pessoal do marketing político chegou antes? Cada uma das duas equipes tem meia dúzia de pessoas. A de Serra é chefiada por um homem e a de Alckmin, por uma mulher. As duas pertencem à GW, produtora de marketing político. Seus donos foram jornalistas: o G é de Luiz Gonzales, ex-TV Globo, e o W vem de Woile Guimarães, secretário de redação da famosa revista Realidade, do fim dos anos 1960. Entre os jornalistas, logo se sabe que foi Gonzales quem ligou para a Globo, avisando do que se passava na PF.

E quem avisou Gonzales? Foi alguém da Polícia Federal? Foi alguém do Ministério Público, de Cuiabá, de onde veio o pedido para a ação da PF? Uma fonte no Ministério da Justiça disse a Carta Capital que as equipes da GW chegaram à PF antes dos presos, que foram detidos no Hotel Ibis Congonhas por volta da 6 da manhã do dia 15 e demoraram a chegar à sede da polícia. Gente da equipe da GW diz que a empresa soube da história através de Cláudio Humberto, o ex-secretário de imprensa do ex-presidente Collor, que tem uma coluna de fofocas e escândalos na internet e que teria sido o primeiro a anunciar a prisão dos petistas.

Pode ser que sim, o que apenas leva à pergunta mais para a frente: quem avisou Cláudio Humberto? Mesmo sem ter a resposta, continuemos a pesquisar nessa mesma direção: a de procurar saber a quem interessava a divulgação da história do dossiê e como essa divulgação foi feita. Para isso, voltemos à região do prédio da PF duas semanas depois.

É 29 de setembro, vésperas da eleição presidencial, por volta das 10h30 da manhã. Sai do prédio da PF na Lapa de Baixo o delegado Edmilson Pereira Bruno, 43 anos, que estava de plantão no dia 15 e foi o autor da prisão de Valdebran e Gedimar. Ele convida quatro jornalistas para uma conversa: Lílian Cristofoletti, da Folha de S.Paulo, Paulo Baraldi, de O Estado de S.Paulo, Tatiana Farah, do jornal O Globo, e André Guilherme, da rádio Jovem Pan. Bruno quer uma conversa reservada e propõe que ela seja feita a cerca de um quarteirão dali, na Bovinu’s, uma churrascaria. Um dos jornalistas argumenta que ali "só tem policial". O grupo acaba conversando perto da Faculdade Rio Branco, que não se avista da frente da PF, mas é também ali por perto. Ficam na rua mesmo. O delegado não sabe, mas sua conversa está sendo gravada.

Bruno diz que quer passar para os jornalistas cópia das fotos do dinheiro apreendido com os petistas, que estavam sendo procuradas há muito, por muita gente. Leva um CD com as imagens; 23 fotos; e três CDs em branco para que eles copiem as imagens de modo a que cada um tenha uma cópia. Fala que eles devem dizer "alguém roubou e deu para vocês", para explicar o aparecimento das fotos. Diz que ele próprio vai dizer coisa parecida a seus chefes na PF, que os jornalista é que roubaram: "Doutor, me furtaram. Sabe como é que é, não dá para confiar em repórter". Recomenda que as fotos sejam editadas em computador com o programa Photoshop para tirar detalhes, como o nome da empresa na qual as cédulas foram fotografadas,a fim de despistar a origem do material.

Algumas pessoas têm a fita de áudio com a conversa do delegado Bruno com os quatro repórteres. Mais pessoas ainda a ouviram. Uma delas é o repórter Luiz Carlos Azenha, que tornou público vários de seus trechos no seu site pessoal na internet Vi o mundo, o que nunca você pode ver na tevê. Azenha, que é repórter da TV Globo, não quis dar entrevista a Carta Capital. Pediu para que se procurasse a emissora. Para o que mais interessa ao desenrolar da nossa história, dos trechos da fita, deve-se destacar a preocupação de Bruno em fazer com que as fotos chegassem no dia ao Jornal Nacional. "Tem alguém da Globo aí?", pergunta ele. Um dos quatro responde: "Não é o Tralli? O Tralli está muito visado", Bruno diz, referindo-se a César Tralli e ao incidente, conhecido de muitos, de esse repórter da TV Globo ter podido acompanhar, praticamente disfarçado de Polícia Federal, a prisão de Flávio Maluf, filho de Paulo Maluf.

Mas a preocupação principal de Bruno é a que ele reitera nesse trecho: "Tem de sair hoje à noite na TV. Tem de sair no Jornal Nacional".

As fotos são divulgadas, como veremos no capítulo seguinte, com imenso destaque, no dia 29, vésperas das eleições, repita-se, no JN. Mas não apenas no JN. Veja-se a Folha de S.Paulo, por exemplo, Lá também a divulgação foi, pelo menos na opinião de alguns, espetacular: "Que primeira página mais linda, a de 30/9. É por isso que eu não consigo me separar da Folha", escreveu o leitor Euclides Araújo, no dia seguinte. "A glosa, a irreverência, a fina ironia falaram mais alto, mostrando aquela montanha de dinheiro em cima e, embaixo, Lula, sendo abraçado por uma mão morena e cobrindo o rosto, como se fosse um meliante, conduzido ao distrito, tentando esconder a identidade. O que eles querem, o Pravda ou o Granma? Valeu, Folha!"

A Folha publicou, com grande destaque na primeira página, a foto na qual o dinheiro está empilhado de forma que as notas apareçam com a frente voltada para cima, que é a que mais dá a impressão da "montanha de dinheiro" citada pelo admirador do jornal. E não divulgou que as fotos lhe tinham sido passadas por um policial visivelmente empenhado em fazer com que elas tivessem um uso político claro, de interferir no pleito de 1º de outubro.

A Folha também tinha a fita de áudio, que foi levada por sua repórter. A editora-executiva do jornal, Eleonora de Lucena, não quis responder por que omitiu as informações dessa fita, a nosso ver tão relevantes. Alguns dos quatro repórteres que receberam as fotos do delegado Bruno, ouvidos para esta matéria, disseram em defesa da tese de que o áudio não deveria ser divulgado, com o argumento de que o jornalista deve preservar o sigilo da fonte, com o que concordamos. Mas perguntamos a Eleonora: por que ela não deu a informação de que se tratava de uma intervenção política no processo eleitoral, publicando os trechos da fita de áudio, que tornam isso explícito, mas sem citar o nome da fonte?

O mais curioso, para dizer o mínimo, é que a Folha publica, junto com as fotos do dinheiro, uma matéria ("Imagens foram passadas em sigilo à imprensa") na qual conta o que o delegado Bruno disse depois, na tarde do mesmo dia 29, ao conjunto de jornalistas, na frente da PF. No texto, assinado pela repórter do jornal que recebeu as fotos de Bruno pela manhã, se diz: "O delegado Bruno disse, ontem, em coletiva à imprensa, que o CD com as fotos havia sido furtado de sua sala, na PF - e que ele estava sendo injustamente acusado de ter repassado o material aos jornalistas". Pergunta-se: qual é o sentido de publicar uma informação que a jornalista sabia que é evidentemente mentirosa e, no caso, ainda ajudava o policial a tentar enganar a própria imprensa?

O Estado de S.Paulo do dia 30 publica a mesma foto, das notas em posição de sentido. E com um texto, assinado por Fausto Macedo e Paulo Baraldi, ainda mais incrível, também para dizer o mínimo. O texto é praticamente uma diatribe contra o PT e em defesa de José Serra. Diz que a publicação das fotos é a abertura "de um segredo que o governo Lula mantinha a sete chaves". Diz que o dinheiro vinha de quem "pretendia jogar Serra na lama dos sanguessugas". É também uma espécie de defesa do delgado Bruno, em favor do qual são ditas algumas mentiras. O texto diz que as fotos foram feitas por "um policial da Delegacia de Crimes Financeiros (Delefin)", na sexta-feira dia 15 de setembro. E que o delegado Bruno comandou uma perícia nas notas, a serviço da Polícia Federal, na sala da Protege AS, Proteção de Transporte de Valores, em São Paulo. De fato, como se saberia no mesmo dia 30 em que o texto de Macedo e Baraldi sai publicado, as fotos foram feitas pelo próprio delegado Bruno, depois de enganar os peritos que analisavam as notas, dizendo-se autorizado pelo comando da PF. Pela infração, o delegado está sendo investigado por seus pares.

Tanto o Estado como a Folha dividem a primeira página do dia 30 entre a notícia das fotos do dinheiro e uma outra informação espetacular: a da queda do Boeing de passageiros da Gol com 154 pessoas, depois de um choque com o Legacy da Embraer, o jatinho executivo a serviço de empresários americanos. No dia 29, no Jornal Nacional, da Globo, no entanto, não há espaço para mais nada: a tragédia do avião da Gol não entra; o noticiário eleitoral, com destaque para a foto do dinheiro dos petistas, é praticamente o único assunto.

É uma omissão incrível. O Boeing partiu de Manaus às 15h35, hora de Brasília. Deveria ter chegado a Brasília às 18h12. Quando o JN começou, a notícia do desastre já corria o mundo. No site Terra, por exemplo, às 20h10 uma extensa matéria já noticiava que o avião da Gol havia desaparecido nas imediações de São Félix do Araguaia, na floresta amazônica; e a causa apontada era o choque com o avião da Embraer.

Qual a razão da omissão do JN? A emissora levou um furo, como se diz no jargão jornalístico, ou decidiu concentrar seus esforços no que lhe pareceu mais importante?

Qualquer que seja o motivo, o certo é que a questão da divulgação das fotos mobilizou a cúpula do jornalismo da tevê dos Marinho. Como vimos, Bruno fora informado pelos jornalistas que Bocardi, da TV Globo, estava entre os jornalistas diante da PF no dia 29. Bocardi é Rodrigo Bocardi, repórter da TV Globo, que atendeu Carta Capital com muita má vontade. Disse que a matéria acabara sendo apresentada por César Tralli e não por ele; e não quis dar mais informações. De alguma forma, no entanto, tanto a fita de áudio como a conversa de Bruno com os jornalistas quanto ao CD com imagens do dinheiro foram passados à chefia de jornalismo do JN em São Paulo e de lá foram levadas a Ali Kamel, no Rio.

Kamel é uma espécie de guardião da doutrina da fé, o Raztinger da Globo, como dizem ironicamente pessoas da organização dos Marinho, que criticam o excesso de zelo deste que é um editor em última instância de todo o noticiário político da emissora carioca. A crítica lembra o papel do cardeal Joseph Raztinger, atualmente papa Bento XVI, no papado de João Paulo II.

