(Por Eduardo Guimarães, em seu blog Cidadania)
Se o Brasil tivesse uma grande imprensa em vez de um grande partido político, FHC estaria em maus lençóis. Digamos que vivêssemos na Finlândia ou na Bélgica, por exemplo. Se assim fosse, o ex-presidente teria que responder a questões que não saberia como. Contudo, ele está no Brasil, um país que não tem imprensa.
Assim sendo, como a grande imprensa não entrevista FHC da forma como deveria, o blog Cidadania o entrevistou. Acompanhem, a seguir, o resultado dessa conversa.
Blog Cidadania: O sr. diz que o Brasil cresce pouco, mas, quando o sr. foi presidente, crescia ainda menos do que hoje. O Sr. não está criticando o governo Lula por não fazer o que o seu governo também não fez?
FHC: Naquele tempo, havia crises econômicas mundiais, por isso o país não cresceu. Hoje, o mundo inteiro está crescendo e o Brasil, não.
BC: O Sr. está dizendo que, durante seus oito anos de governo, ninguém cresceu em parte nenhuma do mundo por causa de uma crise econômica "mundial"?
FHC: As crises do México, da Ásia, da Rússia, todas atrapalharam muito. A Argentina teve problemas muito piores do que os nossos...
BC: Mas esses problemas não foram de todos, "presidente". O Chile, por exemplo, vem crescendo, desde aquela época, a taxas expressivas. O baixo crescimento "mundial" do seu período no governo não atingiu apenas os países que tinham políticas cambiais consideradas "perigosas" por serem irreais?
FHC: Na verdade, nós tínhamos essa percepção de que era preciso desvalorizar o real, mas esperávamos uma boa oportunidade que, na nossa visão, não surgiu antes do ataque especulativo de janeiro de 1999.
BC: Foi bom o sr. ter tocado nesse ponto, "presidente", porque essa é, justamente, a próxima pergunta, sobre a desvalorização do real. Durante a campanha eleitoral de 1998, a oposição ao seu governo, encabeçada pelo PT, dizia que era preciso desvalorizar o real, mas o sr. disse, em montes de peças publicitárias de sua campanha naquele ano, que era desnecessário desvalorizar a moeda, e que se Lula vencesse a eleição, seria ele que desvalorizaria a moeda. Contudo, o sr. acaba de me dizer que o sr. esperava momento propício para desvalorizá-la. Afinal, qual é a verdade, o sr. tinha percepção de que era preciso desvalorizar o real ou não tinha?
FHC: Nós tínhamos a convicção de que era preciso desvalorizar o real em algum momento, mas não achávamos que era naquele momento da eleição.
BC: Mas a desvalorização veio de qualquer forma, nem dois meses depois que o sr. se reelegeu. Isso não prova que quando o PT dizia, durante a campanha eleitoral de 1998, que era preciso desvalorizar o real, ele estava certo e o sr. errado?
FHC: Ah, mas o PT não dizia isso porque acreditava no que dizia. Falava apenas para criar pânico. O PT apostava no quanto pior, melhor. Não era como a oposição que lhe fazemos hoje, responsável, propositiva.
BC: O sr. entende por "oposição responsável" o sr. e seu partido tentarem tirar do governo do PT um imposto que o sr. criou e transformou de "provisório" em "permanente", que é a CPMF?
FHC: Os tempos mudaram. Não há mais crise econômica. E o dinheiro da CPMF, meu sucessor usa para outras finalidades que não a Saúde, para a qual o imposto foi criado.
BC: Mas "presidente", uma das principais queixas da então oposição petista ao seu governo era a de que o dinheiro da CPMF não era usado na Saúde. Não lhe parece que o apoio ou o repúdio à cobrança de impostos depende apenas de aquele que critica ou apóia essa cobrança estar no governo ou na oposição? Será que tanto o sr. quanto o PT não eram - e ainda são - movidos muito mais pela conjuntura política do que pelo interesse público?
FHC: É que no tempo em que eu governava havia uma crise mundial, nós precisávamos da CMPF por causa da baixa arrecadação gerada pela crise.
BC: O sr. e seu partido têm criticado contundentemente o que a mídia chamou de "apagão aéreo". Essa seria a contrapartida petista ao apagão de energia elétrica ocorrido em seu governo?
FHC: O apagão aéreo é resultado da mais pura incompetência do PT; a escassez de energia elétrica durante meu governo, que nos obrigou a racioná-la, deveu-se às muitas crises econômicas mundiais, como a do México, em 1995, a crise asiática, em 1997 e 1998 e a crise russa, em 1998 e 1999.
BC: Voltando às crises "mundiais", os países envolvidos nelas - e muitos não foram afetados por elas - não eram justamente os que tinham o mesmo problema de câmbio irreal que tinha o Brasil?
FHC: Eram países muito diferentes entre si os que foram afetados pelas crises da década de 1990. O câmbio era só um detalhe, os problemas eram mundiais.
BC: Então como o sr. explica os muitos países, inclusive do Terceiro Mundo, que não foram afetados pelas crises que o sr. diz mundiais e que, em comum, tinham políticas cambiais livres?
FHC: A crise era mundial, era mundial, não vejo essa relação entre políticas cambiais que você afirma. Você só falou do Chile...
BC: Posso dar um outro exemplo: não foi justamente naqueles anos de "crise" que a economia chinesa cresceu exponencialmente e se consolidou como uma das maiores do mundo?
FHC: A China também não serve como exemplo, porque lá vigia o trabalho escravo. O trabalhador chinês ganha misérias.
BC: O sr. afirma que pagar misérias ao trabalhador foi o que gerou o crescimento econômico espantoso da China? Mas o peso dos salários no orçamento de uma empresa brasileira é um dos menores do mundo.
FHC: É que aqui temos outros problemas, como a Previdência, por exemplo.
BC: Mas o sr. tinha maioria no Congresso. Conseguiu facilmente aprovar a emenda constitucional que lhe permitiu candidatar-se à reeleição. Por que não aprovou uma reforma da Previdência?
FHC: É que a mudança na Constituição que permitiu aos prefeitos, governadores e presidentes disputarem a reeleição, foi uma mudança política. Mudanças econômicas eram mais difíceis de aprovar numa época em que o mundo estava em crise econômica.
BC: O sr. diz que o PT copiou seus programas sociais, mas em 2008 o governo federal irá destinar R$ 16,5 bilhões para projetos sociais como o Bolsa Família, que uniu as várias bolsas que seu governo pagava, mas que está investindo neles pelo menos umas cinco vezes mais do que o seu governo investia. Além disso, foram criados programas adicionais como o Prouni, que está permitindo a jovens pobres ingressarem no ensino superior como nunca havia acontecido antes no Brasil.
FHC: Você tem que entender que hoje há muito mais dinheiro para investir. Na minha época, o mundo estava em crise econômica, mas foi graças ao que EU plantei que o PT agora tem tanto dinheiro para investir em programas sociais.
BC: Mas durante seu segundo mandato, "presidente", o Brasil mergulhou numa crise enorme. A inflação disparou, o risco-país explodiu, o desemprego explodiu, a violência explodiu. Sua política cambial era irreal e gerava medo dos investidores externos de colocarem dinheiro no Brasil e obrigava o governo a aumentar exponencialmente os juros (seu governo chegou a pagar uma taxa Selic de 25%) para atrair ou manter dólares no país. Só na crise cambial de 1999, seu governo fez empréstimos externos da ordem de mais de 40 bilhões de dólares. Quais foram os benefícios que seu governo legou ao atual?
FHC: Meu governo acabou com a inflação, por exemplo.
BC: Mas a taxa de inflação de seu último ano de governo, por exemplo, ficou na casa dos dois dígitos, e o dólar chegou a R$4. Além disso, o plano Real não passou de uma variação de outros planos que foram implantados por toda América Latina, tendo sido o primeiro país a adotar a âncora cambial, a Bolívia.
FHC: Ah, inflação maior, fuga de divisas, tudo foi culpa do Lula. O mercado tinha medo dele. Por isso houve um ataque especulativo em 2002.
BC: Em 1999, em 2000 e em 2001 a culpa pela fuga de divisas, pelo desemprego e pela inflação em alta também foram do Lula, "presidente"? Porque nesses anos a inflação foi subindo, o desemprego aumentando... Além disso, se o seu governo tivesse realmente construído bons fundamentos econômicos, não seria o caso de o país ter resistido às incertezas geradas pela provável vitória de Lula em 2002?
FHC: É que em 2002 havia a crise argentina...
BC: Uma crise decorrente de um modelo cambial similar àquele que produziu a quebra do Brasil em 1999, não é?
FHC: O Brasil não "quebrou" em 1999. Tanto que recebemos empréstimos de dezenas de bilhões de dólares dos EUA e do FMI.
BC: Empréstimos que o atual governo pagou, não é?
FHC: Graças ao meu governo...
BC: Sei... Bem, o sr. tem dito que seria "golpe" o presidente Lula disputar um terceiro mandato e o acusa de pretender mudar a Constituição de forma que ela passe a permitir que presidentes possam disputar quantos mandatos quiserem. Mas o sr. não propôs mudança do texto constitucional que lhe permitiu disputar a reeleição? Tal proposta também não foi "golpista"?
FHC: Não fui eu que propus a emenda da reeleição, foi o Congresso.
BC: Foram seus aliados no Congresso... Aliás, dizem que seu ministro das comunicações Sergio Mota aliciou parlamentares (financeiramente) para que votassem a favor da mudança à Constituição. Surgiu até um caso de quatro deputados do Acre...
FHC: Essa é uma calúnia abjeta. Você veja que a emenda da reeleição passou no Congresso com uma margem de superioridade enorme. Eu não precisaria dos votos de alguns deputados que disseram que se venderam para votar a favor da emenda.
BC: "Presidente", esse é o argumento do governo Lula para dizer que não teria sentido pagar mensalão para os poucos deputados que teriam recebido dinheiro para votar de acordo com o governo. E os que foram identificados, foram poucos também, como no caso dos acusados de terem sido pagos para votar a favor da reeleição.
FHC: A diferença é que no meu caso, é verdade.
BC: Sobre corrupção, "presidente", o sr. e seu partido têm sido extremamente duros com o governo do seu sucessor. O PSDB exigiu, no Congresso, várias CPIs e conseguiu todas. Contudo, quando o sr. estava no governo, sua base de apoio conseguiu impedir a grande maioria das investigações parlamentares. Teve a CPI da corrupção, que não saiu, a da compra de votos da reeleição e várias outras. Hoje, porém, os sr. alega que quem não deve não deveria temer investigações. Não é uma contradição?
FHC: No meu tempo, o PT pedia CPIs para transformá-las em palanques políticos. E quem rejeitava as CPIs era o Congresso, não eu. Além do que, os escândalos petistas estão cheios de provas.
BC: É exatamente isso o que diz o presidente Lula, sobre a oposição querer fazer das CPIs palanques políticos. Mas posso dizer que ao menos no caso da CPI da compra de votos, as provas eram extremamente consistentes. Deputados foram flagrados em escuta telefônica dizendo que seu ex-ministro das Comunicações havia pago 200 mil reais a cada um para votarem a favor da emenda da reeleição.
FHC: Então eu respondo que quem barrou as CPIs no Congresso, quando eu governava, não fui eu, foi o Congresso.
BC: Foi sua base aliada no Congresso...
FHC: Eu não controlava a decisão dos parlamentares.
BC: O presidente Lula controla, "presidente"?
FHC: Isso você tem que perguntar a ele.
BC: Ok, "presidente", agradeço pela entrevista.
FHC: Não há de que.
Bem, o que vocês acharam? Parece mesmo uma entrevista com FHC, não? E é, de alguma forma, pois as respostas dele que vocês viram aqui, são exatamente as que ele vem dando no decorrer dos anos. Juntá-las todas requereu pesquisa na internet e aos meus arquivos particulares. Mas, quem tiver paciência, pode verificar que tudo aquilo que escrevi como se tivesse sido dito pelo ex-presidente, ele realmente disse em algum momento. Só tive que juntar declarações esparsas.
Agora, vocês já imaginaram se alguém de notoriedade na imprensa tivesse coragem de fazer uma entrevista desse tipo com FHC? Infelizmente, jornalistas famosos, que teriam acesso ao ex-presidente, não ousariam questioná-lo dessa forma. Assim, enquanto os jornalistas com meios de conseguir uma entrevista com ele não cumprem sua obrigação, fiquem com minha entrevista imaginária, que, de imaginária, só tem o fato de que não foi feita. Mas poderia ter sido, não é? Estou certo de que o resultado seria o que vocês acabam de ver.
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Movimento dos Sem-Mídia
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domingo, novembro 25, 2007
Entrevista com FHC
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quarta-feira, novembro 21, 2007
Só para comparar...
Recebi hoje, pelo grupo do MSM, entre outros bons textos, dois que me chamaram atenção por serem exemplos opostos de ética jornalística.
O primeiro é o texto da postagem anterior, "Para compreender a força de Lula", em que o professor Ladislau Dowbor traça um panorama da questão da desigualdade social e das políticas públicas praticadas pelo governo Lula, baseando-se em números oficiais, com fontes não só citadas como linkadas, ou seja: acessíveis a qualquer leitor. Mais do que despejar números, Dowbor cruza dados e os contextualiza, o que confere credibilidade e coerência ao texto.
O segundo é um post do blog Logística e Transporte, em que o autor, o engenheiro José Augusto Valente, põe abaixo, com dados, fontes e links, qualquer credibilidade ou coerência que poderia ter um artigo publicado no Estadão de hoje. Com o título Sem ferrovias, rodovias, hidrovias e portos, o festival de irresponsabilidades pinta um quadro tétrico para o futuro do Brasil, baseando-se em "fatos" do presente tais como "as estradas estão em petição de miséria", "as ferrovias praticamente não existem" e "os portos continuam reféns das Docas politizadas". Tais afirmações, ao contrário dos argumentos de Valente, não vêm acompanhadas de nem uma única pistazinha que ajude o leitor a descobrir de onde elas saíram, o que me faz deduzir que a origem das mesmas é tão somente (para não dizer outra coisa...) o sovaco da jornalista. Convido todos a lerem os dois - o artigo no Estadão e a análise do engenheiro - e tirarem suas próprias conclusões.