Compreende-se por que a decisão sobre o que fazer com o áudio e com as fotos tivesse de ser tomada pelas mais altas autoridades da emissora. Se divulgasse o conteúdo exato das duas informações, a Globo estaria mostrando que o delegado queria usar a emissora para os claros fins políticos que manifesta e que a emissora tinha feito a sua parte nesse projeto. A saída de Kamel – aparentemente, segundo relato de terceiros, ouvidos por Carta Capital, já que ele mesmo não quis se manifestar – foi a de omitir qualquer referência à existência do áudio: "Não nos interessa ter essa fita. Para todos os efeitos, não a temos", teria dito Kamel. A informação complicava a Globo. A informação sumiu.

Terrorismo eleitoral

A campanha de Alckmin diz estar sendo vítima de "terrorismo eleitoral".

A leitura do programa de governo do candidato tucano mostra outra coisa.

Lá se defende a seguinte meta: cortar o equivalente a 4,4% do PIB, nas despesas governamentais. Algo como 80 bilhões de reais.

Portanto, um corte superior ao proposto por Yoshiaki Nakano, assessor de Geraldo Alckmin e apontado como possível ministro da Fazenda, num hipotético retorno dos tucanos ao governo federal.

Quem ouve falar desta proposta de "ajuste fiscal" e lembra do que ocorreu nos governos FHC e Alckmin, tem todo o direito de perguntar: onde será feito este corte?

Nas aposentadorias e pensões? No Bolsa Família? Na manutenção das estradas? No salário mínimo? Ou no salário dos servidores? No ProUni? Paralisando as novas universidades? Na agricultura familiar? Ou na reforma agrária? No programa de Saúde da Família?

Segundo Guido Mantega, ministro da Fazenda do governo Lula, "é impossível cortar 3% do PIB sem acabar com programas sociais".

Frente a repercussão negativa das declarações de Nakano, Alckmin disse que "pelo meu governo só falo eu".

Mas como tal governo não existe, vale o programa de governo, que defende um ajuste fiscal de 4,4%.

Isto sim é terrorismo. Denunciar isto é apenas legítima defesa.


Política externa

Felizmente para o Brasil e para o mundo, a política externa virou pauta da disputa presidencial.

O candidato tucano considera que a política externa desenvolvida pelo governo Lula é "um fracasso".

Isto não é verdade.

Por qualquer parâmetro que se observe - do comercial ao político, do cultural ao diplomático - a política externa do governo Lula é boa para o mundo e boa principalmente para o Brasil.

Entre outras coisas, porque trata-se de uma política externa soberana, que não depende nem se submete aos interesses das grandes potências.

O contrário do que foi a política externa do governo FHC.

Mas, afinal, qual a proposta de política externa do governo Alckmin?

O programa de governo de Alckmin fala em "intensificar as relações com os centros mais dinâmicos da economia global, sem descuidar de nossas ligações, interesses e obrigações históricas com os países menos desenvolvidos".

Segundo os formuladores do programa de Alckmin, seu hipotético governo faria nossa política externa voltar "a seu leito natural". Noutras palavras, "restabelecer a prioridade das relações com os países desenvolvidos".

Para o caso de alguém ter dúvidas sobre o que isto significa, o programa de Alckmin é explícito. Fala em "atuar pela retomada das negociações da Alca e explorar as possibilidades de acordos bilaterais de livre comércio como passos transitórios do processo de integração continental".

Ao mesmo tempo em que defende ressuscitar a Alca, o programa de governo de Alckmin defende uma "ampla reflexão sobre o Mercosul".

Noutras palavras: Alckmin propõe "reflexão" sobre aquilo que interessa aos brasileiros e submissão aos interesses norte-americanos.

Alca e ajuste fiscal, convenhamos, são propostas assustadoras.

Se há algum terrorismo eleitoral, portanto, ele vem da coligação encabeçada pelos tucanos e de sua vontade de fazer o país voltar aos tempos de FHC.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Ibope: Lula tem 14 pontos de vantagem sobre Alckmin

O Ibope confirmou nesta quinta-feira, a subida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião. Lula tem 57% dos votos válidos, contra 43% de Geraldo Alckmin, uma diferença de 14 pontos percentuais. O aumento da preferência do eleitorado brasileiro por Lula já tinha sido mostrado na quarta-feira pelo Datafolha, que apontou 56% para o presidente, contra 44% de Alckmin. Nesta quinta-feira, o Vox-Populi mostrou Lula com 55% dos votos válidos, contra 45% de seu adversário, segundo o portal IG.

Segundo a pesquisa Ibope, divulgada pelo Jornal Nacional, da TV Globo, a população brasileira também aprovou sua administração. Na amostragem passada, os índices avaliaram o governo como ótimo ou bom 44% das pessoas entrevistadas apoiavam o presidente. Na pesquisa de ontem, 45%.

O acréscimo nos percentuais de Lula comprova que o presidente foi o grande vitorioso no debate promovido pela TV bandeirantes, no último domingo. Conforme constatou a pesquisa Vox-Populi, 32% dos telespectadores consideram Lula vencedor, sendo que Alkmin teve 30% das preferências.

Em todas as pesquisas, Lula está despontando na frente em todas as regiões do país. A Datafolha, por exemplo, mostra No Norte e Centro-Oeste, Lula tinha 50% das intenções de votos. Segundo o Datafolha, o presidente manteve sua vantagem, enquanto que Alckmin caiu três pontos percentuais, de 44% para 41%. No Sudeste, Alckmin também caiu 2% depois do debate realizado no domingo, na TV Bandeirantes. Lula, que tinha 45% das preferências do eleitorado, manteve seus índices, enquanto que seu adversário desceu de 47% para 45%.

No Sul, Lula subiu de 33% para 38%, enquanto que Alckmin desceu de 57% para 54%. No Nordeste, onde o presidente sempre manteve uma acentuada vantagem, os números a favor de Lula cresceram ainda mais, de 67% para 71%, enquanto que Alckmin caiu de 28% para 24%. A pesquisa do Ibope foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral.

O futuro de nossas crianças

Hoje, dia 12 de outubro, recomeçou o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Quem assistiu aos dois programas, pode perceber o que separa as duas candidaturas.

Lula deixou clara a diferença: ele e o candidato da oposição representam dois projetos de Nação.

Um bom exemplo da diferença está no tratamento dado à juventude.

Alckmin terminou seu programa dizendo que o futuro do Brasil depende de como tratarmos nossas crianças.

O governo Lula mostrou, em menos de quatro anos, que tem uma política para a juventude, que envolve cultura, educação, saúde, emprego e várias outras dimensões.

Já a política do governo Alckmin para a juventude, depois de doze anos de tucanato no estado de São Paulo, pode ser resumida num símbolo: a Febem e seu modelo repressivo.

Matéria publicada pela Agência Carta Maior, no dia 9 de outubro de 2006, dá um quadro de como funciona uma unidade da Febem: denúncias de tortura, humilhações e abusos, ocorrências de choques elétricos, espancamentos, trancamento de internos em celas por 75 dias, ameaças de morte, abusos sexuais.

Reproduzimos abaixo alguns relatos, divulgados por Carta Maior, feitos por pessoas que visitaram recentemente uma unidade da Febem.

"Os internos vivem ali dentro como se fossem robôs. Têm que andar de cabeça baixa, com as mãos pra trás o tempo todo. Se reclamam de alguma coisa, recebem tapas na cara. Alguns funcionários batem mais do que outros; alguns cospem na cara dos internos. O divertimento deles é mandar os adolescentes rolarem nus no chão. Outros mandam os jovens tirarem a roupa, ficarem de quatro e latirem como cachorros. É a humilhação completa, a permissividade total. Dessa forma você animaliza qualquer ser humano. Me lembrou Abu Graib (presídio do Iraque que ficou conhecido em todo o mundo depois que fotos de cenas de tortura praticadas pelo exército americano foram divulgadas]", conta Paulo Sampaio, da Associação dos Cristãos para a Abolição da Tortura (ACAT).

Na descrição do representante da OAB, Francisco Lúcio França, o local parece um "campo de concentração nazista (...) Os meninos ficam sentados no cimento durante todo o tempo. Às 22h recebem um colchão, que é recolhido às 6h. O lugar parece uma valeta de cemitério. Vimos três internos nessa situação. Um vai ficar de castigo por 30 dias porque trocou a sandália com o irmão durante a última visita. Outro porque desenhou um menino fumando no caderno", conta Paulo Sampaio. "Um adolescente de 14 anos que já tinha ficado no castigo, ao saber que corria o risco de ir pra lá de novo, tentou se enforcar com uma camisa. Depois levou uma surra porque tentou se matar", relata.

Roseli Diccine Mariano, que era coordenadora pedagógica da Unidade de Internação de Bauru, declarou à Carta Maior que tem "vergonha, como educadora, de ter que denunciar quem deveria estar do nosso lado na educação dessas pessoas. Quando a gente diz que quer recuperar um jovem da Febem, é para recuperar o país. Não vamos desistir da crença no ser humano. Acredito que há uma recuperação, mas pra isso é preciso seguir o caminho certo. Só que é uma atrocidade o que está acontecendo lá dentro. A gente fica doente de ver o martírio dessas crianças. O ser humano dá o que recebe. Se recebe violência, como vai devolver carinho?".

A Febem é um símbolo da política do governo Alckmin para a juventude. Com esta política, não se constrói nenhum futuro, apenas a barbárie.

Teses equivocadas sobre o voto em Lula

No final de setembro, antes portanto do primeiro turno das eleições, a revista CartaCapital publicou um artigo em listou, analisou e desmontou as cinco mais difundidas falsas idéias que impedem a adequada compreensão de como se formaram as intenções a favor da reeleição do presidente Lula.

Acho interessante reproduzir aqui esse trecho devido a diversos ataques que temos sofrido nos comentários por eleitores do outro lado, que inconformados pela desvantagem cada vez maior que seu candidato apresenta, e pela ausência absoluta de argumentos substanciais para debater, partem para o ataque, não poucas vezes se utilizando do pensamento estreito e preconceituoso que Marcos Coimbra explicita no artigo, após uma breve análise do quadro que se apresentava pelas pesquisas naquele momento:


"Talvez seja a hora, então, de nos perguntarmos qual a natureza do voto em Lula, porque tanta gente diz pretender votar nele (...) Mais que um exercício acadêmico, isso pode ser essencial para que saibamos, como País, tirar das eleições que se avizinham aprendizagem e conseqüências, seja para o próximo quadriênio, seja para o futuro.

Parece-me que o primeiro passo é desfazer alguns equívocos que, a meu ver, têm impedido a adequada compreensão do que são e de como se formaram as intenções de voto em Lula. São cinco as principais teses equivocadas, que circulam quase desimpedidas no discurso de ampla porção de nossas elites, na sociedade e entre "formadores de opinião":

1) O voto em Lula é um voto "cínico"
É impressionante como essa suposição está presente nas opiniões e avaliações sobre a provável vitória de Lula este ano. Desde leigos a pessoas que se acham muito informadas, passando por eleitores que, eles próprios, pensam em votar no presidente, forma-se o sentimento de que é o "cinismo" do eleitor que explica o fato de Lula estar à frente.

Subjacente a essa idéia, parece estar o argumento que, para quem pretende votar em Lula, ética, moral, respeito às leis, são palavras sem sentido. Aceitar Lula é, assim, aceitar o vale-tudo e o jogo sujo, seja por concordar com ele, seja por não acreditar que exista alternativa.

Quem vê os eleitores de Lula dessa maneira não tem idéia de como foi traumático, para a quase totalidade deles, o "mensalão" e tudo que com ele veio à tona. Aquelas denúncias levaram os eleitores a uma revisão profunda de suas opiniões sobre o presidente e o PT, com a qual se debateram durante meses. Quem, como nós, acompanhou esse processo, através de inúmeras pesquisas, qualitativas e quantitativas, sabe que muitos desses, incluindo eleitores que sempre haviam votado Lula, hoje estão pensando em votar nos demais candidatos. Outros, como as mesmas pesquisas mostram, decidiram-se por Lula, mas nunca ignorando ou menosprezando o "mensalão".

O voto em Lula não é, portanto, um voto de quem "não está nem aí" para a ética. Lula está sendo votado apesar do "mensalão" e não porque o "mensalão" é irrelevante para seus eleitores.

2) O voto em Lula é um voto "burro"
Quando procuram "explicar" as razões de uma vitória de Lula, muitas pessoas em nossa elite ficam perplexas com a "burrice" do eleitor, que não consegue entender o "mensalão" e "tudo o que ele quer dizer" sobre Lula e seu governo. A isso se agrega a visão de que eleitores educados não votam Lula, sendo apenas entre analfabetos que está sua intenção de voto.

Os dados dessa e de muitas outras pesquisas não mostram isso, ao contrário. Lula não perde de Alckmin em nenhum nível de escolaridade e, em seu pior desempenho, empata com ele entre pessoas com escolaridade mais alta. Ou seja, há tantos eleitores com educação superior pensando em votar Alckmin, quanto em Lula.

Quanto ao argumento da "incapacidade de entender o mensalão", o que estamos vendo é que muitos eleitores, sem desconhecê-lo (e sem achar que é irrelevante), apenas não fizeram aquilo que a oposição a Lula, ao que parece, queria que fizessem: que julgassem Lula e seu governo com o único critério do "mensalão". Assim procedendo, ou seja, se recusando a uma avaliação tão simples e unidimensional, revelaram-se capazes de um julgamento mais "sofisticado" e complexo, tudo, menos "burro".

3) O voto em Lula é um voto "manipulado"
Uma terceira maneira de desqualificar o voto de eleitores que pensam em Lula é dizer que é um voto "manipulado" por mistificações de vários tipos, da comunicação e do marketing, mas, especialmente, do Bolsa-Família, o "mensalinho" dos muito pobres, como se chegou a dizer.

Essa tese não se sustenta em nada de sólido. As evidências de que o Bolsa-Família "explica" o voto em Lula nas famílias beneficiárias, ao contrário, são muito frágeis. Para sustentar o argumento, seria necessário mostrar, por exemplo, que eleitores de famílias análogas, mas onde não há beneficiários, votam de maneira significativamente diferente, coisa que, até agora, não foi demonstrada com adequado rigor.

Se, no plano individual, a prova é, no mínimo, inconclusiva, no plano coletivo é menos ainda. Se fosse verdade que o programa tem esse tipo de impacto, seria razoável esperar que, em cidades onde a cobertura é maior, a propensão a votar em Lula aumentasse, seja por haver mais beneficiários diretos, seja por haver ganhos indiretos (no comércio, especialmente) que seus habitantes creditassem a ele.

Com base em pesquisas como as que fazemos, nós e os demais institutos, não se pode dizer isso, nem de longe. O que temos, quando classificamos os municípios incluídos em nossa amostra em categorias de cobertura, indo de "baixa", "média", "alta" a "muito alta", é que todos os tipos de município tendem a votar de maneira semelhante. Ou seja, não há qualquer relação entre viver em municípios de "baixa" ou "muito alta" cobertura e votar ou não votar em Lula.

O Bolsa-Família é importante fator de voto em Lula, ainda que menos, para o eleitorado popular, que a política de salários e de preços que, em seu entender, o governo pratica e que é boa. Ambos são uma confirmação do que mais esperavam de Lula como presidente, por tudo o que ele tinha sido na vida: alguém que ia fazer diferença exatamente aí, nas condições de vida dos mais pobres. O Bolsa-Família é muito mais significativo como símbolo do que como a "esmolinha" que muitos imaginam que é. O programa é a promessa cumprida, o compromisso básico que Lula honrou.

4) O voto em Lula é um voto "nordestino"
Das teses não substanciadas sobre o voto em Lula, a que mais facilmente se desmente é a que afirma que "Lula ganha por causa do Nordeste", por isso se entendendo que sua vitória seria uma oposição entre o Brasil "moderno" e o "atrasado". Na fantasia de alguns articulistas, trazendo riscos de chegar à "ruptura" entre os dois.

Uma simples observação da tabela (publicada apenas na versão impressa da revista) mostra que essa idéia não se sustenta: em outras palavras e ao contrário do que imaginam muitos, Lula parece ter condições de vencer as eleições no primeiro turno, com ou sem o voto do Nordeste. É fato que ele tem muitos votos na região, mas também é verdade que ele é votado, e muito, no que essas pessoas pensam ser o Brasil "moderno".

5) O voto em Lula é um voto de "miseráveis"
A última de nossas teses equivocadas (que poderiam ser até mais, tantas são as concepções sem fundamento atualmente em curso) é outra em que nossa elite parece acreditar piamente: Lula vai ser eleito pelos "miseráveis" e contra a vontade do resto do País.

A base para esse equívoco é a apressada leitura de resultados de pesquisas, amplamente propagadas por parte da imprensa, que mostrariam que Lula perde "de muito" nas classes de renda mais alta, mas compensa esse "fracasso" com alta intenção de voto entre os muito pobres. Entre esses (e aí este se liga ao equívoco anterior), Lula vence, pois "comprou" seu voto com as migalhas que distribui.

Qualquer profissional de pesquisa sabe que tirar conclusões de subamostras muito limitadas não é admissível. Na maior parte das vezes, no entanto, é isso o que ocorre: em uma amostra nacional com 2 mil entrevistas (qualquer que seja o tamanho de eventuais expansões estaduais), entrevistados de famílias com mais de dez salários mínimos de renda, são cerca de cem, se não se fizer uma cota específica. Em um estrato desse tamanho, a margem de erro pode passar de 30%, tornando qualquer interpretação puro exercício de fantasia.

Para indicar quão frágil é o argumento, podemos ver na tabela o resultado das respostas sobre intenção de voto entre pessoas com esse nível de renda, em uma amostra cumulativa com cerca de mil entrevistados, ou seja, com tamanho adequado: o que os dados mostram é que Lula e Alckmin estão muito próximos na intenção de voto desse tipo de eleitor, a rigor empatados, na margem de erro, nacionalmente. Não há, portanto, razão para dizer que o voto em Lula é "miserável". Considerando apenas os segmentos com renda relativamente mais elevada, ele tem tantos votos quanto o candidato do PSDB."

Afinal, quem é o mentiroso?

Quem inventou a reeleição foi Fernando Henrique Cardoso. Inventou em benefício próprio, dele, dos tucanos e pefelistas.

Para aprovar a reeleição, parlamentares tiveram seus votos comprados e vendidos. O caso rendeu algumas cassações e renúncias. Mas o governo FHC abafou uma CPI que investigaria o caso.

Candidato à reeleição, FHC não participou de nenhum debate na campanha de 1998. Portanto, até outubro de 2006, os debates presidenciais reuniam apenas candidatos.

No dia 8 outubro de 2006, pela primeira vez um presidente da República participou de um debate. Ali estava o candidato Lula, mas estava também o presidente da República.

Alckmin não deu a mínima para isso. Faltou com todas as regras de educação e cortesia. Foi leviano e chegou ao cúmulo de chamar o presidente de mentiroso. Os fatos mostram outra coisa.

Os tucanos querem acabar com o Bolsa Família?

Alckmin negou, no debate, que pretenda fazer cortes nos investimentos sociais. Disse que vai "aperfeiçoar" o Bolsa Família.

Acontece que Yoshiaki Nakano, importante assessor de Alckmin, citado como um possível ministro da Fazenda de um governo tucano-pefelista, declarou à imprensa que quer fazer um corte anual de R$60 bilhões - ou 3% do PIB - no Orçamento Geral da União.

Só haveria um lugar onde efetuar esta redução: as chamadas despesas discricionárias, ou seja, custeio e investimentos dos ministérios. Em 2006, por exemplo, estas despesas são da ordem de R$82,7 bilhões.

Ou seja: Nakano defende cortar 75% do custeio e investimento. Isso implicaria em fechar o ministério do Desenvolvimento Social e do Combate a Fome, responsável pelo programa Bolsa Família.

Alckmin, cobrado sobre as declarações de Nakano, desautorizou seu assessor e argumentou que a proposta não consta do seu programa. Mas se é assim, por qual motivo Yoshiaki Nakano era e continua sendo indicado pela coligação tucano-pefelista para falar sobre o programa de Alckmin? Afinal, quem é mentiroso?

Os tucanos querem privatizar as estatais brasileiras?

Alckmin negou que pretenda retomar o programa de privatizações. Prometeu que não vai privatizar o Banco do Brasil, os Correios e a Petrobras.

O PSDB fez a mesma promessa em 1994, no segundo turno da eleição para o governo de São Paulo. Assinaram o compromisso de que não privatizariam o Banespa. Como sabemos, o compromisso foi rasgado e o Banespa foi privatizado.

Importante lembrar que Alckmin chefiou o programa de privatizações no estado de São Paulo.

Anos depois, FHC prometeu que não privatizaria a Petrobrás. Quem acreditou nessa promessa, tomou um susto quando descobriu que o governo tucano estava preparando a mudança de nome da empresa: de Petrobras para Petrobrax. A mudança de nome fazia parte dos preparativos para a privatização.

A Petrobras não foi vendida, mas parte das ações da empresa foi privatizada pelo governo tucano-pefelista.

Recentemente, Luiz Carlos Mendonça de Barros, um dos principais economistas do PSDB, disse à revista Exame que a Petrobras, os serviços portuários, as estradas de rodagem e o setor elétrico poderiam entrar na fila das privatizações, se Alckmin for eleito.

Ou seja: agora, como em 1994, os tucanos falam reservadamente aquilo que negam de público. Quem é mentiroso?

Tucano voa de avião?

Alckmin classificou como "dinheiro jogado fora" a compra de um avião pela presidência da República. Prometeu, se eleito, vender a aeronave.