E ouso fazer um pedido: mesmo não encontrando de imediato uma fonte tão precisa quanto as do blog do engenheiro, mantenha sempre um pé atrás com a grande mídia. Pergunte-se sempre de onde veio aquela informação, quem disse, quando, em que contexto, é comprovável? Se o artigo contiver palavras e expressões do tipo "supostamente", "hipótese", "não-confirmado" ou "documentos guardados a sete chaves", desconfie em dobro. Não serei leviana de dizer que a mídia mente sempre, mas que é bom checar antes de comprar gato por lebre, ah, disso eu não tenho a menor dúvida!
O primeiro é o texto da postagem anterior, "Para compreender a força de Lula", em que o professor Ladislau Dowbor traça um panorama da questão da desigualdade social e das políticas públicas praticadas pelo governo Lula, baseando-se em números oficiais, com fontes não só citadas como linkadas, ou seja: acessíveis a qualquer leitor. Mais do que despejar números, Dowbor cruza dados e os contextualiza, o que confere credibilidade e coerência ao texto.
O segundo é um post do blog Logística e Transporte, em que o autor, o engenheiro José Augusto Valente, põe abaixo, com dados, fontes e links, qualquer credibilidade ou coerência que poderia ter um artigo publicado no Estadão de hoje. Com o título Sem ferrovias, rodovias, hidrovias e portos, o festival de irresponsabilidades pinta um quadro tétrico para o futuro do Brasil, baseando-se em "fatos" do presente tais como "as estradas estão em petição de miséria", "as ferrovias praticamente não existem" e "os portos continuam reféns das Docas politizadas". Tais afirmações, ao contrário dos argumentos de Valente, não vêm acompanhadas de nem uma única pistazinha que ajude o leitor a descobrir de onde elas saíram, o que me faz deduzir que a origem das mesmas é tão somente (para não dizer outra coisa...) o sovaco da jornalista. Convido todos a lerem os dois - o artigo no Estadão e a análise do engenheiro - e tirarem suas próprias conclusões.
E ouso fazer um pedido: mesmo não encontrando de imediato uma fonte tão precisa quanto as do blog do engenheiro, mantenha sempre um pé atrás com a grande mídia. Pergunte-se sempre de onde veio aquela informação, quem disse, quando, em que contexto, é comprovável? Se o artigo contiver palavras e expressões do tipo "supostamente", "hipótese", "não-confirmado" ou "documentos guardados a sete chaves", desconfie em dobro. Não serei leviana de dizer que a mídia mente sempre, mas que é bom checar antes de comprar gato por lebre, ah, disso eu não tenho a menor dúvida!
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Para compreender a força de Lula
Está na PNAD a explicação para a popularidade do presidente, que intriga mídia, direita e parte da esquerda. País tornou-se menos desigual, em múltiplos sentidos. Chamar os avanços alcançados de "assistencialismo" não ajuda a entender a realidade, nem a reivindicar mudanças mais profundas
Ladislau Dowbor, para o Le Monde Diplomatique Brasil
É tempo de fazer as contas. Com a deformação geral dos dados pelo prisma ideológico da grande mídia, torna-se necessário buscar nas fontes primárias de informação, nos dados do IBGE, como andam as coisas. A reeleição mostrou forte aprovação por parte dos segmentos mais pobres do país a Lula, mas os números reais sobre a evolução das condições de vida do brasileiro surgem com o atraso natural dos processo de elaboração de pesquisas. O IBGE publicou a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio de 2006, e também o Indicadores Sociais dos últimos 10 Anos. Vale a pena olhar a imagem que emerge: ela explica não só os votos, como o caminho que temos pela frente.
O principal número é, evidentemente, o aumento de 8,7 milhões de postos de trabalho no país durante o último governo. Isto representa um imenso avanço, pois se trata aqui de uma das principais raízes da desigualdade: grande parte dos brasileiros se vê excluída do direito de contribuir para a própria sobrevivência e para o desenvolvimento em geral. Entre 2005 e 2006 o avanço foi particularmente forte, com um aumento de 2,4%, resultado da entrada no mercado de trabalho de 2,1 milhões de pessoas. A expansão do emprego feminino é particularmente forte (3,3,%), enquanto o dos homens atingiu 1,8%. A formalização do emprego é muito significativa: 3 em cada 5 empregos criados são com carteira assinada. Atingimos assim, em 2006, 30,1 milhões de trabalhadores com carteira assinada, um aumento de 4,7% em um ano. O avanço é pois muito positivo, mas num quadro de herança dramático, que o próprio IBGE aponta: "mais da metade da população ocupada (49,1 milhões de pessoas) continuava formada por trabalhadores sem carteira assinada, por conta-própria ou sem remuneração" [1]
O segundo número, que ocupou as manchetes de todos os jornais, é a elevação dos rendimentos dos trabalhadores em 7,2%, entre 2005 e 2006. É um número extremamente forte, e coerente com os anos anteriores: a remuneração dos trabalhadores vinha caindo desde o final dos anos 1990, e começou a se elevar em 2003, desenhando desde então uma curva ascendente. Este é um número de grande importância, pois a desigualdade é, de longe, o nosso problema número um. É um número que reflete os avanços na criação de postos de trabalho vistos acima, e também os avanços no salário mínimo.
O salário mínimo teve um ganho real de 13,3% em 2006 relativamente a 2005, o que representa um salto fortíssimo para os trabalhadores que estão no que se chama hoje de "base da pirâmide" econômica. Consultas com pessoas que trabalham com as estatísticas da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Dieese/Seade sugerem que 26 milhões de trabalhadores foram abrangidos por este aumento. Além disto, como o salário mínimo é referência para o reajuste das aposentadorias, outras 16 milhões de pessoas teriam sido beneficiadas.
Aumento consistente nos salários e avanços no combate à desigualdade – inclusive entre as regiões
Um comentário é necessário aqui: um aumento de cem reais para uma família que tem um rendimento de, por exemplo, 4 mil reais não é significativo. No entanto, cem reais representam, para pessoas que têm de sobreviver com algumas centenas de reais por mês, um imenso alívio, a diferença entre poder ou não poder comprar melhor alimento ou um medicamento para a criança. A utilidade marginal da renda, em termos de impacto para o conforto das famílias, vai diminuindo conforme a renda aumenta. Do ponto de vista econômico, maximizar a utilidade dos recursos do país envolve o aumento da renda dos mais pobres. Isto vale tanto no aspecto social, em termos de satisfação gerada, como em termos de geração de demanda e conseqüente dinamização das atividades econômicas. O pobre não faz especulação financeira, compra bens e serviços. Tirar as pessoas da pobreza não é caridade, é bom senso social, e bom senso econômico.
Outra forma de a PNAD avaliar a evolução dos rendimentos já não é por trabalhador, na fonte de remuneração, e sim por domícilio, no ponto de chegada. Isso permite agregar as várias formas de remuneração na família. O rendimento médio domiciliar aumentou em 5,0% em 2005, e em 7,6% em 2006, o que é coerente com os dados de rendimento de trabalho, e torna os dados muito confiáveis, porque convergem. É bom lembrar, para quem tem menos familiaridade com este tipo de números, que um aumento de 7% ao ano significa que o rendimento dobra a cada 10 anos.
Detalhando as cifras acima, vemos outras coisas interessantes. O rendimento no trabalho das pessoas ocupadas, que na média nacional cresceu 7,2%, subiu 6,6% no Sudeste, mas avançou 12,1% no Nordeste. No caso do rendimento dos domicílios, o aumento médio nacional, conforme vimos, foi de 7,6%. Mas no Sul e no Sudeste, foi de 7%, enquanto no Nordeste foi de 11,7%. Ou seja, não só tivemos um forte avanço do conjunto, como a região mais atrasada, cujo avanço é mais importante para o reequilibramento nacional, teve o avanço mais acelerado. Em outros termos, a desigualdade regional está, pela primeira vez, sendo corrigida, e com números muito significativos. Relevantes, sem dúvida, mas ainda muito insuficientes: O rendimento médio domiciliar nordestino representava, em 2005, 52,8% do rendimento do Sudeste, passando para 57,8% em 2006. Um grande avanço, mas um imenso caminho pela frente.
Outro eixo importante de desigualdade está ligado à diferença de nível de remuneração entre o homem e a mulher. Os dados mostram a evolução seguinte: a remuneração da mulher, que equivalia a 58,7% da do homem, em 1996, pulou para 63,5% em 2004; 64,4% em 2005 e 65,6% em 2006. Nota-se uma lenta progressão, partindo de um nível que já é em si extremamente desigual. Ou seja, aqui também a direção é positiva, mas precisamos de muito mais.
Mulher é quase 50% da força de trabalho e estuda mais – porém, arca com afazeres domésticos
A situação da mulher é particularmente afetada pela desagregação da família. Estas cifras extremamente duras aparecem no documento do IBGE sobre Indicadores Sociais 1996-2006. O número de famílias caracterizadas como "mulher sem cônjuge com filhos" passou de 15,8 milhões em 1996 para 18,1 milhões, em 2006. Como há um pouco menos de 60 milhões de famílias no país, isto significa que quase um terço das famílias são carregadas pelas mães — que se não trabalham, não têm renda, e se trabalham, não têm como cuidar os filhos. Trata-se aqui evidentemente de uma situação dramática quando associada à pobreza, e constitui um alvo central do programa Bolsa-Família, cujo sucesso se deve em grande parte também ao fato de as mulheres gerirem melhor os recursos obtidos. Aos que criticam os programas redistributivos, é bom lembrar um outro dado da PNAD, apontando que "cerca de 31% das famílias em que a mulher era a pessoa de referência viviam com rendimento mensal até meio salário mínimo per capita." [2] Do lado positivo, é importante o dado que a PNAD nos traz, de que as mulheres estão progredindo rapidamente em termos de nível de estudos: 43,5% delas concluíram o ensino médio (11 anos ou mais de estudos), enquanto apenas um terço dos homens possuía este grau de instrução. As mulheres investem mais também no estudo superior, onde 55,3% eram mulheres em 1996, e 57,5% em 2006. Numa sociedade onde o conteúdo de conhecimentos nos processos produtivos se eleva rapidamente, isto é fortemente promissor.
A presença feminina na força de trabalho continua crescendo: são 43 milhões, num total de cerca de 90 milhões de pessoas ocupadas. No entanto, entre trabalho, estudo e cuidados com a família, além de estar freqüentemente sozinhas na chefia da família, a sobrecarga está evidentemente no limite do suportável. A Síntese de Indicadores Sociais 1996-2006 comenta que "com relação à jornada média semanal despendida em fazeres domésticos, verifica-se que as mulheres trabalham mais que o dobro dos homens nessas atividades (24,8 horas)".
Ou seja, nesta outra dimensão tão importante da desigualdade, a que se materializa na desigualdade de gênero, constatamos avanços na remuneração relativa, avanços nos estudos, avanços na força de trabalho, mas tudo ainda enormemente injusto para uma visão de conjunto que temos caracterizado, em outros trabalhos, de "reprodução social" no sentido amplo. Os desequilíbrios estruturais herdados são simplesmente muito grandes.
Educação: um mundo à parte, marcado pelo avanço nos anos de estudo e por... analfabetismo alarmente
Outra dimensão que vale a pena comentar é que tanto a PNAD 2006 como a Síntese de Indicadores Sociais 1996-2006 documentam amplamente, são os avanços no nível da educação. Para já, é um mundo: no Brasil, são 55 milhões de estudantes, 43,7 milhões na rede pública, e 11,2 milhões na rede privada. Se incluirmos professores e sistema de apoio administrativo, temos aqui quase um terço da população do país. A expansão quantitativa maior deu-se na gestão anterior à do presidente Lula, mas os avanços continuam fortes.
Em particular, com a lei 11.274 de 6 de fevereiro de 2006, o ensino fundamental expande-se para 9 anos, com início aos 6 anos de idade. A taxa de escolarização no grupo de 5 e 6 anos aumentou em 3% em um ano. O número dos que não freqüentavam a escola nesta idade caiu de 35,8% em 1996, para 23,8% em 2001, e para 14,7% em 2006. Na classe de 7 a 14 anos, a queda dos que não freqüentavam a escola foi de 8,7% para 3,5% e 2,3% respectivamente. Para a classe de 15 e 17 anos, foi de 30,5%, 18,9% e 17,5% respectivamente. O número médio de anos de estudo completos das pessoas de 10 anos ou mais de idade foi de 6,8 anos em 2006, um aumento de 3% relativamente ao ano anterior.
No ensino superior, houve um aumento muito forte, de 13,2%, entre 2005 e 2006. Ele deve-se dominantemente à expansão do ensino superior privado, e o papel público de redução das desigualdades aparece claramente na distribuição entre os dois sistemas: "Enquanto nas Regiões Norte e Nordeste 41,9% e 36,6% dos estudantes de nível superior freqüentavam a rede pública, nas Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, estes percentuais eram de 18,2%, 22,1% e 26,5%, respectivamente" [3].
Aqui ainda, a direção é correta, mas o atraso a recuperar é imenso. Ao analisar a escolaridade da população ocupada, a PNAD constata que as pessoas com 11 anos ou mais de estudo, eram apenas 22,0% em 1996, 28,9% em 2001 e 38,1% em 2006. A progressão é forte, e se deve particularmente ao esforço educacional das mulheres ocupadas, entre as quais 44,2% tinham escolaridade de 11 anos ou mais, em 2006. Na outra ponta, temos 15 milhões de analfabetos de mais de 10 anos (redução de 10,2% para 9,6%). O analfabetismo funcional atingia 23,6% das pessoas com mais de 10 anos (redução de 1,3% ponto percentual), sendo que no Nordeste atingia 35,5%. Evidentemente, está entre as duas pontas a imensa massa dos sub-qualificados do país.
Um caminho: reivindicar a ampliação das políticas sociais — ao invés de tentar desmoralizá-las
Se resumirmos um pouco a evolução, constatamos uma forte expansão do emprego (particularmente do emprego formal), um aumento da renda do trabalho em geral (e em particular no Nordeste), uma progressão significativa da escolaridade e da remuneração feminina, um forte aumento da população ocupada com 11 ou mais anos de estudo, além da redução do trabalho infantil e outras tendências que não temos espaço para comentar aqui. Estes números são coerentes entre si e convergem para uma conclusão evidente: está se fazendo muito, os resultados estão aparecendo.