Bastaria o ex-governador analisar as despesas do governo do Estado de São Paulo ou do governo FHC, com passagens aéreas e locação de aeronaves, para descobrir que adquirir uma aeronave permite economizar dinheiro.

Sem falar nas questões logísticas e de segurança envolvidas.

Aliás, o tucano, que gosta tanto dos Estados Unidos, deveria lembrar que o presidente norte-americano desloca-se numa aeronave do governo.

Mas a questão principal é outra: num país do tamanho do Brasil, será que não há nada mais importante do que discutir a compra de uma aeronave? Ou será que tratar deste assunto é um expediente para não discutir temas infinitamente mais importantes, como a explosão da dívida pública, do desemprego e da pobreza durante os governos tucanos? Afinal, quem é mentiroso?

Tucanos preferem concursos de moda?

Alckmin não gostou da "insinuação" segundo a qual é um neoliberal, adepto do fracasso modelo do "Estado mínimo".

O ex-governador deve ter esquecido o que fizeram os governos tucanos, inclusive o seu.

Pelo visto, esqueceu inclusive uma entrevista que concedeu à revista Época, onde afirma que nos hospitais que teria construído, "não há funcionário público. É tudo organização social sem fins lucrativos, do terceiro setor, com contrato de gestão para ser fiscalizado"

Vamos traduzir as palavras de Alckmin, do tucanês para o português: terceirização e fim dos concursos públicos, sucateamento do Estado e queda na qualidade do atendimento. Numa síntese: neoliberalismo. Afinal, quem é o mentiroso?

O telhado de vidro de Alckmin

Se a eleição presidencial fosse hoje, Lula venceria com 56% dos votos válidos. Este foi o resultado apontado pela pesquisa Datafolha, no dia 11 de outubro.

Os apoiadores de Lula recebem a pesquisa com alegria. Mas não subiremos no salto alto: faltam 18 dias para a eleição e a direita brasileira já demonstrou que não brinca em serviço.

Um exemplo disso é a revista Veja e a revista Época, que colocaram Alckmin na capa.

Veja foi além: espalhou outdoors por todas as cidades brasileiras, com reproduções gigantes da fotografia de Alckmin, numa propaganda eleitoral tão descarada, que o Tribunal Superior Eleitoral atendeu ao pedido da coligação "A força do povo" e mandou a editora remover os cartazes da rua.

O jornal O Estado de S.Paulo não deixou por menos. Além da cobertura tendenciosa, o jornal declarou em editorial que Alckmin teria vencido o debate entre os candidatos a presidente, realizado pela TV Bandeirantes, no dia 8 de outubro.

O Estadão é tão descarado, que chegou ao ponto de citar o debate realizado pela Globo, no segundo turno de 1989, como suposta demonstração de que Lula seria "despreparado para o debate político em público".

Naquela ocasião, a Rede Globo divulgou em seu noticiário cenas do debate, editadas de forma a favorecer Collor.

De toda forma, ao citar o debate de 1989, o Estadão comete um ato falho, pois lembra as semelhanças entre o Collor de 1989 e o Alckmin de 2006. Entre as semelhanças, estão a hipocrisia e o moralismo de ocasião.

Só para lembrar: Alckmin questionou Lula sobre as denúncias de corrupção e disse que o presidente deveria obter respostas junto aos "seus amigos mais íntimos".

Alckmin não deveria colocar o debate neste nível.

Afinal, alguém poderia perguntar se ele sabia que sua filha era funcionária de uma empresa acusada de contrabando, a Daslu, ou se tinha conhecimento que sua esposa ganhou de presente 400 vestidinhos chiques.

Se mesmo assim Alckmin achou melhor correr o risco, é porque sabe que os oito anos de FHC no governo federal e os 12 anos de governo tucano em São Paulo não são um bom contraponto aos quatro anos de governo Lula.

quarta-feira, outubro 11, 2006

boneco chuchu foge da raia quando o assunto é o PCC




"$inhá mídia:

Venho por meio deste pedir-lhe, encarecidamente, que continue com este seu trabalho de tentar transformar chuChucky num misto de santo e herói, contrariando todas evidências em contrário, como, por um único exemplo, está escancarado num vídeo produzido por uma equipe de um programa australiano de tevê (acima) que, com duas ou três perguntas, conseguiu despertar o boneco monstro que o médico e você, $inhá, fazem questão de esconder, mas que às vezes, como no debate de domingo, vem à tona.

Graças ao seu papel, $inhá mídia, às suas tramóias e, acima de tudo, à inteligência do povo brasileiro que vive fora das classes média, média alta e alta, as últimas pesquisas indicam o que as gentes pensam não apenas sobre o $eu candidato, mas também sobre você.

Gratíssimo"
(texto publicado no blog AntiGOLPE)

Democracia é maior que qualquer um de nós

Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.

Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social. Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.

É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta. Discordo disso. Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social.

No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores. O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.

Agora vamos à questão ética.

No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.

Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.

Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos. Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse.

Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos. Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades.

Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos. Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.


(Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia política na USP, diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil", da Companhia das Letras, em artigo publicado pela Folha de São Paulo no dia 01/10/2006)

Lula amplia vantagem sobre Alckmin após debate

A primeira pesquisa Datafolha após o debate na TV Bandeirantes entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB), realizado no último domingo, aponta que a vantagem do candidato petista subiu para 11 pontos em relação ao seu adversário tucano.

A intenção de voto em Lula oscilou de 50% para 51%. Já Alckmin caiu três pontos, de 43% para 40%, em relação a pesquisa anterior publicada no último dia 6.

Considerando apenas os votos válidos, excluindo brancos e nulos, o candidato do PT à reeleição tem 56% contra 44% do ex-governador de São Paulo. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos, para mais ou para menos.

A pesquisa revelou ainda que Lula e Alckmin tiveram desempenho semelhante no debate de domingo. Para 43% dos que viram o debate, o tucano venceu. Lula foi o melhor para 41%. Mas Alckmin perdeu mais pontos nos segmentos que deram mais audiência e repercussão ao debate, ou seja, os mais escolarizados e de maior renda.

Houve perdas no Sul, onde o tucano apresentava vantagem, e também dos eleitores de Heloisa Helena (PSOL), candidata derrotada no primeiro turno. A comparação é feita com pesquisa feita na sexta-feira passada (5), antes do debate.

Também não houve variação na avaliação do governo. Continua havendo 49% de ótimo/bom, 33% de regular e 17% de ruim/péssimo.

O Datafolha entrevistou 2.868 eleitores em 194 municípios de 25 Estados. A pesquisa foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número 21.972/2006.


(Charge: Bira Dantas)

Comentário de Lúcia Hipólito tem 100% de margem de erro

Hoje, quarta-feira dia 11 de outubro, vale comentar um comentário que ouvi na CBN às 8 da manhã. Lúcia Hipólito, a dublê de cientista política e militante anti-petista ultrapassou todos os limites da razoabilidade e expôs a classe dos cientistas políticos - à qual pertenço - ao descrédito total, tamanha a falta de rigor e partidarismo (como sempre) de que se valeu para examinar a última pesquisa Datafolha publicada no jornal Folha de São Paulo que está nas bancas.

Ela (mais a Miriam Leitão, sua colega de "rádia") decretaram ontem que "o Geraldo" vencera o debate. Estabeleceram, de suas próprias axilas, que este teria sido o saldo da peleja, depois de auscultar, sabe-se lá como, o clima de opinião entre os telespectadores.

Uma vez enfiada a idéia (jericoacoara, diga-se de passagem) na cabeça, hoje Hipólito se confrontou com a pesquisa Datafolha, que trouxe poucas mas singelas informações: apenas 41% do público assistiu o embate. Entre os que assistiram, deu empate técnico: 43 a 41 pró-Alckmin. Seria interessantíssimo se a comentarista abordasse a novidade destacada pelo diretor do instituto: "se o debate exerceu alguma influência foi entre os que têm renda e escolaridade mais altas". "O fato novo entre as duas pesquisas [a de hoje e a de sexta-feira passada] foi o debate, e foi nesses segmentos que Alckmin caiu mais", ele diz. Entre os eleitores que têm nível superior de escolaridade, 45% disseram ter visto vitória de Alckmin, contra 25% que consideraram Lula o vencedor do debate. Nessa faixa do eleitorado, as intenções de voto de Alckmin caíram de 56% nos dias 5 e 6 para 53% ontem.

Não obstante os fatos, questionada por um Heródoto Barbeiro indisfarçadamente mau-humorado, Lúcia Hipólito afirmou, categórica, que Alckmin venceu o debate e - pior - que esta nova pesquisa não trazia NADA de novo, desconsiderando a variação claramente negativa de Alckmin, para além da margem de erro de 2 pontos.
"Nada mudou. Alckmin venceu o debate". Com 100% de erro, a assertiva hipoliteana é cômica e trágica ao mesmo tempo, especialmente porque vem de alguém que, não faz muito tempo, soltava foguetes quando constatadas variações positivas mínimas do Picolé de Chuchu, ainda que dentro das margens de erro.

Cordialmente,
Ricardo

(enviado por email pelo cientista político Ricardo Arreguy, primeiro para a própria Lúcia Hipólito, e depois para este blog)

Alckmin gastou mais que valor de avião presidencial em viagens

O candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, gastou R$130 milhões com passagens aéreas e aluguel de veículos e aeronaves entre 2001 e 2005, quando governou o Estado de São Paulo. O valor, confirmado pelo Sistema de Gerenciamento da Execução Orçamentária do estado (Sigeo), seria mais do que suficiente para comprar um Airbus igual ao que ficou conhecido como "Aerolula". Ou seja: em apenas quatro anos, Alckmin gastou com deslocamentos mais do que o valor de uma aeronave cujo tempo de vida é estimado em 30 anos.

Mesmo assim, o ex-governador classificou a compra do avião como "dinheiro jogado fora", em declaração feita durante debate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último domingo, na TV Bandeirantes.

O eleitor de São Paulo precisa saber quem é que está manipulando informações e "jogando dinheiro fora". Segundo o Sigeo, as despesas com locação de veículos e aeronaves cresceram 623,17% entre 2001 e 2005 em São Paulo, passando de R$5,39 milhões para R$39,04 milhões. Com passagens, houve aumento de 118,5% nos gastos, passando de R$4,9 milhões para R$10,71 milhões no mesmo período.

Embora Alckmin tenha dito que seu governo vendeu as aeronaves do Estado, as vendas não constam da relação de bens alienados na Assembléia Legislativa. Além disso, a proposta de Lei Orçamentária de 2007 prevê um valor de R$3,08 milhões para a manutenção de três aeronaves e uma quarta aparece na relação.