A apresentação destas políticas como "assistencialistas" não tem muito sentido: os 12,5 bilhões de reais para a agricultura familiar constituem um apoio à capacidade produtiva. Os R$ 8,5 bilhões do Bolsa-Família constituem um excelente investimento na próxima geração que será melhor alimentada – além do impacto essencial de inserção deste nosso quarto-mundo nas políticas públicas organizadas do país. O aumento do salário mínimo, junto com os outros programas mencionados, começa a dinamizar a demanda popular e a estimular pequenas atividades produtivas locais [4].
Ou seja, estaremos talvez atingindo um limiar a partir do qual a renda gerada na base da sociedade começa a se transformar num mecanismo auto-propulsor. Para isto, teremos de avançar muito mais. O que está em jogo aqui não é apenas ajudar a massa de excluídos deste país. É gerar uma dinâmica em que renda, educação, apoio tecnológico, crédito e outras iniciativas organizadas de apoio permitam realmente romper as estruturas que geraram e reproduzem a desigualdade. A pressão sobre este governo é positiva, quando se leva em consideração os avanços realizados, e se reivindica a ampliação das políticas, não a sua desmoralização [5].
O que se torna evidente, ao analisarmos estes dados, é que a população mais desfavorecida do país votou no segundo turno não por desinformação, mas por sentir que a sua situação está melhorando. Falar mal do governo, entre nós, é quase um reflexo, acompanha a cerveja como o amendoim. Falar bem dele parece até suspeito, como se fosse menos "objetivo". Mas falar mal pode ser igualmente suspeito. Muito mais importante é entender o que está acontecendo. Por trás do palco da política oficial que a imprensa nos apresenta a cada dia, e que é o lado mais visível dos grandes discursos, há o imenso trabalho organizado de milhares de pessoas que estão tocando progamas, literalmente tirando leite de pedra numa máquina de governo que, por herança histórica, foi estruturada para administrar privilégios, e não para prestar serviços.
MAIS
IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Síntese de Indicadores 2006: Comentários
IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2007 – Uma análise das condições de vida da população brasileira 2007 – está disponível aqui
NOTAS
[1] IBGE, PNAD 2006. A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio, para quem não está familiarizado, constitui o principal instrumento de avaliação de como anda a situação das familias no país. A PNAD 2006 entrevistou 410.241 pessoas, em 145.547 domicílios, e representa a situação real de maneira confiável, ainda que desagregável apenas ao nível de Grandes Regiões ou de Estados, o que encobre desigualdades locais, perdidas nas médias. Os dados estão disponíveis online, nos "Comentários 2006"
[2] Ver os dados na Sintese de Indicadores Sociais 1996-2006 do IBGE, gráfico 4.1, e páginas seguintes, doc. s.p. – O documento completo, Síntese de Indicadores Sociais 2007 – Uma análise das condições de vida da população brasileira 2007 – está disponível aqui. Sobre as tendências de desagregação da família, ver o nosso artigo "Economia da Família", sob a rubrica Artigos Online no site www.dowbor.org
[3] IBGE, PNAD 2006, Comentários, p. 7
[4] Vale a pena consultar o sistema de seguimento dos 149 programas sociais distribuídos entre vários ministérios, disponível sob "Geração de Emprego e Renda", em www.mds.gov.br: cada programa é apresentado com os seus objetivos e custos, além de contato para quem precisar de mais informação
[5] Para o conjunto de propostas relativas á dinamização do "andar de baixo" da economia, ver Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local, www.dowbor.org sob Artigos Online.
Ladislau Dowbor, para o Le Monde Diplomatique Brasil
É tempo de fazer as contas. Com a deformação geral dos dados pelo prisma ideológico da grande mídia, torna-se necessário buscar nas fontes primárias de informação, nos dados do IBGE, como andam as coisas. A reeleição mostrou forte aprovação por parte dos segmentos mais pobres do país a Lula, mas os números reais sobre a evolução das condições de vida do brasileiro surgem com o atraso natural dos processo de elaboração de pesquisas. O IBGE publicou a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio de 2006, e também o Indicadores Sociais dos últimos 10 Anos. Vale a pena olhar a imagem que emerge: ela explica não só os votos, como o caminho que temos pela frente.
O principal número é, evidentemente, o aumento de 8,7 milhões de postos de trabalho no país durante o último governo. Isto representa um imenso avanço, pois se trata aqui de uma das principais raízes da desigualdade: grande parte dos brasileiros se vê excluída do direito de contribuir para a própria sobrevivência e para o desenvolvimento em geral. Entre 2005 e 2006 o avanço foi particularmente forte, com um aumento de 2,4%, resultado da entrada no mercado de trabalho de 2,1 milhões de pessoas. A expansão do emprego feminino é particularmente forte (3,3,%), enquanto o dos homens atingiu 1,8%. A formalização do emprego é muito significativa: 3 em cada 5 empregos criados são com carteira assinada. Atingimos assim, em 2006, 30,1 milhões de trabalhadores com carteira assinada, um aumento de 4,7% em um ano. O avanço é pois muito positivo, mas num quadro de herança dramático, que o próprio IBGE aponta: "mais da metade da população ocupada (49,1 milhões de pessoas) continuava formada por trabalhadores sem carteira assinada, por conta-própria ou sem remuneração" [1]
O segundo número, que ocupou as manchetes de todos os jornais, é a elevação dos rendimentos dos trabalhadores em 7,2%, entre 2005 e 2006. É um número extremamente forte, e coerente com os anos anteriores: a remuneração dos trabalhadores vinha caindo desde o final dos anos 1990, e começou a se elevar em 2003, desenhando desde então uma curva ascendente. Este é um número de grande importância, pois a desigualdade é, de longe, o nosso problema número um. É um número que reflete os avanços na criação de postos de trabalho vistos acima, e também os avanços no salário mínimo.
O salário mínimo teve um ganho real de 13,3% em 2006 relativamente a 2005, o que representa um salto fortíssimo para os trabalhadores que estão no que se chama hoje de "base da pirâmide" econômica. Consultas com pessoas que trabalham com as estatísticas da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Dieese/Seade sugerem que 26 milhões de trabalhadores foram abrangidos por este aumento. Além disto, como o salário mínimo é referência para o reajuste das aposentadorias, outras 16 milhões de pessoas teriam sido beneficiadas.
Aumento consistente nos salários e avanços no combate à desigualdade – inclusive entre as regiões
Um comentário é necessário aqui: um aumento de cem reais para uma família que tem um rendimento de, por exemplo, 4 mil reais não é significativo. No entanto, cem reais representam, para pessoas que têm de sobreviver com algumas centenas de reais por mês, um imenso alívio, a diferença entre poder ou não poder comprar melhor alimento ou um medicamento para a criança. A utilidade marginal da renda, em termos de impacto para o conforto das famílias, vai diminuindo conforme a renda aumenta. Do ponto de vista econômico, maximizar a utilidade dos recursos do país envolve o aumento da renda dos mais pobres. Isto vale tanto no aspecto social, em termos de satisfação gerada, como em termos de geração de demanda e conseqüente dinamização das atividades econômicas. O pobre não faz especulação financeira, compra bens e serviços. Tirar as pessoas da pobreza não é caridade, é bom senso social, e bom senso econômico.
Outra forma de a PNAD avaliar a evolução dos rendimentos já não é por trabalhador, na fonte de remuneração, e sim por domícilio, no ponto de chegada. Isso permite agregar as várias formas de remuneração na família. O rendimento médio domiciliar aumentou em 5,0% em 2005, e em 7,6% em 2006, o que é coerente com os dados de rendimento de trabalho, e torna os dados muito confiáveis, porque convergem. É bom lembrar, para quem tem menos familiaridade com este tipo de números, que um aumento de 7% ao ano significa que o rendimento dobra a cada 10 anos.
Detalhando as cifras acima, vemos outras coisas interessantes. O rendimento no trabalho das pessoas ocupadas, que na média nacional cresceu 7,2%, subiu 6,6% no Sudeste, mas avançou 12,1% no Nordeste. No caso do rendimento dos domicílios, o aumento médio nacional, conforme vimos, foi de 7,6%. Mas no Sul e no Sudeste, foi de 7%, enquanto no Nordeste foi de 11,7%. Ou seja, não só tivemos um forte avanço do conjunto, como a região mais atrasada, cujo avanço é mais importante para o reequilibramento nacional, teve o avanço mais acelerado. Em outros termos, a desigualdade regional está, pela primeira vez, sendo corrigida, e com números muito significativos. Relevantes, sem dúvida, mas ainda muito insuficientes: O rendimento médio domiciliar nordestino representava, em 2005, 52,8% do rendimento do Sudeste, passando para 57,8% em 2006. Um grande avanço, mas um imenso caminho pela frente.
Outro eixo importante de desigualdade está ligado à diferença de nível de remuneração entre o homem e a mulher. Os dados mostram a evolução seguinte: a remuneração da mulher, que equivalia a 58,7% da do homem, em 1996, pulou para 63,5% em 2004; 64,4% em 2005 e 65,6% em 2006. Nota-se uma lenta progressão, partindo de um nível que já é em si extremamente desigual. Ou seja, aqui também a direção é positiva, mas precisamos de muito mais.
Mulher é quase 50% da força de trabalho e estuda mais – porém, arca com afazeres domésticos
A situação da mulher é particularmente afetada pela desagregação da família. Estas cifras extremamente duras aparecem no documento do IBGE sobre Indicadores Sociais 1996-2006. O número de famílias caracterizadas como "mulher sem cônjuge com filhos" passou de 15,8 milhões em 1996 para 18,1 milhões, em 2006. Como há um pouco menos de 60 milhões de famílias no país, isto significa que quase um terço das famílias são carregadas pelas mães — que se não trabalham, não têm renda, e se trabalham, não têm como cuidar os filhos. Trata-se aqui evidentemente de uma situação dramática quando associada à pobreza, e constitui um alvo central do programa Bolsa-Família, cujo sucesso se deve em grande parte também ao fato de as mulheres gerirem melhor os recursos obtidos. Aos que criticam os programas redistributivos, é bom lembrar um outro dado da PNAD, apontando que "cerca de 31% das famílias em que a mulher era a pessoa de referência viviam com rendimento mensal até meio salário mínimo per capita." [2] Do lado positivo, é importante o dado que a PNAD nos traz, de que as mulheres estão progredindo rapidamente em termos de nível de estudos: 43,5% delas concluíram o ensino médio (11 anos ou mais de estudos), enquanto apenas um terço dos homens possuía este grau de instrução. As mulheres investem mais também no estudo superior, onde 55,3% eram mulheres em 1996, e 57,5% em 2006. Numa sociedade onde o conteúdo de conhecimentos nos processos produtivos se eleva rapidamente, isto é fortemente promissor.
A presença feminina na força de trabalho continua crescendo: são 43 milhões, num total de cerca de 90 milhões de pessoas ocupadas. No entanto, entre trabalho, estudo e cuidados com a família, além de estar freqüentemente sozinhas na chefia da família, a sobrecarga está evidentemente no limite do suportável. A Síntese de Indicadores Sociais 1996-2006 comenta que "com relação à jornada média semanal despendida em fazeres domésticos, verifica-se que as mulheres trabalham mais que o dobro dos homens nessas atividades (24,8 horas)".
Ou seja, nesta outra dimensão tão importante da desigualdade, a que se materializa na desigualdade de gênero, constatamos avanços na remuneração relativa, avanços nos estudos, avanços na força de trabalho, mas tudo ainda enormemente injusto para uma visão de conjunto que temos caracterizado, em outros trabalhos, de "reprodução social" no sentido amplo. Os desequilíbrios estruturais herdados são simplesmente muito grandes.
Educação: um mundo à parte, marcado pelo avanço nos anos de estudo e por... analfabetismo alarmente
Outra dimensão que vale a pena comentar é que tanto a PNAD 2006 como a Síntese de Indicadores Sociais 1996-2006 documentam amplamente, são os avanços no nível da educação. Para já, é um mundo: no Brasil, são 55 milhões de estudantes, 43,7 milhões na rede pública, e 11,2 milhões na rede privada. Se incluirmos professores e sistema de apoio administrativo, temos aqui quase um terço da população do país. A expansão quantitativa maior deu-se na gestão anterior à do presidente Lula, mas os avanços continuam fortes.
Em particular, com a lei 11.274 de 6 de fevereiro de 2006, o ensino fundamental expande-se para 9 anos, com início aos 6 anos de idade. A taxa de escolarização no grupo de 5 e 6 anos aumentou em 3% em um ano. O número dos que não freqüentavam a escola nesta idade caiu de 35,8% em 1996, para 23,8% em 2001, e para 14,7% em 2006. Na classe de 7 a 14 anos, a queda dos que não freqüentavam a escola foi de 8,7% para 3,5% e 2,3% respectivamente. Para a classe de 15 e 17 anos, foi de 30,5%, 18,9% e 17,5% respectivamente. O número médio de anos de estudo completos das pessoas de 10 anos ou mais de idade foi de 6,8 anos em 2006, um aumento de 3% relativamente ao ano anterior.
No ensino superior, houve um aumento muito forte, de 13,2%, entre 2005 e 2006. Ele deve-se dominantemente à expansão do ensino superior privado, e o papel público de redução das desigualdades aparece claramente na distribuição entre os dois sistemas: "Enquanto nas Regiões Norte e Nordeste 41,9% e 36,6% dos estudantes de nível superior freqüentavam a rede pública, nas Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, estes percentuais eram de 18,2%, 22,1% e 26,5%, respectivamente" [3].
Aqui ainda, a direção é correta, mas o atraso a recuperar é imenso. Ao analisar a escolaridade da população ocupada, a PNAD constata que as pessoas com 11 anos ou mais de estudo, eram apenas 22,0% em 1996, 28,9% em 2001 e 38,1% em 2006. A progressão é forte, e se deve particularmente ao esforço educacional das mulheres ocupadas, entre as quais 44,2% tinham escolaridade de 11 anos ou mais, em 2006. Na outra ponta, temos 15 milhões de analfabetos de mais de 10 anos (redução de 10,2% para 9,6%). O analfabetismo funcional atingia 23,6% das pessoas com mais de 10 anos (redução de 1,3% ponto percentual), sendo que no Nordeste atingia 35,5%. Evidentemente, está entre as duas pontas a imensa massa dos sub-qualificados do país.
Um caminho: reivindicar a ampliação das políticas sociais — ao invés de tentar desmoralizá-las
Se resumirmos um pouco a evolução, constatamos uma forte expansão do emprego (particularmente do emprego formal), um aumento da renda do trabalho em geral (e em particular no Nordeste), uma progressão significativa da escolaridade e da remuneração feminina, um forte aumento da população ocupada com 11 ou mais anos de estudo, além da redução do trabalho infantil e outras tendências que não temos espaço para comentar aqui. Estes números são coerentes entre si e convergem para uma conclusão evidente: está se fazendo muito, os resultados estão aparecendo.
A apresentação destas políticas como "assistencialistas" não tem muito sentido: os 12,5 bilhões de reais para a agricultura familiar constituem um apoio à capacidade produtiva. Os R$ 8,5 bilhões do Bolsa-Família constituem um excelente investimento na próxima geração que será melhor alimentada – além do impacto essencial de inserção deste nosso quarto-mundo nas políticas públicas organizadas do país. O aumento do salário mínimo, junto com os outros programas mencionados, começa a dinamizar a demanda popular e a estimular pequenas atividades produtivas locais [4].
Ou seja, estaremos talvez atingindo um limiar a partir do qual a renda gerada na base da sociedade começa a se transformar num mecanismo auto-propulsor. Para isto, teremos de avançar muito mais. O que está em jogo aqui não é apenas ajudar a massa de excluídos deste país. É gerar uma dinâmica em que renda, educação, apoio tecnológico, crédito e outras iniciativas organizadas de apoio permitam realmente romper as estruturas que geraram e reproduzem a desigualdade. A pressão sobre este governo é positiva, quando se leva em consideração os avanços realizados, e se reivindica a ampliação das políticas, não a sua desmoralização [5].
O que se torna evidente, ao analisarmos estes dados, é que a população mais desfavorecida do país votou no segundo turno não por desinformação, mas por sentir que a sua situação está melhorando. Falar mal do governo, entre nós, é quase um reflexo, acompanha a cerveja como o amendoim. Falar bem dele parece até suspeito, como se fosse menos "objetivo". Mas falar mal pode ser igualmente suspeito. Muito mais importante é entender o que está acontecendo. Por trás do palco da política oficial que a imprensa nos apresenta a cada dia, e que é o lado mais visível dos grandes discursos, há o imenso trabalho organizado de milhares de pessoas que estão tocando progamas, literalmente tirando leite de pedra numa máquina de governo que, por herança histórica, foi estruturada para administrar privilégios, e não para prestar serviços.
MAIS
IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Síntese de Indicadores 2006: Comentários
IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2007 – Uma análise das condições de vida da população brasileira 2007 – está disponível aqui
NOTAS
[1] IBGE, PNAD 2006. A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio, para quem não está familiarizado, constitui o principal instrumento de avaliação de como anda a situação das familias no país. A PNAD 2006 entrevistou 410.241 pessoas, em 145.547 domicílios, e representa a situação real de maneira confiável, ainda que desagregável apenas ao nível de Grandes Regiões ou de Estados, o que encobre desigualdades locais, perdidas nas médias. Os dados estão disponíveis online, nos "Comentários 2006"
[2] Ver os dados na Sintese de Indicadores Sociais 1996-2006 do IBGE, gráfico 4.1, e páginas seguintes, doc. s.p. – O documento completo, Síntese de Indicadores Sociais 2007 – Uma análise das condições de vida da população brasileira 2007 – está disponível aqui. Sobre as tendências de desagregação da família, ver o nosso artigo "Economia da Família", sob a rubrica Artigos Online no site www.dowbor.org
[3] IBGE, PNAD 2006, Comentários, p. 7
[4] Vale a pena consultar o sistema de seguimento dos 149 programas sociais distribuídos entre vários ministérios, disponível sob "Geração de Emprego e Renda", em www.mds.gov.br: cada programa é apresentado com os seus objetivos e custos, além de contato para quem precisar de mais informação
[5] Para o conjunto de propostas relativas á dinamização do "andar de baixo" da economia, ver Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local, www.dowbor.org sob Artigos Online.
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Franklin Martins desmente calúnias d'O Globo
Carta de Franklin Martins ao jornal O Globo
Na tentativa de classificar custos da Presidência da República como "mordomias", a reportagem do GLOBO ("Presidência cada vez mais cara", 19/11) mistura dados e confunde números, desinformando o leitor. A denominação "gabinete presidencial", usada no primeiro parágrafo da reportagem, é equivocada: o valor de R$ 223 milhões anuais refere-se à "administração da unidade Presidência da República" - ou seja, uma estrutura que envolve, além do Gabinete Pessoal do Presidente, a Casa Civil, a Secretaria Geral, a Secretaria de Relações Institucionais, o Gabinete de Segurança Institucional, o Núcleo de Assuntos Estratégicos e a Secretaria de Comunicação Social. A matéria também não diz que os gastos de custeio (água, luz, telefone, aquisição de computadores, passagens, diárias, combustível etc.) têm se mantido praticamente constantes nos últimos quatro anos, sempre na faixa de R$90 milhões. O texto cita em tom de denúncia o fato de ter havido um aumento de gastos de 2003 para 2005, sem dizer ao leitor que o programa Pró-Jovem - com orçamento de R$262 milhões só em 2005 - foi incorporado à Presidência da República (e não ao gabinete do presidente) naquele ano. Não se trata de "gastança", mas de um programa que auxilia na educação e formação profissional de 467 mil jovens de 15 a 24 anos em situação de risco social. A reportagem registra ainda que houve um aumento de 68 para 149 funcionários da "assessoria particular" do presidente. Isso não é verdade. O segundo número corresponde basicamente à fusão de estruturas já existentes. Com relação aos gastos com cartões de pagamento, deve-se ressaltar que todas as despesas realizadas têm o amparo da legislação e todas as contas foram aprovadas pelo mesmo TCU, que serviu de fonte para a reportagem, após auditoria de 90 dias entre 2005 e 2006. O repórter é desrespeitoso com ecônomos, servidores públicos encarregados do controle e execução de despesas, a quem chama depreciativamente de "mordomos". E comete uma inverdade quando afirma que algum desses profissionais está a serviço da primeira-dama. A reportagem menciona também a compra de uma "estante do tipo rack" no valor de R$25,1 mil, como se fosse um item de luxo, quando na verdade trata-se de uma estrutura de suporte para computadores e servidores de rede da central de informática do Palácio do Planalto. O valor é compatível com o de mercado. Na mesma linha, a matéria afirma que há custeio de "massagens para os funcionários do Palácio". Na realidade, o gasto se refere a um programa específico, a Semana de Qualidade de Vida, promovido em maio pela Coordenação de Saúde da Presidência, para orientar os funcionários quanto à postura corporal na prevenção de lesões no trabalho. Programas como esse existem em todas as grandes empresas. Provavelmente, O GLOBO já promoveu atividades dessa natureza para seus funcionários. Certamente não deve considerá-las mordomias. Em suma, a reportagem falta com a verdade na tentativa de passar ao leitor uma imagem de ostentação e luxo, tratando como gastos absurdos investimentos em programas sociais, na saúde dos funcionários e na manutenção e reposição de materiais necessários à administração pública. Ressaltamos que todas essas incorreções e equívocos poderiam ter sido evitados se a Secretaria de Imprensa da Presidência da República fosse contatada previamente, como é de praxe.
FRANKLIN MARTINS
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (por e-mail, 20/11), Brasília, DF
Na tentativa de classificar custos da Presidência da República como "mordomias", a reportagem do GLOBO ("Presidência cada vez mais cara", 19/11) mistura dados e confunde números, desinformando o leitor. A denominação "gabinete presidencial", usada no primeiro parágrafo da reportagem, é equivocada: o valor de R$ 223 milhões anuais refere-se à "administração da unidade Presidência da República" - ou seja, uma estrutura que envolve, além do Gabinete Pessoal do Presidente, a Casa Civil, a Secretaria Geral, a Secretaria de Relações Institucionais, o Gabinete de Segurança Institucional, o Núcleo de Assuntos Estratégicos e a Secretaria de Comunicação Social. A matéria também não diz que os gastos de custeio (água, luz, telefone, aquisição de computadores, passagens, diárias, combustível etc.) têm se mantido praticamente constantes nos últimos quatro anos, sempre na faixa de R$90 milhões. O texto cita em tom de denúncia o fato de ter havido um aumento de gastos de 2003 para 2005, sem dizer ao leitor que o programa Pró-Jovem - com orçamento de R$262 milhões só em 2005 - foi incorporado à Presidência da República (e não ao gabinete do presidente) naquele ano. Não se trata de "gastança", mas de um programa que auxilia na educação e formação profissional de 467 mil jovens de 15 a 24 anos em situação de risco social. A reportagem registra ainda que houve um aumento de 68 para 149 funcionários da "assessoria particular" do presidente. Isso não é verdade. O segundo número corresponde basicamente à fusão de estruturas já existentes. Com relação aos gastos com cartões de pagamento, deve-se ressaltar que todas as despesas realizadas têm o amparo da legislação e todas as contas foram aprovadas pelo mesmo TCU, que serviu de fonte para a reportagem, após auditoria de 90 dias entre 2005 e 2006. O repórter é desrespeitoso com ecônomos, servidores públicos encarregados do controle e execução de despesas, a quem chama depreciativamente de "mordomos". E comete uma inverdade quando afirma que algum desses profissionais está a serviço da primeira-dama. A reportagem menciona também a compra de uma "estante do tipo rack" no valor de R$25,1 mil, como se fosse um item de luxo, quando na verdade trata-se de uma estrutura de suporte para computadores e servidores de rede da central de informática do Palácio do Planalto. O valor é compatível com o de mercado. Na mesma linha, a matéria afirma que há custeio de "massagens para os funcionários do Palácio". Na realidade, o gasto se refere a um programa específico, a Semana de Qualidade de Vida, promovido em maio pela Coordenação de Saúde da Presidência, para orientar os funcionários quanto à postura corporal na prevenção de lesões no trabalho. Programas como esse existem em todas as grandes empresas. Provavelmente, O GLOBO já promoveu atividades dessa natureza para seus funcionários. Certamente não deve considerá-las mordomias. Em suma, a reportagem falta com a verdade na tentativa de passar ao leitor uma imagem de ostentação e luxo, tratando como gastos absurdos investimentos em programas sociais, na saúde dos funcionários e na manutenção e reposição de materiais necessários à administração pública. Ressaltamos que todas essas incorreções e equívocos poderiam ter sido evitados se a Secretaria de Imprensa da Presidência da República fosse contatada previamente, como é de praxe.
FRANKLIN MARTINS
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (por e-mail, 20/11), Brasília, DF
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quarta-feira, novembro 14, 2007
Jatene e a CPMF
Dedo em riste, falando alto, o cardiologista Adib Jatene, "pai" da CPMF e um dos maiores defensores da contribuição, diz a Paulo Skaf, presidente da Fiesp e que defende o fim do imposto: "No dia em que a riqueza e a herança forem taxadas, nós concordamos com o fim da CPMF. Enquanto vocês não toparem, não concordamos. Os ricos não pagam imposto e por isso o Brasil é tão desigual. Têm que pagar! Os ricos têm que pagar para distribuir renda".
Numa das rodas formadas no jantar beneficente para arrecadar fundos para o Incor, no restaurante A Figueira Rubaiyat, Skaf, cercado por médicos e políticos do PT que apóiam o imposto do cheque, tenta rebater: "Mas, doutor Jatene, a carga no Brasil é muito alta!". E Jatene: "Não é, não! É baixa. Têm que pagar mais". Skaf continua: "A CPMF foi criada para financiar a saúde e o governo tirou o dinheiro da saúde. O senhor não se sente enganado?". E Jatene: "Eu, não! Por que vocês não combatem a Cofins (contribuição para financiamento da seguridade social), que tem alíquota de 9% e arrecada R$ 100 bilhões? A CPMF tem alíquiota de 0,38% e arrecada só R$ 30 bilhões". Skaf diz: "A Cofins não está em pauta. O que está em discussão é a CPMF". "É que a CPMF não dá para sonegar!", diz Jatene.
(Da coluna de ontem da Mônica Bérgamo, da Folha)
Numa das rodas formadas no jantar beneficente para arrecadar fundos para o Incor, no restaurante A Figueira Rubaiyat, Skaf, cercado por médicos e políticos do PT que apóiam o imposto do cheque, tenta rebater: "Mas, doutor Jatene, a carga no Brasil é muito alta!". E Jatene: "Não é, não! É baixa. Têm que pagar mais". Skaf continua: "A CPMF foi criada para financiar a saúde e o governo tirou o dinheiro da saúde. O senhor não se sente enganado?". E Jatene: "Eu, não! Por que vocês não combatem a Cofins (contribuição para financiamento da seguridade social), que tem alíquota de 9% e arrecada R$ 100 bilhões? A CPMF tem alíquiota de 0,38% e arrecada só R$ 30 bilhões". Skaf diz: "A Cofins não está em pauta. O que está em discussão é a CPMF". "É que a CPMF não dá para sonegar!", diz Jatene.
(Da coluna de ontem da Mônica Bérgamo, da Folha)
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domingo, novembro 11, 2007
a origem do terceiro mandato
Vira e mexe, recebo em meu e-mail um ou outro texto repudiando a pretensa intenção do Presidente Lula de se manter no poder por meio de um terceiro mandato. Não adianta ele próprio já ter negado infinitas vezes que é contra. Segundo os paranóicos de plantão, a negativa "faz parte do plano" para "dar o bote" na hora certa. É incrível como algumas pessoas só enxergam aquilo que querem. Afinal, quem começou com essa história de terceiro mandato? Quem teria poder para inventar e alimentar uma trama conspiratória tão descabida? Só consigo imaginar que a falta motivos reais – ou no mínimo verossímeis – para falar mal do governo Lula tenha afetado por demais a capacidade de discernimento da grande mídia...
A deformação é tamanha que até uma suposta consulta popular que porventura aprovasse a candidatura de lula novamente – e não nos esqueçamos que, mesmo assim, para exercer um terceiro mandato, ele deveria ser eleito novamente pelo povo –, até isso é considerado uma das estratégias previstas no "plano golpista". Golpe com o apoio popular e sacramentado nas urnas! Um golpe de democracia! Isso é tão ridículo que eu nem me dou ao trabalho de responder quem vem me atazanar com esse tipo de argumento.