A compra do Airbus

A compra do Airbus Corporate Jetliner, batizado pela imprensa de "Aerolula", é resultado da aprovação de uma diretriz presidencial sobre o plano de reaparelhamento da Força Aérea Brasileira (FAB), datada de 13 de julho de 2000 - portanto, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

O contrato de aquisição da aeronave, assinado em 9 de fevereiro de 2004, contempla, além da aeronave, peças de reposição, equipamentos de apoio no solo, publicações técnicas, treinamento operacional e de manutenção e a assistência técnica, perfazendo o total de US$56,7 milhões, ou R$122 milhões ao câmbio de hoje. O Airbus pertence à FAB e não à Presidência da República.

Em entrevista ao jornal O Globo, o brigadeiro da FAB Francisco Joseli Parente Camelo, coordenador das viagens internacionais da Presidência da República, disse que, entre fevereiro de 1999 a abril de 2001, o governo gastou US$5 milhões em aluguel de aviões para algumas das viagens internacionais do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

"Com a média do número de viagens de Fernando Henrique e do presidente Lula o que foi gasto com o novo avião vai estar pago em dez anos. Seu tempo útil de vida é de 30 anos. Foi um negócio excelente. O avião não é do Lula, é do Estado brasileiro", afirmou o brigadeiro ao jornal.

Mais um dos golpes "limpos" da tucanalha...

Psol acusa PSDB de insinuar apoio de HH a Alckmin

O Psol vai representar contra o PSDB no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por uso indevido da imagem do partido em benefício da candidatura de Geraldo Alckmin à presidência da República. A legenda acusa os tucanos de usarem indevidamente a imagem do partido.

A campanha do candidato divulgou, em seu site oficial, dois adesivos com os dizeres: "Sou Heloísa e voto em Geraldo" e "Sou Cristovam e voto em Geraldo". Ontem, integrantes do Psol sustentam que o material induz os eleitores a pensar que o partido apóia Alckmin no segundo turno da corrida presidencial.

"Isso é um uso indevido da imagem do nosso partido, que não tomou esse tipo de decisão. Vamos interpelar o PSDB no TSE e proibir isso", afirmou nesta terça-feira o deputado Chico Alencar (Psol-RJ), no plenário da Câmara. Na semana passada, Heloísa Helena, que é presidente da legenda, proibiu seus correligionários de apoiarem publicamente o tucano ou o presidente Lula (PT), candidato à reeleição no segundo turno.

"Nós apelamos ao candidato Alckmin que retire o adesivo do seu site", afirmou a deputada Luciana Genro (Psol-RS), também no plenário. Segundo ela, o partido deixou claro que não apóia nenhum dos dois candidatos do segundo turno. "A posição do Psol não é de neutralidade. É de não apoio aos dois candidatos. A senadora Heloísa Helena não autorizou o uso do nome dela por nenhum dos candidatos", emendou.

Os adesivos estão em duas versões, para carros e camisetas. Surpreendidos pela reportagem do Congresso em Foco, os assessores do comitê de campanha de Alckmin em Brasília disseram que não sabiam* do material no site e prometeram manifestar-se sobre o assunto até o fim da tarde.

(Diego Moraes, para o Congresso em Foco)

* não sabiam??? como assim não sabiam??? e desde quando "não saber" é algo humanamente plausível na cartilha tucana??? vai ver que foi um hacker, né? ou então geração espontânea de conteúdo chegou à internet! é, deve ser...

terça-feira, outubro 10, 2006

Falta a dimensão humana a Alckmin

País ou shopping center?

Inconsistente, desnecessariamente agressivo, vazio, oco, vago, intolerante, repressivo e sobretudo moralista, eis como se qualifica o kit-discurso de Geraldo Alckmin, o candidato de plástico, não o "homem de gelo", como o definiu Marcelo Coelho, errando o material pois este na realidade é inorgânico e produzido artificialmente.

Por outro lado, o presidente Lula expressou-se com coerência e consistência, como um político hábil e experiente que, em nenhum momento do debate, subestimou o espectador deixando (como faz o seu opositor) de demonstrar que possui um lado humano, lado humano que em Lula se articula naturalmente e sem constrangimentos ao homem político.

Constrangedor é o adjetivo que cai como uma luva em Alckmin. Ele nos constrange, envergonha, embaraça: será por que, na essência, ele defende o indefensável?

Mas a dimensão humana parece faltar em GA. Não sei. Parece uma gravação. Esse kit-discurso vazio encomendado pela elite conservadora que nos assedia dia e noite na TV aberta, nos grandes jornais e revistas. Aliás, ele nem precisa ir a todos os debates. Realmente. É só mandar um videoteipe. Então se aperta o botão, clic, e lá está o sujeito falando. Vagamente, ocamente. Uma imagem via satélite. Faltando a tridimensão humana: será por que, na essência, ele defende o indefensável?

Privatizações? Alckmin afirmou que não fará nenhuma. Ou as manterá "em suspenso" durante o processo eletivo? Será por isso que o governador eleito Serra "suspendeu" o processo de privatização da Nossa Caixa e do Metrô paulista, este último feito na surdina, abafado pela imprensa até os metroviários paralisarem as operações em atitude de protesto?

Aliás, engrossando o caldo oligárquipo defendido por Alckmin, agora até os banqueiros parecem estar descontentes com Lula, não só por que foram enquadrados na lei de proteção ao consumidor (eles, que apenas queriam ser mantidos acima da lei, do bem e do mal), mas também devido à Resolução do Banco Central no. 3.402, a entrar em vigor a 1º. de janeiro de 2007, que determina que o trabalhador, a partir dessa data, poderá escolher o banco de sua preferência no qual o empregador depositará seu salário, desatrelando assim o contrato de trabalho do empréstimo consignado.

Semana passada, ouvi um estudante de Artes Plásticas comentar com os colegas que votaria em Alckmin porque ele defende seus "interesses". E quais seriam? Quais são os interesses desse jovem paulistano de 18 anos que frequenta uma faculdade cuja mensalidade custa R$ 2 mil, viaja com freqüência para Nova York, passa as férias em Miami e dirige um carro importado? Naturalmente, os do pai do rapazinho, que é empresário, emprega (mal) diretamente dezenas de pessoas e indiretamente (terceiriza) centenas e até milhares, cujos votos, por sua vez, vão na direção dos interesses políticos do patrão.

O que espanta é que esse rapaz "descolou" totalmente a figura do presidente da sua função de chefe da nação, cuja obrigação a priori é defender os interesses da população, pois para isso esta o elege (um sistema é democrático porque confere esse poder à população). "Descolou" a si mesmo da nação, como brasileiro e cidadão, encarando cinicamente as eleições presidenciais em seu país como uma espécie de vale-tudo. Um jogo que se vence a qualquer preço, que irá dar plenos poderes ao agente defensor dos nossos (deles) interesses.

Afinal, Alckmin não é o candidato dos empresários?

Então, descolando o debate da figura dos presidenciáveis, vamos à raiz do problema: dependendo do resultado destas eleições, ou o Brasil se afirma como sociedade, como nação e como país democrático e soberano, ou retrocede e se consolida como um país conservador dirigido pelas elites oligárquicas, um mix de Daslu e Opus Dei (1) - um shopping center cercado de miséria por todos os lados, inclusive o de dentro, que é o lugar do preconceito e do sistema de crenças falsas que constituem a má consciência coletiva, que é todo o conteúdo semântico da campanha alckmista.


(1) Na brilhante definição de Emir Sader, no Blog do Emir , em "O que está em jogo?", 02.10.2006.

Por Márcia Denser - Congresso em Foco, 10/10/2006

segunda-feira, outubro 09, 2006

Chumbinho de espalho

(Mauro Santayana, na Agência Carta Maior)

Em 1989, logo depois da visita a Roma de Lula e de Fernando Collor, perguntei a veterano político italiano, que estivera com os dois, qual fora a sua impressão de um e do outro.

"Bem" - me disse - "ambos me pareceram verdes, se pensamos nos políticos europeus. Mas Lula me pareceu boa matéria prima para se construir um estadista. Collor já está feito em sua vocação. É um cover-boy. Um belo garoto-propaganda de si mesmo."

Lembrei-me disso, ao assistir ao debate de domingo (8) entre Geraldo Alckmin e Lula, antes mesmo que Marta Suplicy se referisse ao ex-governador de São Paulo como "boneco de plástico". O Sr. Geraldo Alckmin estava visivelmente contrafeito em agir como se fosse ventríloquo de seus aliados do PFL, ao convocar Lula para a agressividade.

Não era o seu estilo, não era a sua conveniência. Cedera às pressões dos oligarcas do Nordeste que têm, além do desejo de poder, razões mais fortes para detestar Lula: o sertanejo de Pernambuco iniciou o processo de aposentadoria política desses senhores de engenho, para os quais - conforme a forte definição de Antonio Callado - a honra familiar e o banheiro só podem existir na casa grande.

O presidente relutou, insistiu em elevar o debate, mas foi obrigado a responder com ironia às provocações do adversário. Uma coisa ficou clara: o médico se comportou como um valentão de bar - ao chamar Lula de mentiroso - e o metalúrgico se manteve com elegância. Não devolveu a Alckmin os insultos, e se esquivou dos ataques de ordem pessoal. Não tocou em assuntos que embaraçariam o seu oponente, como o caso da Daslu e o caso dos vestidos. Enfim, Lula se manteve como um cavalheiro.

O autoritarismo totalitário de Alckmin se revelou, de forma cristalina, na crítica que fez à política externa do governo. Queria, por acaso, o ex-governador, que Lula enviasse força expedicionária à Bolívia, a fim de retomar, manu militari, o controle das instalações da Petrobras? Se fosse presidente da República, Alckmin declararia guerra a La Paz? Repetiria, contra os índios do Altiplano, o ódio de Pedro II contra o os paraguaios, pelo fato de o ditador Solano López ter ousado insinuar a intenção de casar-se com uma das filhas do imperador? Nesse ponto, a postura do atual presidente foi a mais correta. Tratou de mostrar os êxitos inegáveis da política externa, confirmados pelo saldo dos balanços comerciais e de pagamentos. E respondeu, de forma irretorquível, com o acerto de sua política ao admitir a importação de produtos da China: o saldo comercial é superavitário para o Brasil.

Lula disse a Alckmin que ele não poderia resolver em quatro anos os problemas criados por "eles" em quatro séculos. Alckmin respondeu que o PSDB não existe há 400 anos, e não houve tempo para que Lula retorquisse, esclarecendo que "eles" não são o PSDB, mas todas as oligarquias brasileiras, que vêm dominando o país desde que Tomé de Sousa chegou à Bahia.

É interessante registrar uma curiosidade. Se Alckmin foi eleito vereador aos 19 anos, antes de concluir seu curso de medicina, se foi, em seguida, eleito prefeito e, depois, deputado - quando foi que sua excelência exerceu a medicina em tempo integral, a ponto de dizer a Lula que ele entende de saúde e o presidente, não? Como se sabe, Alckmin é anestesista - especialidade que, em alguns países, é vista apenas como técnica auxiliar na cirurgia.