Se toco nesse assunto aqui é porque, hoje, li um post no Blog do Mello que traz algumas informações diferentes sobre o assunto. Informações cuja total ausência na grande mídia não me causa o menor espanto, e que exatamente por isso me sinto no dever de reproduzir. São elas:
"(...) a origem [do projeto do terceiro mandato] – como antes a do mensalão – está no ninho tucano.
O projeto que foi recolocado em pauta na Câmara dos Deputados garante a reeleição não apenas para um segundo ou terceiro mandato, mas uma reeleição infinita para cargos majoritários – a exemplo do que já ocorre no Senado e nas Câmaras e Assembléias.
Este projeto já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. E não é de um petista, mas do deputado paraibano Inaldo Leitão. Partido dele na época: PSDB, onde era líder. Foi apresentado em 1999 e aprovado pela CCJ no ano 2000.
Quem era o presidente da República em 1999 e 2000? - FHC.
Portanto, o projeto era para garantir a possibilidade de reeleição infinita de FHC. Por que ninguém fala nisso? É bom não esquecer que o ex-ministro Sérgio Mota, o Serjão, cansou de afirmar que o projeto de poder dos tucanos era para 30 anos (imagine se Lula afirmasse tal coisa...).
Agora, a pergunta que faço é: Por que o projeto foi criado e apresentado naquela época, aprovado pela CCJ e em seguida engavetado? Será que isso só aconteceu porque a popularidade de FHC despencou ladeira abaixo, junto com o fiasco que foi seu segundo governo, cercado de escândalos?"
mas hein?
será que os que só enxergam o que querem entenderam ou preciso desenhar?
A deformação é tamanha que até uma suposta consulta popular que porventura aprovasse a candidatura de lula novamente – e não nos esqueçamos que, mesmo assim, para exercer um terceiro mandato, ele deveria ser eleito novamente pelo povo –, até isso é considerado uma das estratégias previstas no "plano golpista". Golpe com o apoio popular e sacramentado nas urnas! Um golpe de democracia! Isso é tão ridículo que eu nem me dou ao trabalho de responder quem vem me atazanar com esse tipo de argumento.
Se toco nesse assunto aqui é porque, hoje, li um post no Blog do Mello que traz algumas informações diferentes sobre o assunto. Informações cuja total ausência na grande mídia não me causa o menor espanto, e que exatamente por isso me sinto no dever de reproduzir. São elas:
"(...) a origem [do projeto do terceiro mandato] – como antes a do mensalão – está no ninho tucano.
O projeto que foi recolocado em pauta na Câmara dos Deputados garante a reeleição não apenas para um segundo ou terceiro mandato, mas uma reeleição infinita para cargos majoritários – a exemplo do que já ocorre no Senado e nas Câmaras e Assembléias.
Este projeto já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. E não é de um petista, mas do deputado paraibano Inaldo Leitão. Partido dele na época: PSDB, onde era líder. Foi apresentado em 1999 e aprovado pela CCJ no ano 2000.
Quem era o presidente da República em 1999 e 2000? - FHC.
Portanto, o projeto era para garantir a possibilidade de reeleição infinita de FHC. Por que ninguém fala nisso? É bom não esquecer que o ex-ministro Sérgio Mota, o Serjão, cansou de afirmar que o projeto de poder dos tucanos era para 30 anos (imagine se Lula afirmasse tal coisa...).
Agora, a pergunta que faço é: Por que o projeto foi criado e apresentado naquela época, aprovado pela CCJ e em seguida engavetado? Será que isso só aconteceu porque a popularidade de FHC despencou ladeira abaixo, junto com o fiasco que foi seu segundo governo, cercado de escândalos?"
mas hein?
será que os que só enxergam o que querem entenderam ou preciso desenhar?
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sexta-feira, outubro 26, 2007
Corrupto, ladrão e senador: Farta documentação desvela "valerioduto"
(do blog Os amigos do presidente Lula)
A Mesa Diretora do Senado decidiu arquivar a representação contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) O tucano Eduardo Azeredo escapou de o processo disciplinar pelo envolvimento com o chamado "mensalão mineiro" por decisão unânime. Veja aqui as provas, os documentos examinados pela Polícia Federal que prova que existiu o valerioduto tucano.
Azeredo e outros políticos mineiros se beneficiaram do esquema operado por Marcos Valério para arrecadar recursos de caixa dois na campanha de 1998. De acordo com a Polícia Federal, parte do dinheiro utilizado no esquema teria sido fruto de desvio de órgãos públicos de Minas Gerais
Auditorias da Secretaria da Fazenda de Minas, feitas de 1997 a 2000 e que examinaram os gastos de publicidade do governo do tucano Eduardo Azeredo (1995-1998), apontaram despesas irregulares de R$9,97 milhões - entre os quais prevalecem pagamentos às agências SMPB e DNA, de Marcos Valério.
Segundo a Polícia Federal, por recursos do valerioduto tucano, um ex-líder do PSDB na Assembléia e a mulher de Clésio Andrade (ex-vice de Aécio e ex-sócio de Valério).
O valerioduto tucano, segundo a PF, foi um esquema operado por Valério, por meio de suas agências, para ocultar origem e destino de ao menos R$28,5 milhões em recursos públicos desviados e verbas privadas não-declaradas à Justiça que financiaram, em 1998, a campanha à reeleição de Azeredo, hoje senador, e aliados. Entre as irregularidades apontadas nas cinco auditorias, estão pagamentos a mais, promoção de autoridade em publicidade estatal, gastos sem empenho (reserva orçamentária) prévio, apresentação de fatura como comprovante de despesa (o correto é nota fiscal) e serviços sem comprovação.
Dos cinco servidores responsabilizados nas auditorias pelas despesas irregulares, estão Álvaro Azeredo, irmão do senador e seu secretário da Casa Civil e Comunicação no governo, e Denise Landim, tesoureira da campanha de Azeredo em 1998 e detentora de cargo de confiança no governo Aécio.
Auditorias
A auditoria 320.154.98, de 1998, analisou a propaganda em 1997 e 1998. Constatou, por exemplo, cerca de 185 referências positivas a membros do governo - a Constituição veta promoção de autoridades na publicidade - em 20 informes pagos na TV e em jornais. Exemplo: no suplemento pago "Educar Minas", publicado em abril de 1998, há menção ao então vice-governador e atual ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (PTB).
Diz o informe: "[...] essa revolução [na educação], que teve seus primeiros movimentos ainda no governo Hélio Garcia [1991-1994], quando o secretário da Educação era o atual vice-governador Walfrido dos Mares Guia, tomou no atual governo um impulso inédito".
A revisão das auditorias pelo TCE dá baixa no R$1,7 milhão de despesas apontadas como irregulares por promoverem políticos. Diz que as referências "não buscaram a elevação de seus méritos e virtudes".
Julgamento
O buraco na publicidade do governo Azeredo virou o processo administrativo 690.709 do TCE, ainda sem julgamento. O presidente e o vice do tribunal - Elmo Braz e Wanderley Ávila - eram candidatos a deputado estadual em 1998 (por PSDB e PP) e confirmaram à PF ter recebido dinheiro (R$21 mil e R$6.000, respectivamente) do valerioduto. Ávila é o relator do processo.
A Mesa Diretora do Senado decidiu arquivar a representação contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) O tucano Eduardo Azeredo escapou de o processo disciplinar pelo envolvimento com o chamado "mensalão mineiro" por decisão unânime. Veja aqui as provas, os documentos examinados pela Polícia Federal que prova que existiu o valerioduto tucano.
Azeredo e outros políticos mineiros se beneficiaram do esquema operado por Marcos Valério para arrecadar recursos de caixa dois na campanha de 1998. De acordo com a Polícia Federal, parte do dinheiro utilizado no esquema teria sido fruto de desvio de órgãos públicos de Minas Gerais
Auditorias da Secretaria da Fazenda de Minas, feitas de 1997 a 2000 e que examinaram os gastos de publicidade do governo do tucano Eduardo Azeredo (1995-1998), apontaram despesas irregulares de R$9,97 milhões - entre os quais prevalecem pagamentos às agências SMPB e DNA, de Marcos Valério.
Segundo a Polícia Federal, por recursos do valerioduto tucano, um ex-líder do PSDB na Assembléia e a mulher de Clésio Andrade (ex-vice de Aécio e ex-sócio de Valério).
O valerioduto tucano, segundo a PF, foi um esquema operado por Valério, por meio de suas agências, para ocultar origem e destino de ao menos R$28,5 milhões em recursos públicos desviados e verbas privadas não-declaradas à Justiça que financiaram, em 1998, a campanha à reeleição de Azeredo, hoje senador, e aliados. Entre as irregularidades apontadas nas cinco auditorias, estão pagamentos a mais, promoção de autoridade em publicidade estatal, gastos sem empenho (reserva orçamentária) prévio, apresentação de fatura como comprovante de despesa (o correto é nota fiscal) e serviços sem comprovação.
Dos cinco servidores responsabilizados nas auditorias pelas despesas irregulares, estão Álvaro Azeredo, irmão do senador e seu secretário da Casa Civil e Comunicação no governo, e Denise Landim, tesoureira da campanha de Azeredo em 1998 e detentora de cargo de confiança no governo Aécio.
Auditorias
A auditoria 320.154.98, de 1998, analisou a propaganda em 1997 e 1998. Constatou, por exemplo, cerca de 185 referências positivas a membros do governo - a Constituição veta promoção de autoridades na publicidade - em 20 informes pagos na TV e em jornais. Exemplo: no suplemento pago "Educar Minas", publicado em abril de 1998, há menção ao então vice-governador e atual ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (PTB).
Diz o informe: "[...] essa revolução [na educação], que teve seus primeiros movimentos ainda no governo Hélio Garcia [1991-1994], quando o secretário da Educação era o atual vice-governador Walfrido dos Mares Guia, tomou no atual governo um impulso inédito".
A revisão das auditorias pelo TCE dá baixa no R$1,7 milhão de despesas apontadas como irregulares por promoverem políticos. Diz que as referências "não buscaram a elevação de seus méritos e virtudes".
Julgamento
O buraco na publicidade do governo Azeredo virou o processo administrativo 690.709 do TCE, ainda sem julgamento. O presidente e o vice do tribunal - Elmo Braz e Wanderley Ávila - eram candidatos a deputado estadual em 1998 (por PSDB e PP) e confirmaram à PF ter recebido dinheiro (R$21 mil e R$6.000, respectivamente) do valerioduto. Ávila é o relator do processo.
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quarta-feira, outubro 24, 2007
Quem não quer a CPMF?
. Quem não quer a CPMF já quis: os tucanos inventaram a CPMF.
. Quem não quer a CPMF são aqueles que querem fazer o "desmanche" do Estado (*) e de suas políticas sociais.
. Quem não quer a CPMF é quem não aceita que a saúde do brasileiro melhorou – por causa do dinheiro da CPMF.
. Quem não quer a CPMF não se conforma com a última Pesquisa de Amostra Domiciliar, PNAD, do IBGE, que mostrou que a renda da metade inferior da pirâmide de renda cresce mais que a metade superior.
. Quem não quer a CPMF é quem não se conforma com a idéia de que, segundo a PNAD, a desigualdade de renda – o índice de Gini – melhorou.
. Quem não quer a CPMF é quem acha que o mercado é mais eficiente para dar hospital e escola.
. Quem não quer a CPMF quer o "Caixa Dois", porque a CPMF é o melhor imposto para "flagrar" o "Caixa Dois".
. Quem não quer a CPMF quer matar o Governo Lula de fome e impedir que ele faça o sucessor.
. Quem não quer a CPMF não quer que o PAC vá para a frente, porque, para manter os investimentos sociais, sem a CPMF, será preciso cancelar obras do PAC.
. Quem não quer a CPMF quer "starve the beast" – "fazer a besta morrer de fome" (*2)–, o grito de guerra dos neoliberais: tirar recursos do Estado até ele morrer de inanição.
. Quem não quer a CPMF é o pessoal que quer ficar rico com "other people’s money" – o dinheiro dos outros –, a forma clássica de a elite branca (e separatista, no caso de São Paulo) brasileira "administrar" o Estado.
. Quem não quer a CPMF quer que as favelas do Rio desapareçam do mapa, jogadas no Rio da Guarda, e não aceitam que, sob inspiração de Leonel Brizola, as favelas se transformem em bairros – sem violência, sem tráfico, e com serviços sociais.
. Quem não quer a CPMF gostaria de nomear o Coronel Ustra diretor-geral da Polícia Federal, para só prender "preto, pobre e p..."
. Quem não quer a CPMF toma café da manhã na pracinha e lê a revista Veja, todo domingo.
(*) Sobre o "desmanche" do Estado, recomendo a leitura de "O Ex-Leviatã Brasileiro", de Wanderley Guilherme dos Santos, Editora Civilização Brasileira, 2006: "Em nome de sua modernização e de melhor desempenho na economia globalizada, o poder executivo teve 30% de seus quadros eliminados em sete anos (de 1995 a 2002), talvez a maior leva de demissões da história da administração pública em nação sem passado socialista."
(*2) Sobre a Teologia do Neoliberalismo, aqui imposta pelo Governo do Farol de Alexandria, à semelhança de Salinas no México; Fujimori no Peru; e Menem na Argentina, recomendo a leitura de "A Brief History of Neoliberalism", de David Harvey, Oxford University Press, 2005. Harvey lembra que a Teologia do Neoliberalismo começou no Chile de Pinochet dos "Chicago Boys", e depois se "globalizou" com a aliança Thatcher-Reagan. Harvey demonstra que a Teologia Neoliberal nasceu como resposta ao aumento da renda da metade inferior da pirâmide de renda, com as políticas sociais do Pós Guerra. Portanto, o santo padroeiro de quem não quer a CPMF é Augusto Pinochet.
(por Paulo Henrique Amorim, em seu site Conversa Afiada)
Atrevo-me a falar mais, talvez para aqueles que precisam de um argumento mais direto pra se convencer... Eu também sou assalariada, também pago muitos impostos, inclusive a CPMF, e é claro que não gosto disso. Mas atacar a CPMF é ridículo! Fico muito mais indignada de pagar 15% do meu salário como imposto de renda, ou 11% cada vez que faço um serviço como autônoma, ou a infinidade de impostos embutidos em cada produto que eu compro.