Lula tem munição na cartucheira para abater elefantes. Por enquanto, pelo que se viu e ouviu, usou só chumbinho de espalho. Mas, nos próximos debates, se o adversário continuar nos ataques rasteiros, o presidente pode acionar a sua bazuca.

O boneco de pano foi traído pela velocidade

(Por Renato Rovai, na Revista Forum)

Foi até engraçado ver o Alckmin fazendo aquele papel de moleque briguento para convencer os eleitores de Lula de que ele não é um boneco de pano com gosto de nada. Que sabe falar grosso e dar piti, ser barraqueiro. Pois é, até que funcionou no primeiro bloco, mas depois...

Alguns detalhes que a arrogância paulista do comitê de análise tucana incrustada na mídia não vai perceber é que Alckmin falou só para os de cá, da beira do Tietê e do Pinheiros, mas só para os do lado de cá da ponte.

O povo mineiro e carioca, sem falar os nordestinos, com quem conversei, ficaram pasmos com o tom e a arrogância. Primeiro, porque parecia um grilo falante, tagarela, paulistão, completamente paulistão.

A vitória de Lula neste debate se deu nos detalhes. O primeiro, se o PV vier a apóia-lo depois da defesa publica de Angra 3 é o fim da linha. A segunda, é que citar Santo Agostinho, e tratá-lo como guia de conduta, é dizer adeus aos votos protestantes. Dizer que de Febem entende ele, que esteve lá esses anos todos, faz com que ele se dê ao trabalho ao menos de explicar por que processa Conceição Paganele e Ariel de Casto Alves, militantes da sociedade civil que apontam maus tratos e torturas em unidades desse sistema carcerário da juventude paulista.

Sem falar do debate a respeito de política externa. Para quem entende do riscado (cada macaco no seu galho), foi um banho de Lula, que jogou Alckmin no colo de Bush. Lula mostrou a diferença entre a concepção do PSDB-PFL e a aliança PT-PSB-PCdoB. Só resta aos eleitores ideológicos de Heloísa Helena ou votarem, mesmo de narizes tapados, pelos interesses dos governos populares da América Latina (Bolívia e Venezuela, por exemplo) ou caírem no colo de Bush, e sua política golpista e de guerra.

Bem, mas vamos ao óbvio. O leitor vai cansar de ouvir que Alckmin deu um banho. Pura bobagem dos midióticas de plantão. Como disse um amigo carioca, parece que deram uma hóstia batizada para o boneco de pano paulista, que só falou de São Paulo, de uma São Paulo elitista, patética, das avenidas endinheiradas, das falcatruas contra o povão. Da São Paulo injusta, de um reino de hipocrisia, daquele Borba Gato que dá as costas para o outro lado do rio. Da Daslu e seus riquinhos, dos inúmeros helicópteros que dançam sobre os prédios da Faria Lima, dos bacacas que ficam acelerando seus carros e matando inocentes na beira nos pontos de ônibus. Daquela São Paulo que ignora o Brasil, daquela São Paulo tacanha que se acha melhor do que a Argentina, quanto mais do que o resto do Brasil.

Podem acreditar, amigos brasileiros não-paulistas, há um Estado de São Paulo melhor do que essa verve estúpida do discurso de Alckmin. Do que esse aceleramento arrogante, do que essa coisa de que São Paulo é o supra-sumo do Brasil.

Há uma São Paulo brasileira e mais generosa, menos ingrata e canalha. Isso mesmo, canalha.

BNDES contesta dados do setor de energia citados por Alckmin

(Anne Warth, para a Agência Estado)

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Demian Fiocca, desmentiu nesta segunda-feira declarações dadas no domingo, no debate entre presidenciáveis, pelo candidato da coligação PSDB-PFL à Presidência da República, Geraldo Alckmin, segundo as quais não houve nenhum investimento em geração de energia no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que, por esse motivo, haveria risco de racionamento de energia e apagão em 2009.

"Estas informações estão rigorosamente erradas. Acho importante esclarecer a realidade das perspectivas do setor energético porque 'fantasmas' inexistentes desse tipo poderiam afetar o cenário de investimentos do País", afirmou.

Segundo Fiocca, entre 2003 e 2006, o BNDES aprovou investimentos de R$13,2 bilhões no setor energético, dos quais já liberou R$7,6 bilhões, um total de 62 projetos que geraram 10,4GW. Ele citou como exemplo as usinas de Tucuruí IV - financiamento de R$900 milhões e geração de 4 mil MW -, Capim Branco I e II - 400MW cada -, Peixe Angical e Corumbá IV - que entram em operação neste ano -, Campos Novos - em operação em 2007 - e Barra Grande - em operação desde 2005. "Não procede a idéia de risco de racionamento ou falta de energia em 2009", afirmou.

O presidente do BNDES disse ainda que quem pode fazer a melhor avaliação da demanda de energia no País são as empresas distribuidoras de energia, que estão em contato com a maior parte dos usuários. De acordo com ele, as distribuidoras já fizeram suas projeções para os próximos cinco anos e especificamente para 2009 e, seguindo suas perspectivas, já contrataram 95% da energia que prevêem que existirá. "E a previsão deles é a melhor previsão existente", considerou. Segundo ele, os 5% restantes fazem parte de uma margem mantida por prudência, mas que poderá ser atendida pelo mercado de atacado. "Não foi contratado para que elas tenham flexibilidade."

Fiocca ressaltou que não pretendia fazer qualquer avaliação política do debate, mas acabou por alfinetar a oposição e o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao final de suas declarações. "Eu até entendo que, do ponto de vista político, alguns queiram, enfim, tirar a atenção das deficiências de gestão e desempenho que levaram ao racionamento de 2001, mas tentar dizer que isso pode se repetir, politicamente, acho que não é adequado porque poderia minar o ambiente de investimentos no País", declarou.

"O País está desde 2004 num ciclo de crescimento que todos gostaríamos que fosse ainda mais acelerado, mas que de todo modo já é superior ao que o Brasil registrou nos últimos 20 anos. Ou seja, o Brasil está crescendo mais hoje do que crescia no passado e tem uma perspectiva favorável de investimentos", finalizou.

Fiocca fez as declarações após participar da webconferência Linhas de Crédito para Micro e Pequenas Empresas, realizada pelo Sebrae e pelo BNDES, na manhã desta segunda, na capital paulista.

Polícia descobre ligação entre sanguessugas e PSDB

A revista IstoÉ desta semana traz uma reportagem em que trata das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público sobre as contas bancárias do empresário Abel Pereira, apontado como o operador tucano na máfia das ambulâncias. De acordo com a reportagem "Devassa sobre Abel", assinada pelo jornalista Hugo Marques, Pereira é apontado pelos chefes dos sanguessugas como operador de Barjas Negri (PSDB), o último ministro da Saúde na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

Segundo a matéria, a Polícia Federal e o Ministério Público investigam um lote de documentos que poderão levar à efetiva participação de Barjas Negri no esquema de superfaturamento na compra de ambulâncias. "São cheques e depósitos bancários que comprometem o empresário paulista Abel Pereira, apontado pelos empresários Darci e Luiz Antônio Vedoin - os chefes dos sanguessugas - como o operador do ex-ministro. Ainda essa semana, Abel será chamado para depor e terá que explicar as suas relações com os Vedoin", informa a reportagem.

Durante o depoimento, devem ser colocadas diante do empresário as cópias de 15 cheques que totalizam R$601,2 mil. "Esses cheques teriam sido entregues a Abel como propina pela venda das ambulâncias superfaturadas. As respostas dadas por Abel serão confrontadas futuramente com os dados obtidos a partir da quebra do sigilo bancário do empresário, solicitada à Justiça Federal pelo Ministério Público e pela PF. Além disso, a polícia também está trabalhando no rastreamento desses cheques. Dessa forma, mesmo que eles não tenham passado pelas contas do empresário, se descobrirá o destino que tiveram e os favorecidos terão que prestar esclarecimentos", aponta a IstoÉ.

De acordo com a revista, a documentação e os depoimentos prestados pelos Vedoin somam-se às gravações telefônicas que vinham sendo efetuadas na investigação dos sanguessugas. "Há o registro de diversos telefonemas entre Abel e Luiz Antônio. Segundo o depoimento de Vedoin, Abel agia em nome do ministro Barjas Negri, ex-secretário executivo do Ministério na gestão de José Serra e seu sucessor a partir de março de 2002". Hoje, Negri é prefeito de Piracicaba, no interior de São Paulo.

Segundo a IstoÉ, "quanto mais os investigadores remexem na máfia dos sanguessugas, mais descobrem ligações com o PSDB". "Em 2001, segundo documentos disponibilizados pelos Vedoin, toda a bancada do partido estava unida em torno da liberação de dinheiro para a compra de ambulâncias. Quem indicava os municípios a serem contemplados pelo Ministério da Saúde era o deputado Lino Rossi, do PSDB. Entre os parlamentares que autorizavam Lino a operar o dinheiro das emendas com a máfia estão os ex-deputados Ricarte Freitas e Pedro Henry, além do senador Antero Paes de Barros. Todos estavam no PSDB".

(Agência Informes)

O presidente Lula derrota o chuchu de plástico


O debate entre Lula e Alckmin, realizado pela Rede Bandeirantes, inaugurou oficialmente o segundo turno da campanha presidencial. É o primeiro de vários que devem ocorrer daqui até o dia 26 de outubro, data que a legislação eleitoral estabelece como sendo a última para realização de eventos do tipo.

O debate serviu como "amostra" do que será o segundo turno das eleições: muita agressividade por parte da direita, debate sobre corrupção, comparação de governos e confronto entre diferentes visões de programa para o Brasil.

Mal terminou o debate, começaram as avaliações sobre quem ganhou e quem perdeu (ver, por exemplo, o que diz o site da campanha Lula).

Como a maior parte dos meios de comunicação é simpatizante da candidatura Alckmin, cabe aos apoiadores da candidatura Lula repercutir o debate, tanto ouvindo a opinião das pessoas, quanto dando nossa opinião.

É importante, em primeiro lugar, destacar que Alckmin não está à altura de assumir a presidência da República. Alckmin não conhece o Brasil. Alckmin não conhece os grandes problemas nacionais.

O discurso de Alckmin é ensaiado. Nas perguntas, nas respostas, nas réplicas ou nas tréplicas, Alckmin repete chavões. Seu truque é a velocidade: são tantas as palavras, são tantas as mentiras, são tantas as acusações, são tantas as bravatas, que o telespectador não consegue acompanhar.

Por exemplo: Alckmin fala que vai cortar "gastos". Quando se pergunta quais gastos, ele responde: gastos com corrupção, com comissionados, com a ineficiência e com licitações malfeitas.