A carga tributária no Brasil é alta demais, sim!
A reforma tributária é uma questão urgente, sim!
Fingir que ESSA discussão não existe e apontar as bazucas para um imposto de 0,38% - eu disse ZERO VÍRGULA TRINTA E OITO POR CENTO! – sobre as movimentações bancárias é, no mínimo, uma ofensa à minha inteligência. A CPMF é praticamente irrisória para um cidadão normal (leia-se: não-rico), é absolutamente justa (quem não tem não paga, quem tem pouco paga pouco, quem tem muito paga muito), não só não é sonegável como ajuda a rastrear a sonegação de outros impostos bem maiores e, como se não bastasse, É EFETIVAMENTE BEM EMPREGADA.
Diante disso, claro que eu respeito quem ainda seja contra, vivemos numa democracia, mas eu me pergunto: será que quem continua contra é por opinião própria ou é influência do bombardeio da mídia? por quê a mídia não discute as questões que expus acima com o mesmo afinco que ataca "a sanha do governo por cada vez mais dinheiro"? por quê a mídia não propõe uma reforma tributária realmente definitiva e justa, extensiva a todos os setores? teria ela interesses outros ou é só pelo hábito de tentar avacalhar o governo mesmo?
Pense nisso. Mas pense sozinho, desligue a TV e tente descobrir o que VOCÊ realmente pensa sobre o assunto.
. Quem não quer a CPMF são aqueles que querem fazer o "desmanche" do Estado (*) e de suas políticas sociais.
. Quem não quer a CPMF é quem não aceita que a saúde do brasileiro melhorou – por causa do dinheiro da CPMF.
. Quem não quer a CPMF não se conforma com a última Pesquisa de Amostra Domiciliar, PNAD, do IBGE, que mostrou que a renda da metade inferior da pirâmide de renda cresce mais que a metade superior.
. Quem não quer a CPMF é quem não se conforma com a idéia de que, segundo a PNAD, a desigualdade de renda – o índice de Gini – melhorou.
. Quem não quer a CPMF é quem acha que o mercado é mais eficiente para dar hospital e escola.
. Quem não quer a CPMF quer o "Caixa Dois", porque a CPMF é o melhor imposto para "flagrar" o "Caixa Dois".
. Quem não quer a CPMF quer matar o Governo Lula de fome e impedir que ele faça o sucessor.
. Quem não quer a CPMF não quer que o PAC vá para a frente, porque, para manter os investimentos sociais, sem a CPMF, será preciso cancelar obras do PAC.
. Quem não quer a CPMF quer "starve the beast" – "fazer a besta morrer de fome" (*2)–, o grito de guerra dos neoliberais: tirar recursos do Estado até ele morrer de inanição.
. Quem não quer a CPMF é o pessoal que quer ficar rico com "other people’s money" – o dinheiro dos outros –, a forma clássica de a elite branca (e separatista, no caso de São Paulo) brasileira "administrar" o Estado.
. Quem não quer a CPMF quer que as favelas do Rio desapareçam do mapa, jogadas no Rio da Guarda, e não aceitam que, sob inspiração de Leonel Brizola, as favelas se transformem em bairros – sem violência, sem tráfico, e com serviços sociais.
. Quem não quer a CPMF gostaria de nomear o Coronel Ustra diretor-geral da Polícia Federal, para só prender "preto, pobre e p..."
. Quem não quer a CPMF toma café da manhã na pracinha e lê a revista Veja, todo domingo.
(*) Sobre o "desmanche" do Estado, recomendo a leitura de "O Ex-Leviatã Brasileiro", de Wanderley Guilherme dos Santos, Editora Civilização Brasileira, 2006: "Em nome de sua modernização e de melhor desempenho na economia globalizada, o poder executivo teve 30% de seus quadros eliminados em sete anos (de 1995 a 2002), talvez a maior leva de demissões da história da administração pública em nação sem passado socialista."
(*2) Sobre a Teologia do Neoliberalismo, aqui imposta pelo Governo do Farol de Alexandria, à semelhança de Salinas no México; Fujimori no Peru; e Menem na Argentina, recomendo a leitura de "A Brief History of Neoliberalism", de David Harvey, Oxford University Press, 2005. Harvey lembra que a Teologia do Neoliberalismo começou no Chile de Pinochet dos "Chicago Boys", e depois se "globalizou" com a aliança Thatcher-Reagan. Harvey demonstra que a Teologia Neoliberal nasceu como resposta ao aumento da renda da metade inferior da pirâmide de renda, com as políticas sociais do Pós Guerra. Portanto, o santo padroeiro de quem não quer a CPMF é Augusto Pinochet.
(por Paulo Henrique Amorim, em seu site Conversa Afiada)
Atrevo-me a falar mais, talvez para aqueles que precisam de um argumento mais direto pra se convencer... Eu também sou assalariada, também pago muitos impostos, inclusive a CPMF, e é claro que não gosto disso. Mas atacar a CPMF é ridículo! Fico muito mais indignada de pagar 15% do meu salário como imposto de renda, ou 11% cada vez que faço um serviço como autônoma, ou a infinidade de impostos embutidos em cada produto que eu compro.
A carga tributária no Brasil é alta demais, sim!
A reforma tributária é uma questão urgente, sim!
Fingir que ESSA discussão não existe e apontar as bazucas para um imposto de 0,38% - eu disse ZERO VÍRGULA TRINTA E OITO POR CENTO! – sobre as movimentações bancárias é, no mínimo, uma ofensa à minha inteligência. A CPMF é praticamente irrisória para um cidadão normal (leia-se: não-rico), é absolutamente justa (quem não tem não paga, quem tem pouco paga pouco, quem tem muito paga muito), não só não é sonegável como ajuda a rastrear a sonegação de outros impostos bem maiores e, como se não bastasse, É EFETIVAMENTE BEM EMPREGADA.
Diante disso, claro que eu respeito quem ainda seja contra, vivemos numa democracia, mas eu me pergunto: será que quem continua contra é por opinião própria ou é influência do bombardeio da mídia? por quê a mídia não discute as questões que expus acima com o mesmo afinco que ataca "a sanha do governo por cada vez mais dinheiro"? por quê a mídia não propõe uma reforma tributária realmente definitiva e justa, extensiva a todos os setores? teria ela interesses outros ou é só pelo hábito de tentar avacalhar o governo mesmo?
Pense nisso. Mas pense sozinho, desligue a TV e tente descobrir o que VOCÊ realmente pensa sobre o assunto.
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terça-feira, outubro 09, 2007
FHC à TV inglesa: "Agora [no governo Lula] estamos progredindo de fato"
(do Blog do Mello)
Em participação no programa de entrevista Hard Talk, que vai ao ar no canal de notícias internacional BBC World, o ex-presidente Fernando Henrique fez o que não faz aqui, confessou que o Brasil está progredindo de fato, "que está havendo uma redução do nível de pobreza" e que "A diminuição da pobreza no Brasil tem sido impressionante".
E, para os que afirmam que a política econômica do governo Lula é uma mera continuação do governo FHC, uma surpresa:
- Lula apresentou um programa diferente, ao qual não me oponho. Sou a favor.
Para o ex-presidente, só não vê o progresso do país, um certo tipo de gente, com o qual se identifica e que se identifica com ele. Assim ele define como estão se sentindo:
FHC - Eu não diria que existe uma crise de identidade... acho que é mais um sentimento de "malaise"... se me permite usar uma expressão em francês... como se nós não estivéssemos nos sentindo bem. Quer dizer, me refiro à classe média, àquelas pessoas que lêem jornais ou que tentam seguir o que acontece no Congresso.
O Blog Olhos da Eternidade dividiu a entrevista de FHC em duas partes, com legendas em português. Elas estão aqui, na ordem:
Caso não queira, ou não possa, assisti-las, leia a transcrição da entrevista na íntegra no site da BBC Brasil.
Em participação no programa de entrevista Hard Talk, que vai ao ar no canal de notícias internacional BBC World, o ex-presidente Fernando Henrique fez o que não faz aqui, confessou que o Brasil está progredindo de fato, "que está havendo uma redução do nível de pobreza" e que "A diminuição da pobreza no Brasil tem sido impressionante".
E, para os que afirmam que a política econômica do governo Lula é uma mera continuação do governo FHC, uma surpresa:
- Lula apresentou um programa diferente, ao qual não me oponho. Sou a favor.
Para o ex-presidente, só não vê o progresso do país, um certo tipo de gente, com o qual se identifica e que se identifica com ele. Assim ele define como estão se sentindo:
FHC - Eu não diria que existe uma crise de identidade... acho que é mais um sentimento de "malaise"... se me permite usar uma expressão em francês... como se nós não estivéssemos nos sentindo bem. Quer dizer, me refiro à classe média, àquelas pessoas que lêem jornais ou que tentam seguir o que acontece no Congresso.
O Blog Olhos da Eternidade dividiu a entrevista de FHC em duas partes, com legendas em português. Elas estão aqui, na ordem:
Caso não queira, ou não possa, assisti-las, leia a transcrição da entrevista na íntegra no site da BBC Brasil.
sexta-feira, outubro 05, 2007
Carta da ex-mulher de Zé Dirceu
A ex-mulher do ex-deputado José Dirceu, Clara Becker, 66, decidiu tornar pública uma carta que pretende enviar a Aguinaldo Silva, autor da novela "Duas Caras", da TV Globo. Em entrevista à Folha (exclusiva para assinantes), Aguinaldo disse que a história de Dirceu e Clara inspirou a criação do protagonista da novela, que se casa por interesse, foge com o dinheiro da mulher e faz plástica para mudar de vida: "Tenho horror", afirmou Silva. Clara diz que Dirceu nunca foi vilão na vida real.
Confira abaixo a íntegra da carta:
"Senhor Aguinaldo Silva,
Quem lhe escreve, antes de tudo, é uma fã. Não sou militante política e nunca fui. Como milhões de brasileiros, sou uma telespectadora assídua de novelas e foi assim que aprendi a admirá-lo, como grande autor que é.
Permita-me, no entanto, transmitir uma enorme decepção que senti provocada por algumas declarações suas que envolvem fatos que conheço de perto. Que o senhor queira criar um ambiente de ficção em suas novelas, não é apenas direito seu, assim como merece todo aplauso. Mas que o senhor queira criar um universo paralelo à realidade em algo que pertence à minha vida, a algo que vivi, a algo que nada tem a ver com a ficção, pois faz parte de meu passado, sinceramente, acho que o senhor deveria ter mais cuidado.
Não me sinto preparada para tecer considerações sobre seus relacionamentos pessoais. Não me sinto preparada para julgar uma relação amorosa sua ocorrida há décadas. Isso pertence à sua intimidade e tenho algo muito claro para mim: como poderia eu, que não vivi os seus relacionamentos, sair por aí avaliando esse ou aquele aspecto da sua vida? Se fizesse isso, certamente o senhor teria toda a razão de me chamar de leviana.
Infelizmente, foi isso que ocorreu comigo, a partir de suas declarações sobre o relacionamento afetivo que mantive com José Dirceu. Se o senhor não gosta do político José Dirceu, se tem uma impressão negativa dele, esse é um direito sagrado que respeito integralmente. Agora, por favor, não extravase sua raiva ou preconceito contra ele, falando de coisas que não são de seu conhecimento, como a relação que tivemos. Pois isso não atinge apenas a ele: atinge a mim e sobre tudo a verdade.
Realmente, acredito que existe um José Dirceu de duas caras. A cara verdadeira, de quem o conhece, com suas falhas e virtudes, com seus acertos e erros, com suas qualidades e imperfeições. Há, porém, uma outra cara: uma cara inventada pelos seus adversários e por aqueles que, cegos pelo preconceito ou pela discordância, acabam produzindo uma imagem estapafúrdia. Permita-me dizer que, para minha imensa e infeliz surpresa, suas declarações acabaram colocando-o nesse triste rol.
Pela primeira e última vez, quero falar sobre detalhes de minha vida com José Dirceu, expondo minha intimidade em público, à minha revelia. É que não suporto mais ver repetidas as mentiras, as distorções, as agressões sobre algo que somente eu e ele podemos dizer, com clareza, o que aconteceu.
Sendo assim, quero deixar claro de uma vez por todas alguns pontos que considero cruciais em toda essa história. Que a imprensa, se voltar a esse assunto novamente, não queira se fazer de desinformada sobre o tema, repetindo mentiras e suposições, pois aqui eu apresento os fatos tal como os vivi:
1) O autor da novela "Duas Caras", Aguinaldo Silva, desconhece a verdade em relação à vida de José Dirceu em Cruzeiro do Oeste, cidade que ele escolheu para morar e trabalhar diante da perseguição movida pela ditadura militar, sendo obrigado a usar outra identidade e modificar sua aparência.
2) É caluniosa a comparação, feita pelo autor da novela, entre José Dirceu e um personagem que se casa por interesse e foge com o dinheiro da esposa. Nos anos em que vivi com José Dirceu nós dividíamos todas as contas. Era tudo anotado em um caderno e cada um pagava as suas contas. José Dirceu pagava a empregada e o aluguel e eu pagava as despesas de casa e a comida. Ele nunca me roubou e nunca dependeu do meu dinheiro, pois tinha a sua loja e eu a tinha a minha. Tanto que quando José Dirceu voltou para São Paulo, sua loja ainda tinha dinheiro para receber aqui em Cruzeiro do Oeste e ele me pediu que recebesse e ficasse com o dinheiro.
3) Quanto à omissão da sua identidade na época, todos, agora, sabem que era uma necessidade, pois a vida de José Dirceu estava em perigo. Certa vez fui chamada pelo então prefeito para uma conversa na Prefeitura. O prefeito e outras pessoas desconfiavam daquele homem recém-chegado à cidade e que tinha um estilo diferente. Em casa, conversei com José Dirceu e perguntei se ele escondia alguma coisa, se era casado ou se era bandido. A resposta foi imediata: não era casado e nem era bandido, mas havia algo, sim, que não podia revelado naquele momento. Senti sinceridade. Ele era bom, vivíamos bem e continuamos juntos, mesmo sem saber todos os detalhes da vida dele. Foi uma opção minha.