Essa resposta é como o ditado: "por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento". Os "gastos" que Alckmin quer cortar são os investimentos sociais, que cresceram durante o governo Lula. Por exemplo, o bolsa-família.

Claro que ele não pode falar isso abertamente. Como também não pode falar que, se fosse eleito presidente, retomaria o programa de privatizações. Vamos lembrar de 1994: FHC por acaso falou que iria privatizar a Vale do Rio Doce?

Por mais que tenha ensaiado, Alckmin não pode mudar a realidade.

Foi no governo FHC que o Brasil viveu o "apagão". O ministro do "apagão" foi José Jorge, que hoje é candidato a vice-presidente de Alckmin.

Ao contrário do que disse Alckmin, não foi a falta de chuvas que causou o apagão. Foi a falta de investimento, as privatizações e a incompetência administrativa.

Foi no governo Alckmin que o PCC apareceu. Foi no governo Alckmin que a Febem explodiu. Como pode falar em segurança, quem tem este currículo?

Como pode falar em combate à corrupção, quem articulou o arquivamento de 69 Comissões Parlamentares de Inquérito? Como pode falar de sanguessugas, quem contratou Barjas Negri como secretário da habitação? Como pode falar em escândalo, um homem que esteve à frente das privatizações no estado de São Paulo? Como pode falar em choque de gestão, quem deixou um rombo nas contas públicas do estado de São Paulo?

Alckmin não pode discutir o passado, porque os 8 anos de FHC e os 12 anos dos tucanos no governo de São Paulo constituem um desastre administrativo, social e econômico.

Basta dizer: enquanto os tucanos dependiam de empréstimos do Fundo Monetário Internacional, para poder fechar as contas do país, no governo Lula o Brasil não deve mais ao FMI.

Alckmin também não pode discutir o presente, porque os números favorecem o governo Lula: inflação em queda, juros em queda, dívida pública em queda, crédito mais barato, mais empregos, mais salário mínimo, mais políticas sociais.

Basta dizer: em quatro anos, cerca de 40 milhões de pessoas são beneficiadas pelo Bolsa Família. Só em São Paulo, são mais de 1,1 milhão de famílias Enquanto isso, depois de 12 anos de governo estadual tucano, há apenas 170 mil famílias beneficiadas pelo Renda Cidadã, o principal "programa" social do governo estadual.

Lula falou sobre educação, mostrando que hoje sua administração investe mais do que no governo anterior. No debate, Lula esclareceu que o governo federal investe R$64 milhões no Dose Certa, programa de doação de remédios para a população carente, que Alckmin divulga como se fosse do governo paulista.

Alckmin também não pode discutir o futuro, porque seu programa de governo representa a volta ao passado.


Uma prova disto foi o ato falho cometido pelos tucanos: eles não convidaram FHC para assistir ao debate entre Lula e Alckmin. E Geraldo ainda disse, literalmente, que "FHC foi um erro".

O que resta para Alckmin é repetir chavões, divulgar mentiras e fazer críticas mesquinhas.

Entre as críticas mesquinhas, há duas obsessões de Alckmin. A primeira delas: "Candidato Lula, de onde veio o dinheiro sujo - R$1,750 milhão em dólares e reais - para comprar o dossiê fajuto?"

Alckmin deve achar que ser presidente da República é igual a ser delegado de polícia ou promotor. Não é. Mas não é preciso ser delegado de polícia, nem presidente da República, para perceber algo óbvio: o maior beneficiário do escândalo do dossiê chama-se Geraldo Alckmin.

O papel do presidente da República é, por exemplo, o de escolher um procurador geral da República que não engavete processos, mesmo que sejam processos contra pessoas importantes do próprio governo. Isto Lula fez.

O papel do presidente da República é demitir qualquer pessoa que, no governo, cometa atos impróprios. Isto Lula fez. O mesmo não pode ser dito dos governos do PSDB. Foi no governo tucano de Minas que surgiu o valerioduto. E, no caso das máfias que atuavam no ministério da Saúde, 60% dos prefeitos envolvidos são do PSDB e do PFL.

Outra crítica mesquinha é sobre a compra de um avião presidencial. Alckmin diz que, se eleito, vai vender o avião. Com isto, Alckmin torna-se um candidato ainda menor. Este discurso, pautado decerto por alguma pesquisa qualitativa, beira ao ridículo. Ou ele acha que mesmo que um presidente da República não necessita de um avião próprio para deslocamento?

Apesar da baixaria cometida pelo candidato tucano, ficou clara a existência de importantes divergências programáticas entre as candidaturas Lula e Alckmin.

Por exemplo: a ênfase nas políticas sociais, inclusive na educação. A critica às privatizações feitas no governo FHC. A relação com a juventude. Uma política externa soberana, que não siga as orientações dos Estados Unidos.

Talvez a principal destas divergências tenha ficado clara quando Lula, respondendo às cobranças hipócritas do candidato tucano, disse: "Não queira que, em quatro anos, eu conserte o que vocês fizeram de errado em quatro séculos".

domingo, outubro 08, 2006

Lula vence debate da Band: "Alkmin, pense grande!"

Os brasileiros puderam reforçar sua convicção no voto em Lula hoje, depois de assistirem ao debate da TV Bandeirantes. O candidato da oposição não se mostrou competente no papel de agressor. Já Lula demonstrou firmeza ao denunciar a seletividade da pretensa indignação do candidato adversário com a questão ética. De fato, confrontado com o extenso portifólio de bandalheiras e barbeiragens gerenciais (privataria, apagão, repressão a 69 CPIs, escândalo da Nossa Caixa etc.) - todas elas sem punição ou investigação, Alkmin se apequenou, o que foi percebido pelo presidente, que pôs o dedo na ferida quando se defendeu em um dos inúmeros ataques atabalhoados do adversário: "Alkmin, pense grande!"
Claro que os tucanos vão achar que foi o chuchu quem venceu o debate, mas essa versão não colará. Diante do estadista, o ex-prefeito de Pindamonhangaba preferiu falar do avião da presidência da República a explicar como conciliar "aumento e melhoria" do Programa Bolsa-Família com o projeto de ajuste fiscal de PSDB e PFL, expresso em programa de governo e em manifestações de gente como o Mendonção e Bornhausen, que defendem abertamente novas privatizações e corte nos "gastos" da previdência e de programas sociais.
Se alguém aguardava muddança na vantagem de Lula nos levantamentos dos institutos de pesquisa, pode escrever aí: depois deste debate, a vantagem de Lula vai aumentar. Porque o povo brasileiro não é burro, nem desmemoriado. Xô Alkmin, xô turma do FHC!

Alckmin: moralismo, ineficiência e atraso

Geraldo Alckmin é um candidato conservador nos dois principais significados que o termo permite: no de preservar o status quo dos setores dominantes da sociedade brasileira e no de capitanear uma reação conservadora nas poucas áreas nas quais o Brasil mudou nos últimos anos: nos campos do pluralismo moral e religioso, das políticas heterodoxas na economia e das políticas de direitos humanos. Permitam-me elaborar de que maneira Alckmin é conservador em cada um deles.

Nos governos FHC e Lula, o Brasil avançou significativamente na separação entre religião e Estado e na aceitação do pluralismo religioso. Essa é uma dimensão central do republicanismo e de um importante processo de pluralização moral da sociedade brasileira. Alckmin parece ser, nesse quesito, o mais conservador dos candidatos à Presidência desde a redemocratização.

Suas relações com o Opus Dei incluem, segundo a revista "Época", ter um confessor ligado à ordem e realizar reuniões periódicas com membros da ordem no Palácio dos Bandeirantes. Essas relações revelam uma mistura perigosa entre religião e Estado e entre público e privado.

Além disso, o Opus Dei é conhecido internacionalmente por ligações escusas e secretas com o poder político. Alckmin rejeitou falar sobre suas relações com o Opus Dei na campanha. O Brasil pode se surpreender com essas relações caso escolha Alckmin.

No que diz respeito à questão econômica, um consenso tem se formado no Brasil nos últimos anos acerca dos limites das políticas neoliberais. Os quatro anos do segundo mandato FHC foram os anos de menor crescimento econômico na história recente do país. O crescimento nos últimos quatro anos foi um pouco melhor, mas aquém do que o país necessita.

Nesse momento, o consenso maior dentro do governo Lula é por uma política mais agressiva de crescimento econômico. Alckmin tende a reverter o debate econômico na direção da retomada das privatizações. Segundo a revista "Exame", Alckmin estaria muito próximo de economistas liberais ortodoxos como Malan, Armínio Fraga e José Pastore. Suas prioridades para a economia seriam o corte de gastos públicos, uma nova reforma previdenciária e a retomada das privatizações.

No caso mais conhecido de privatização hoje em São Paulo, o da linha 4 do Metrô, o Estado investirá 70% dos recursos, e a receita tarifária ficará integralmente com o parceiro privado por 30 anos. Esse é o padrão de privatização que podemos esperar em uma era Alckmin. Ele certamente significará índices muito baixos ou nulos de crescimento econômico motivados pelo fundamentalismo neoliberal.

O último ponto é a política de segurança e de direitos humanos. Alckmin tem uma política de segurança que, ao mesmo tempo, desrespeita os direitos humanos e é ineficiente. A sua apologia da violência policial e sua política carcerária parecem ter sido capazes de conjugar o pior dos dois mundos. O resultado todos conhecem: o aumento da população carcerária do Estado somente ampliou a vulnerabilidade do cidadão comum e sua insegurança física.

Nesse caso, o conservadorismo tem duas facetas: a incapacidade de pensar uma política de segurança moderna, aliada ao desrespeito secular das elites pelos direitos da população mais pobre. O resultado, mais uma vez, é uma política conservadora tanto nas suas concepções morais quanto no seu resultado administrativo.

Responder se Alckmin é um candidato conservador não significa necessariamente fazer um juízo de valor acerca do conservadorismo. Afinal, existem momentos nos quais conservar elementos da ordem política pode ser considerado uma atitude positiva.

Mas não é esse o caso da candidatura Alckmin. Ela é conservadora em dois sentidos muito específicos: no de querer retornar a um status quo que não permitirá o crescimento econômico nos próximos anos e no de querer insistir em valores morais próprios de uma sociedade oligárquica que contrariam uma agenda de ampliação de direitos no país.

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LEONARDO AVRITZER, 47, mestre em ciência política e doutor em sociologia, é professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) - reproduzido do blog Os amigos do Presidente Lula.

"Eles privatizaram tudo. Onde está o dinheiro?"