4) Afirmo que nunca conheci um homem tão íntegro e honesto como José Dirceu e considero que a omissão de sua real identidade foi uma necessidade naquelas circunstâncias.
5) É preciso esclarecer ainda que, ao contrário do que insinua a reportagem, não fui abandonada por José Dirceu. Com a anistia, ele pediu que eu e meu filho fossemos com ele para São Paulo. Chegamos a viver algum tempo juntos na capital paulista, mas eu tinha aqui em Cruzeiro do Oeste uma família que dependia de mim (pai, mãe, duas irmãs e meu filho) e a vida em São Paulo era muito dura. Eu tomei a iniciativa de voltar para Cruzeiro do Oeste.
6) Por fim, reafirmo que o José Dirceu foi um companheiro ideal. Mesmo depois de nossa separação mantém contato, preocupa-se com meu bem-estar e vem a Cruzeiro do Oeste, cidade hoje administrada por nosso filho.
Por fim, a todos aqueles que gostam ou não gostam de José Dirceu; a todos aqueles que concordam ou não com as idéias dele; a todos, enfim, que acreditam ou não acreditam na política, a todos eu peço apenas um favor: não usem os fatos de minha vida, não usem o meu passado, como matéria prima para suas divergências. Respeitem a minha vida, como gostariam de ter as suas respeitadas. Sou apenas uma brasileira, totalmente fora da vida pública e acho que mereço que esse direito meu seja preservado.
Cruzeiro do Oeste, 1º de outubro de 2007
Clara Becker"
(pela colunista Mônica Bergamo, da Folha)
Confira abaixo a íntegra da carta:
"Senhor Aguinaldo Silva,
Quem lhe escreve, antes de tudo, é uma fã. Não sou militante política e nunca fui. Como milhões de brasileiros, sou uma telespectadora assídua de novelas e foi assim que aprendi a admirá-lo, como grande autor que é.
Permita-me, no entanto, transmitir uma enorme decepção que senti provocada por algumas declarações suas que envolvem fatos que conheço de perto. Que o senhor queira criar um ambiente de ficção em suas novelas, não é apenas direito seu, assim como merece todo aplauso. Mas que o senhor queira criar um universo paralelo à realidade em algo que pertence à minha vida, a algo que vivi, a algo que nada tem a ver com a ficção, pois faz parte de meu passado, sinceramente, acho que o senhor deveria ter mais cuidado.
Não me sinto preparada para tecer considerações sobre seus relacionamentos pessoais. Não me sinto preparada para julgar uma relação amorosa sua ocorrida há décadas. Isso pertence à sua intimidade e tenho algo muito claro para mim: como poderia eu, que não vivi os seus relacionamentos, sair por aí avaliando esse ou aquele aspecto da sua vida? Se fizesse isso, certamente o senhor teria toda a razão de me chamar de leviana.
Infelizmente, foi isso que ocorreu comigo, a partir de suas declarações sobre o relacionamento afetivo que mantive com José Dirceu. Se o senhor não gosta do político José Dirceu, se tem uma impressão negativa dele, esse é um direito sagrado que respeito integralmente. Agora, por favor, não extravase sua raiva ou preconceito contra ele, falando de coisas que não são de seu conhecimento, como a relação que tivemos. Pois isso não atinge apenas a ele: atinge a mim e sobre tudo a verdade.
Realmente, acredito que existe um José Dirceu de duas caras. A cara verdadeira, de quem o conhece, com suas falhas e virtudes, com seus acertos e erros, com suas qualidades e imperfeições. Há, porém, uma outra cara: uma cara inventada pelos seus adversários e por aqueles que, cegos pelo preconceito ou pela discordância, acabam produzindo uma imagem estapafúrdia. Permita-me dizer que, para minha imensa e infeliz surpresa, suas declarações acabaram colocando-o nesse triste rol.
Pela primeira e última vez, quero falar sobre detalhes de minha vida com José Dirceu, expondo minha intimidade em público, à minha revelia. É que não suporto mais ver repetidas as mentiras, as distorções, as agressões sobre algo que somente eu e ele podemos dizer, com clareza, o que aconteceu.
Sendo assim, quero deixar claro de uma vez por todas alguns pontos que considero cruciais em toda essa história. Que a imprensa, se voltar a esse assunto novamente, não queira se fazer de desinformada sobre o tema, repetindo mentiras e suposições, pois aqui eu apresento os fatos tal como os vivi:
1) O autor da novela "Duas Caras", Aguinaldo Silva, desconhece a verdade em relação à vida de José Dirceu em Cruzeiro do Oeste, cidade que ele escolheu para morar e trabalhar diante da perseguição movida pela ditadura militar, sendo obrigado a usar outra identidade e modificar sua aparência.
2) É caluniosa a comparação, feita pelo autor da novela, entre José Dirceu e um personagem que se casa por interesse e foge com o dinheiro da esposa. Nos anos em que vivi com José Dirceu nós dividíamos todas as contas. Era tudo anotado em um caderno e cada um pagava as suas contas. José Dirceu pagava a empregada e o aluguel e eu pagava as despesas de casa e a comida. Ele nunca me roubou e nunca dependeu do meu dinheiro, pois tinha a sua loja e eu a tinha a minha. Tanto que quando José Dirceu voltou para São Paulo, sua loja ainda tinha dinheiro para receber aqui em Cruzeiro do Oeste e ele me pediu que recebesse e ficasse com o dinheiro.
3) Quanto à omissão da sua identidade na época, todos, agora, sabem que era uma necessidade, pois a vida de José Dirceu estava em perigo. Certa vez fui chamada pelo então prefeito para uma conversa na Prefeitura. O prefeito e outras pessoas desconfiavam daquele homem recém-chegado à cidade e que tinha um estilo diferente. Em casa, conversei com José Dirceu e perguntei se ele escondia alguma coisa, se era casado ou se era bandido. A resposta foi imediata: não era casado e nem era bandido, mas havia algo, sim, que não podia revelado naquele momento. Senti sinceridade. Ele era bom, vivíamos bem e continuamos juntos, mesmo sem saber todos os detalhes da vida dele. Foi uma opção minha.
4) Afirmo que nunca conheci um homem tão íntegro e honesto como José Dirceu e considero que a omissão de sua real identidade foi uma necessidade naquelas circunstâncias.
5) É preciso esclarecer ainda que, ao contrário do que insinua a reportagem, não fui abandonada por José Dirceu. Com a anistia, ele pediu que eu e meu filho fossemos com ele para São Paulo. Chegamos a viver algum tempo juntos na capital paulista, mas eu tinha aqui em Cruzeiro do Oeste uma família que dependia de mim (pai, mãe, duas irmãs e meu filho) e a vida em São Paulo era muito dura. Eu tomei a iniciativa de voltar para Cruzeiro do Oeste.
6) Por fim, reafirmo que o José Dirceu foi um companheiro ideal. Mesmo depois de nossa separação mantém contato, preocupa-se com meu bem-estar e vem a Cruzeiro do Oeste, cidade hoje administrada por nosso filho.
Por fim, a todos aqueles que gostam ou não gostam de José Dirceu; a todos aqueles que concordam ou não com as idéias dele; a todos, enfim, que acreditam ou não acreditam na política, a todos eu peço apenas um favor: não usem os fatos de minha vida, não usem o meu passado, como matéria prima para suas divergências. Respeitem a minha vida, como gostariam de ter as suas respeitadas. Sou apenas uma brasileira, totalmente fora da vida pública e acho que mereço que esse direito meu seja preservado.
Cruzeiro do Oeste, 1º de outubro de 2007
Clara Becker"
(pela colunista Mônica Bergamo, da Folha)
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José Dirceu,
Preconceito
terça-feira, outubro 02, 2007
BNDES financia cooperativas de catadores de recicláveis
(Com informações da Agência Brasil)
Ontem, 1º de outubro, foram assinadas as primeiras 24 operações de apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES aos catadores de materiais recicláveis, em solenidade que contou com a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Pela primeira vez em sua história, o banco vai liberar recursos a fundo perdido – não reembolsáveis – para as cooperativas. Como o cŕedito sai do fundo que o banco forma com parte de seu lucro, não há a necessidade de devolução.
O fato foi destacado pelo ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, ao lembrar que os catadores se inserem "no contexto mais amplo de uma parcela significativa, sofrida, mas anunciadora do povo brasileiro, que são as nossas populações de rua".
Os recursos, no montante de R$16,4 milhões, se destinam à construção, recuperação e modernização dos espaços físicos, aquisição de equipamentos e capacitação técnica de catadores de material reciclável. Ao todo, já foram enquadrados pelo banco 34 projetos de cooperativas, que atingem um total de R$22,9 milhões, de acordo com o BNDES.
"Esses projetos visam contribuir para a complementação de políticas de desenvolvimento regional e social, em convergência com ações nacionais prioritárias, destinadas à população de baixa renda e para o desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais, numa linha também de geração de trabalho, emprego e renda, na linha das políticas emancipatórias de outros programas sociais do nosso governo, como o Bolsa Família", afirmou Patrus Ananias.
O ministro informou que já está em curso uma contagem da população de rua, visando orientar a elaboração e implementação de políticas públicas destinadas a essa parcela da população. "Uma pesquisa para contagem da população de rua será realizada, já estamos com o edital encaminhado, em 60 municípios com população superior a 300 mil habitantes", disse. O trabalho já foi realizado em São Paulo, Belo Horizonte e Recife.
Patrus Ananias admitiu que todo o esforço empreendido não é suficiente. "Precisamos fazer mais", disse, acrescentando que o país está avançando na área social. "Quando eu vejo um momento como este registrado aqui, fica claro que nós estamos construindo, sob a liderança do presidente Lula, um Brasil novo, diferente. Um Brasil para todos".
Já o presidente Lula reafirma que papel do governo é ajudar classe pobre. "Tem uma parte da sociedade que certamente não precisa do governo. O governo precisa atender justamente aquela parte que mais necessita do Estado, que não pode reclamar. É para essa gente que o governo precisa se voltar e dar atenção", disse ele, durante a solenidade.
Lula elogiou o trabalho dos catadores, que encontraram uma maneira honesta de ter uma renda. "Não tenham vergonha de serem catadores de papel, não são menores do que ninguém. Não são inferiores a ninguém, apenas não tiveram oportunidades que outros tiveram em outros momentos", disse o presidente aos catadores de material reciclável.
O presidente ressaltou que a reciclagem significa uso adequado de energia e recursos naturais. Segundo ele, cada lata de alumínio reciclada equivale a economizar a energia gasta por um televisor ligado durante três horas.
Segundo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o programa de apoio aos catadores terá uma execução continuada. De acordo com ele, a iniciativa tem "importância capital". Na avaliação dele, o banco terá que aprender junto com os pequenos segmentos da sociedade "a olhar para os excluídos, para aqueles que, como as cooperativas de catadores, geram oportunidades de ascensão e de consolidação, na sociedade, da esperança de que o Brasil vai se tornar um país que inclui as pessoas mais humildes". "Nós vamos continuar", reafirmou.
Ontem, 1º de outubro, foram assinadas as primeiras 24 operações de apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES aos catadores de materiais recicláveis, em solenidade que contou com a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Pela primeira vez em sua história, o banco vai liberar recursos a fundo perdido – não reembolsáveis – para as cooperativas. Como o cŕedito sai do fundo que o banco forma com parte de seu lucro, não há a necessidade de devolução.
O fato foi destacado pelo ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, ao lembrar que os catadores se inserem "no contexto mais amplo de uma parcela significativa, sofrida, mas anunciadora do povo brasileiro, que são as nossas populações de rua".
Os recursos, no montante de R$16,4 milhões, se destinam à construção, recuperação e modernização dos espaços físicos, aquisição de equipamentos e capacitação técnica de catadores de material reciclável. Ao todo, já foram enquadrados pelo banco 34 projetos de cooperativas, que atingem um total de R$22,9 milhões, de acordo com o BNDES.
"Esses projetos visam contribuir para a complementação de políticas de desenvolvimento regional e social, em convergência com ações nacionais prioritárias, destinadas à população de baixa renda e para o desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais, numa linha também de geração de trabalho, emprego e renda, na linha das políticas emancipatórias de outros programas sociais do nosso governo, como o Bolsa Família", afirmou Patrus Ananias.
O ministro informou que já está em curso uma contagem da população de rua, visando orientar a elaboração e implementação de políticas públicas destinadas a essa parcela da população. "Uma pesquisa para contagem da população de rua será realizada, já estamos com o edital encaminhado, em 60 municípios com população superior a 300 mil habitantes", disse. O trabalho já foi realizado em São Paulo, Belo Horizonte e Recife.
Patrus Ananias admitiu que todo o esforço empreendido não é suficiente. "Precisamos fazer mais", disse, acrescentando que o país está avançando na área social. "Quando eu vejo um momento como este registrado aqui, fica claro que nós estamos construindo, sob a liderança do presidente Lula, um Brasil novo, diferente. Um Brasil para todos".
Já o presidente Lula reafirma que papel do governo é ajudar classe pobre. "Tem uma parte da sociedade que certamente não precisa do governo. O governo precisa atender justamente aquela parte que mais necessita do Estado, que não pode reclamar. É para essa gente que o governo precisa se voltar e dar atenção", disse ele, durante a solenidade.
Lula elogiou o trabalho dos catadores, que encontraram uma maneira honesta de ter uma renda. "Não tenham vergonha de serem catadores de papel, não são menores do que ninguém. Não são inferiores a ninguém, apenas não tiveram oportunidades que outros tiveram em outros momentos", disse o presidente aos catadores de material reciclável.
O presidente ressaltou que a reciclagem significa uso adequado de energia e recursos naturais. Segundo ele, cada lata de alumínio reciclada equivale a economizar a energia gasta por um televisor ligado durante três horas.
Segundo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o programa de apoio aos catadores terá uma execução continuada. De acordo com ele, a iniciativa tem "importância capital". Na avaliação dele, o banco terá que aprender junto com os pequenos segmentos da sociedade "a olhar para os excluídos, para aqueles que, como as cooperativas de catadores, geram oportunidades de ascensão e de consolidação, na sociedade, da esperança de que o Brasil vai se tornar um país que inclui as pessoas mais humildes". "Nós vamos continuar", reafirmou.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Pimenta no dos outros é refresco

FHC não sabia de nada, afirmam líderes tucanos
Lideranças tucanas lançam movimento para silenciar e isolar senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que envolveu ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em esquema de caixa-dois. Segundo eles, FHC e o PSDB nacional não tem nada a ver com o assunto.