Em um comício que reuniu mais de 30 mil pessoas em Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou, em números, que mesmo a Bahia tendo sido governada por adversários políticos, não deixou de receber benefícios sociais, como o Bolsa Família e o Programa Luz para Todos. No comício, que teve a presença do governador eleito, Jaques Wagner, e do candidato eleito para o Senado, João Durval (PDT), além do prefeito de Salvador, João Henrique (PDT), o presidente criticou quem o acusa de querer dividir o país entre ricos e pobres.

"Agora estão dizendo que quero dividir o Brasil entre pobres e ricos. O que não quero é que o Brasil tenha pobres", disse Lula. "Essa divisão já existia antes de eu nascer", acrescentou Lula. No discurso, o presidente falou que seu governo atendeu 1,4 milhão de famílias com o Bolsa Família e mais 500 mil pessoas com o Luz para Todos. Segundo ele, a oposição diz que os programas sociais são gastos, quando, na verdade, são investimentos num país mais justo. "Entre construir um metro de asfalto e dar um prato de comida para uma criança que tem fome, prefiro dar o prato de comida", ressaltou o presidente.

Na Bahia, Lula voltou a falar que a intenção de seus adversários em acabar com o PT não prevaleceu no primeiro turno das eleições. "Foi o partido mais votado", afirmou, ressaltando que o próprio partido na Bahia acabou com um domínio político que já durava 16 anos. "A Bahia está dando uma lição de consciência política", disse o presidente, elogiando Jaques Wagner por ter feito uma aliança com outros partidos de oposição ao "carlismo" - alguns que nem mesmo são aliados da base governista, como o PPS e o PDT. O prefeito de Salvador confirmou que, para estar com Lula, teve que romper com o PDT. "Estar com Lula é estar com o povo", disse João Henrique.

Mais uma vez, Lula mostrou os números da economia brasileira, fazendo uma comparação com o governo anterior. "Eles privatizaram tudo. E onde está o dinheiro? Eles não sabem administrar, só sabem vender o patrimônio público para pagar dívidas que eles contraíram", disse Lula, acrescentando: "Mas nós, que éramos acusados de não saber administrar o país, estamos deixando um saldo positivo de R$47 bilhões na balança comercial. Quando esta elite governava, todos os anos os ministros deles viajavam para pedir dinheiro emprestado ao FMI. Mas nós chamamos o FMI e dissemos: toma aqui o que é de vocês, porque nós não queremos palpite em nosso governo".

Lula afirmou que o povo já está percebendo com mais clareza o preconceito que a elite tem contra os nordestinos e, neste segundo, irá perceber ainda com mais clareza. "A elite vê o nordestino como mão-de-obra. Mas além de pedreiro, o nordestino quer ser também engenheiro. Por isso estamos investindo em universidades. Vamos abrir uma extensão universitária em cada cidade pólo do Brasil. Uma escola técnica em cada cidade pólo do Brasil e vamos melhorar o salário dos professores. Quatro anos é muito pouco para arrumar o desmonte de 500 anos", finalizou o presidente.

A escolha nada inocente das palavras

(por Marco Aurélio Weissheimer, na Agência Carta Maior)

A disputa política em períodos eleitorais e não eleitorais é, entre outras coisas, uma disputa pela palavra, uma disputa pelo significado das palavras. A hegemonia neoliberal das últimas décadas expressou-se de modo avassalador no terreno discursivo. Algumas palavras e expressões são usadas diariamente, vestidas com um manto de verdades supostamente inquestionáveis, como se descrevessem exatamente o que pretendem descrever. Descrevem mesmo? O economês é um terreno fértil desta disputa. A escolha das palavras nesta área, assim como ocorre também na política e na cultura, está longe de ser inocente. São sempre escolhas fardadas, fardadas para a guerra ideológica.

O que significam, por exemplo, expressões como "choque de gestão", "corte de gastos correntes", "melhorar o gasto público", "o governo gasta muito e gasta mal", "redução das despesas do governo", "redução das despesas com pessoal"? Nos últimos anos, tais expressões tomaram o lugar de outras que tiveram livre e entusiasmado trânsito na década de 90. Expressões como "estado mínimo", "privatização", "livre jogo dos mercados", "globalização". As derrotas políticas e econômicas que a vida real infringiu a tais expressões e seus respectivos significados obrigaram seus formuladores a realizar uma maquiagem conceitual. Assim, hoje, esses agentes políticos e econômicos não falam mais abertamente de privatizações e da suposta eficácia do estado mínimo, mas sim de choque de gestão, da necessidade de reduzir os gastos do governo. O que mudou, afinal de contas?

A lógica da máscara
Há fortes indícios para se pensar que o que mudou foram apenas as palavras, a casca. As idéias permanecem as mesmas, só que com uma roupagem diferente. Um dos principais indícios dessa metamorfose é o esforço para ocultar o que elas de fato significam. A lógica desse esforço é a lógica da máscara, do disfarce. O atual momento político do país fornece fartos exemplos. Por que a preferência, por exemplo, pelo uso da palavra "gasto" ao invés do uso de "investimento". Alguém aí já viu um candidato propondo a diminuição de investimentos públicos? Já o "corte de gastos" é moeda corrente, sendo apontada como índice de modernidade e do caminho a ser seguido. Onde terminam, afinal, os gastos e começam os investimentos? Qual a fronteira entre esses dois termos em um país com as desigualdades sociais como as que o Brasil apresenta? Quando vamos ao supermercado (aqueles que conseguem ir, é claro) comprar café, arroz, feijão, alface e iogurte, isso é gasto ou investimento? Comprar livros é gasto ou investimento? E ir ao cinema?

Aqueles que falam em "cortar os gastos públicos correntes" costumam, quando chegam a governos, cortar investimentos em educação, saúde e assistência social. Façamos uma rápida comparação entre os últimos governos do Brasil. O principal símbolo do governo Fernando Henrique Cardoso foi a privatização. Essa política, segundo apregoavam suas lideranças, era fundamental para inserir o país na modernidade. O resultado é bem conhecido de todos e resultou na derrota dos tucanos e de seus aliados nas eleições de 2002. Já no caso do governo Lula, há um razoável consenso de que a principal marca (ou uma das) é o Bolsa Família. O que vemos hoje na disputa política e eleitoral? O candidato Geraldo Alckmin, herdeiro do governo FHC, diz que vai "manter e ampliar o Bolsa Família", mas faz isso por absoluta impossibilidade política de se contrapor ao programa. O principal conceito de sua campanha, na verdade, é o famoso "choque de gestão", expressão que costuma andar de mãos dadas com "corte de gastos públicos correntes". Quais gastos públicos serão cortados para fornecer a eletricidade do "choque de gestão"?

A teoria do bolo
O candidato tucano não fala sobre onde vai cortar para aplicar seu "choque de gestão", mas um dos formuladores de seu programa de governo rompe o silêncio. Em entrevista à Folha de São Paulo (14/08/2006), o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações o governo FHC, afirmou: "Hoje, nós estamos tirando renda da parte eficiente da economia e dando para o governo para distribuir isso para o sujeito comer. Isso é muito bom do ponto de vista da distribuição de renda, mas do ponto de vista de uma economia de mercado é o pior caminho que você tem". Trata-se de uma variante da teoria do bolo, popularizada por Delfim Netto. Ou seja, é preciso investir (e, neste caso, jamais se usa a palavra "gasto"; dinheiro para pobre é gasto, dinheiro para rico é investimento) na "parte eficiente da economia", fazer o bolo crescer e todos ganharão com isso. Programas como o Bolsa Família, nesta concepção, são muito bons "para o sujeito comer" e "do ponto de vista da distribuição de renda", mas para a economia de mercado são péssimos. Para que serve a "economia de mercado", afinal? Para o economista tucano, parece que não é para melhorar a distribuição de renda no país. Há uma certa dose de sinceridade aí que não aparece nos discursos eleitorais.

Nunca é demais lembrar alguns números sobre o quadro da desigualdade social no Brasil. Os 10% mais ricos da população são donos de 46% da renda nacional, enquanto que os 50% mais pobres (cerca de 87 milhões de pessoas) ficam com apenas 13,3% do total da renda nacional. Países com renda per capita similar à brasileira têm 10% de pobres em sua população, enquanto nós estamos na casa dos 30%. Segundo dados oficiais, cerca de 55 milhões de brasileiros vivem em situação de pobreza. Destes, cerca de 22 milhões em condição de indigência. Por outro lado, o Brasil possui a segunda maior frota de aviões e helicópteros particulares do mundo, um número que expressa seguramente, para Mendonça de Barros, a "parte eficiente da economia". Essa "parte eficiente" fez com que o Brasil tivesse uma das maiores taxas médias de crescimento ao longo do século XX e, ao mesmo tempo, criasse uma das sociedades mais desiguais do planeta. Trata-se, sem dúvida, de um modelo chocante de gestão econômica.

O oculto e o visível
O que a "parte eficiente da economia", essa que anda em aviões e helicópteros particulares, tem a oferecer para os 22 milhões de brasileiros que vivem em situação de indigência (para não falar dos outros 30 milhões que vivem na linha da pobreza)? Tem algo "para o sujeito comer"? Um bom texto para refletir sobre essa pergunta é o livro "Vidas despedaçadas" (Jorge Zahar), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Segundo ele, hoje há uma população de milhões de párias sociais em todo o mundo, que não tem o menor significado para a chamada "economia de mercado". "Essa população fora-da-lei jamais será incorporada ao sistema produtivo, nem manterá qualquer tipo de relação estável. Também não há mais espaço para onde fugir, nem para pensar no futuro. Essas pessoas não têm futuro". Para os defensores das virtudes inquestionáveis da "economia de mercado", destinar dinheiro público para essa gente é um gasto inútil e não um investimento.

Os critérios de uso das palavras "gasto" e "investimento" já são bons indicadores para desmascarar qualquer presunção de inocência. Outro bom indicador é o uso da lógica da máscara, do disfarce, para esconder o real significado daquilo que se está dizendo. Não é à toa que os candidatos tucanos se vejam obrigados hoje a dizer que vão manter e ampliar o Bolsa Família, enquanto seus formuladores de programa de governo criticam abertamente o programa. Não é à toa que, nas eleições municipais de 2004, em Porto Alegre, o candidato José Fogaça (ex-líder do governo FHC no Senado) tenha sido obrigado a repetir a exaustão que iria manter o Orçamento Participativo. Tampouco é à toa que, ainda no RS, a candidata tucana ao governo estadual, Yeda Crusius, seja obrigada a assumir um compromisso público prometendo que não vai privatizar. Para driblar essas interdições, adotam novas expressões como "choque de gestão" ou "novo jeito de governar".

A escolha dessas palavras - e o ocultamento de outras - não é nada inocente. Nunca é. Como diz Fredric Jameson, há uma luta do discurso sendo travada aí. Uma boa máxima para se orientar neste terreno discursivo pantanoso pode ser a seguinte: "diga-me o que está sendo obrigado a dizer e o que está sendo obrigado a esconder e te direi quem tu és".