(Marco Aurélio Weissheimer, para a Agência Carta Maior)
As declarações do senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG), envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no esquema de caixa-dois de sua campanha para o governo de Minas Gerais em 1998, causaram um terremoto dentro do partido, desencadeando uma operação para isolar e silenciar Azeredo o mais rápido possível. Lideranças tucanas fizeram fila, quarta-feira, para rebater as declarações do senador mineiro.
"O senador não poderia ter dito isso. Está me obrigando a responder algo surrealista. Envolver o presidente (FHC) nesse episódio é o mesmo que envolver o presidente Bush", disse Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado. Virgílio não explicou porque seu colega de partido "não poderia" ter dito o que disse. O presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati (CE), recorreu à psicologia para explicar as declarações de Azeredo.
Segundo ele, as declarações de Azeredo ao jornal Folha de São Paulo são uma demonstração de indignação e transtorno mental. Azeredo, garantiu Jereissati, é um homem honesto, correto, que ficou transtornado e saiu falando o que veio à cabeça. Já o senador tucano de Goiás, Marconi Perillo, foi mais direto: "FHC e o PSDB nacional não têm nada a ver com isso", assegurou.
O site nacional do PSDB silencia sobre o assunto. Os recados a Azeredo estão sendo dados pela imprensa e diretamente através de alguns interlocutores. O governador de São Paulo, José Serra, negou que esteja em curso no PSDB uma operação para silenciar e isolar Azeredo. Segundo Serra, o senador mineiro é um homem íntegro e honesto e jamais existiu algo como um "mensalão mineiro". Azeredo não está abandonado pelo partido. É só uma sensação, não a realidade, filosofou Serra.
Já o governador mineiro, Aécio Neves (PSDB), tirou o corpo fora e jogou a batata quente no colo de seu companheiro de partido, dizendo que Azeredo deve prestar contas à sociedade pelas acusações de caixa-dois na campanha de 1998.
Até a manhã de quinta-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ainda não havia se manifestado sobre o caso. Segundo lideranças do PSDB, FHC está no exterior. Incomunicável, aparentemente. Os tucanos não quiseram comentar a validade do argumento utilizado por eles e pelo próprio FHC, segundo o qual o presidente Lula não poderia dizer que "não sabia", no caso do envolvimento de petistas com o mensalão.
No dia 29 de agosto, o ex-presidente FHC afirmou que o presidente Lula não poderia "fazer de conta que não é com ele", referindo-se à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em aceitar a denúncia contra os denunciados no caso do mensalão. "É com ele sim. Não estou dizendo que ele seja responsável, mas enquanto ele não repudiar, dá a sensação que está conivente, ou leniente, para usar uma expressão mais branda", disse FHC, durante um evento promovido pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), em São Paulo.
O presidente Lula, acrescentou FHC, "tem a obrigação de dar uma palavra à nação sobre o assunto". "Caso contrário fica uma coisa nebulosa e dá a sensação que ele está passando a mão na cabeça dos envolvidos", emendou.
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quinta-feira, setembro 27, 2007
A construção civil e a Bolsa Família
(por Luis Nassif, na sua Coluna de Economia de hoje)
A construção de políticas públicas assemelha-se a um jogo de xadrez. No início, o tabuleiro tem poucas peças, possibilitando pouco jogo. À medida que o país amadurece, outras peças vão sendo construídas e novas possibilidades de jogo aparecem. Muitas peças as primeiras peças são colocadas sem que sequer se saiba o que poderá resultar mais à frente.
Vamos a algumas peças do jogo que será descrito a seguir.
CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) – criado no início do governo Lula com o intuito de juntar segmentos organizados da sociedade. Foram convidados a compô-lo presidentes de associações, sindicatos, ongueiros, sociedade civil e ministros.
Bolsa Família – criado como um programa assistencialista de distribuição de renda, mas com um grande avanço em relação aos programas anteriores pela consolidação e tratamento rigoroso no banco de dados.
PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) – programa que consolidou os projetos de investimento do setor público para os próximos anos tentando estimar tempo e espaço: não apenas o prazo para as obras iniciarem como os locais onde serão construídas.
***
A partir desses três elementos, na próxima semana, juntamente com a festa do seu cinqüentenário, a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) irá assinar um acordo inédito, em termos de construção de política pública conjunta, setor privado-setor público. Vamos a uma descrição feita por seu presidente Paulo Safady Simão.
***
O CDES é um conselho consultivo, não deliberativo. Tem 90 conselheiros, 9 ministros de estados que participam de todas as reuniões e dezenas de grupos técnicos discutindo alternativas de políticas públicas, cada grupo constituído por dez ou quinze conselheiros e dois ou três ministros. Esse tipo de Conselho existe há décadas na Coréia, França.
Existiu um aprendizado inicial mas, passado esse período, as partes passaram a se entender melhor. E Lula passou a estimular a busca conjunta de soluções.
***
Há um ano e meio a CBIC fechou um protocolo de intenções com as centrais sindicais, com os movimentos sociais e com o Ministério do Desenvolvimento Econômico e Social (MDES) de Patrus Ananias.
O MDES tem nome, endereço e profissão de todos os cadastrados, município por município. E identificou todos os desempregados da construção civil que recebem do Bolsa Família. Depois, a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, liberou a última programação do PAC, cidade por cidade, e prazos de início de obras. Finalmente, juntaram as estruturas do Sesi, Senai e do Ministério do Trabalho para planejar cursos profissionalizantes, próximos do início das contratações.
Na próxima semana, no encontro da CBIC, 800 empresários da construção civil assinam o protocolo se comprometendo a contratar os trabalhadores egressos do Bolsa Família. O único cuidado, seguindo recomendação do Lula, é que não entrem no lugar dos trabalhadores já empregados. O cálculo da CBIC é que 20% da mão de obra nova do setor poderá surgir do Bolsa Família.
***
O próximo protocolo a ser assinado pela CBIC será com os movimentos sociais organizados, pela moradia.
A construção de políticas públicas assemelha-se a um jogo de xadrez. No início, o tabuleiro tem poucas peças, possibilitando pouco jogo. À medida que o país amadurece, outras peças vão sendo construídas e novas possibilidades de jogo aparecem. Muitas peças as primeiras peças são colocadas sem que sequer se saiba o que poderá resultar mais à frente.
Vamos a algumas peças do jogo que será descrito a seguir.
CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) – criado no início do governo Lula com o intuito de juntar segmentos organizados da sociedade. Foram convidados a compô-lo presidentes de associações, sindicatos, ongueiros, sociedade civil e ministros.
Bolsa Família – criado como um programa assistencialista de distribuição de renda, mas com um grande avanço em relação aos programas anteriores pela consolidação e tratamento rigoroso no banco de dados.
PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) – programa que consolidou os projetos de investimento do setor público para os próximos anos tentando estimar tempo e espaço: não apenas o prazo para as obras iniciarem como os locais onde serão construídas.
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A partir desses três elementos, na próxima semana, juntamente com a festa do seu cinqüentenário, a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) irá assinar um acordo inédito, em termos de construção de política pública conjunta, setor privado-setor público. Vamos a uma descrição feita por seu presidente Paulo Safady Simão.
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O CDES é um conselho consultivo, não deliberativo. Tem 90 conselheiros, 9 ministros de estados que participam de todas as reuniões e dezenas de grupos técnicos discutindo alternativas de políticas públicas, cada grupo constituído por dez ou quinze conselheiros e dois ou três ministros. Esse tipo de Conselho existe há décadas na Coréia, França.
Existiu um aprendizado inicial mas, passado esse período, as partes passaram a se entender melhor. E Lula passou a estimular a busca conjunta de soluções.
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Há um ano e meio a CBIC fechou um protocolo de intenções com as centrais sindicais, com os movimentos sociais e com o Ministério do Desenvolvimento Econômico e Social (MDES) de Patrus Ananias.
O MDES tem nome, endereço e profissão de todos os cadastrados, município por município. E identificou todos os desempregados da construção civil que recebem do Bolsa Família. Depois, a Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, liberou a última programação do PAC, cidade por cidade, e prazos de início de obras. Finalmente, juntaram as estruturas do Sesi, Senai e do Ministério do Trabalho para planejar cursos profissionalizantes, próximos do início das contratações.
Na próxima semana, no encontro da CBIC, 800 empresários da construção civil assinam o protocolo se comprometendo a contratar os trabalhadores egressos do Bolsa Família. O único cuidado, seguindo recomendação do Lula, é que não entrem no lugar dos trabalhadores já empregados. O cálculo da CBIC é que 20% da mão de obra nova do setor poderá surgir do Bolsa Família.
***
O próximo protocolo a ser assinado pela CBIC será com os movimentos sociais organizados, pela moradia.
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terça-feira, setembro 25, 2007
Não pode ser sério, mesmo!
Dos vários absurdos que vemos na mídia diariamente, às vezes alguns ainda me deixam de queixo caído. Hoje, o jornal O Globo publicou um artigo do senador José Agripino Maia (DEM/RN), chamado Não pode ser sério. Não pode mesmo. Nele o senador despeja tantas desinformações sobre o já acontecido plebiscito pela anulação da venda da Vale do Rio Doce que por um segundo, eu juro, até cogitei a hipótese de ser apenas um baita atestado de ignorância dele, mas o fato é que o desespero por distorcer os fatos para forjar uma realidade conveniente está beirando o ridículo!
Não consegui achar o texto no site do jornal, mas clicando aqui você vê o artigo escaneado, completo. Abaixo, alguns trechos:

Fatos: o PT não "aprovou a realização do plebiscito", o PT aprovou o apoio à realização do plebiscito, que, aliás, na data do Congresso já estava em andamento (essa notícia foi publicada no portal do PT no dia primeiro de setembro, como você pode conferir aqui.) O plebiscito foi organizado por um comitê composto por cerca de 60 entidades da sociedade civil e respaldado por 104 ações populares que foram movidas questionando a legalidade da privatização.

"Seguramente", o plebiscito - que jamais foi "sugerido" pelo PT - foi precedido de um amplo esforço de mobilização, com muitas informações disponíveis no site oficial do Movimento A Vale é Nossa, que ainda indica vários outros links informativos e e-mails para contato com os comitês locais, além de estimular debates em diversos fóruns pela internet, nos quais foi dada especial atenção à discussão das regras adotadas e dos princípios da legalidade que (não) nortearam o leilão promovido pelo presidente FHC.
Para quem, como o senador Agripino, só se informa pela Veja ou pela Rede Globo, aqui tem um especial do Jornal Brasil de Fato, com um apanhado bem generoso de argumentos, publicado, obviamente, bem antes do plebiscito.
Se não houve divulgação na grande mídia que o senador usa para se informar, "certamente" não foi porque ela não sabia...

O próprio senador se contradiz, olha só! Pois ele não tinha dito que o que se pretende é "simples e demagogicamente" anular o leilão? Com as justas adequações adverbiais, o que se pretende é isso mesmo, "legal e democraticamente" anular um leilão que tem razões de sobra para ser considerado fraudulento e, portanto, ilegítimo. Seria pra rir se o senador acreditasse mesmo que, depois de tudo, a proposta ainda fosse pagar para ter o que é nosso de volta!
"Não há dinheiro para coisas essenciais", ele diz. Essenciais para quem, cara pálida? Dentre outros acertos do governo, 6 milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza, as obras do PAC andam a todo vapor, os programas sociais de redistribuição de renda são aplaudidos no exterior, o Brasil tem uma economia forte e respeitada pelos grandes mercados. Não há dinheiro para fazer tudo, isso é verdade. Nem para fazer milagres. Mas, até hoje, nenhum governo soube escolher tão bem suas prioridades. Falando nisso, quê que o ex-presidente FHC fez com o dinheiro da venda da Vale mesmo?
Finalmente, "gera riqueza para os brasileiros"? 62% dos acionistas preferenciais da Vale são estrangeiros, se tem alguém enchendo o bolso aí com certeza não é o Brasil. Isso sem contar as diversas denúncias de violação dos direitos trabalhistas, destruição ambiental e impactos violentos em comunidades indígenas e quilombolas nativas dos locais em que a Vale se instala.

Aqui o senador nem tenta disfarçar a superficialidade de seus argumentos. Primeiro, por determinar a incompatibilidade entre ideologia e interesse nacional. Segundo, por classificar "a simples discussão" como demagogia. Para mim está claro que, na opinião do senador, povo não tem que decidir, povo não tem que discutir, povo não tem que questionar, o ideal seria que povo nem pensasse. Provavelmente, o ideal de povo para o senador deve ser aquele que obedece calado e ainda agradece feliz.
ISSO é que não pode ser sério!
Acorda, senador, o senhor está vivendo no século errado!
Não consegui achar o texto no site do jornal, mas clicando aqui você vê o artigo escaneado, completo. Abaixo, alguns trechos:
Fatos: o PT não "aprovou a realização do plebiscito", o PT aprovou o apoio à realização do plebiscito, que, aliás, na data do Congresso já estava em andamento (essa notícia foi publicada no portal do PT no dia primeiro de setembro, como você pode conferir aqui.) O plebiscito foi organizado por um comitê composto por cerca de 60 entidades da sociedade civil e respaldado por 104 ações populares que foram movidas questionando a legalidade da privatização.
"Seguramente", o plebiscito - que jamais foi "sugerido" pelo PT - foi precedido de um amplo esforço de mobilização, com muitas informações disponíveis no site oficial do Movimento A Vale é Nossa, que ainda indica vários outros links informativos e e-mails para contato com os comitês locais, além de estimular debates em diversos fóruns pela internet, nos quais foi dada especial atenção à discussão das regras adotadas e dos princípios da legalidade que (não) nortearam o leilão promovido pelo presidente FHC.
Para quem, como o senador Agripino, só se informa pela Veja ou pela Rede Globo, aqui tem um especial do Jornal Brasil de Fato, com um apanhado bem generoso de argumentos, publicado, obviamente, bem antes do plebiscito.
Se não houve divulgação na grande mídia que o senador usa para se informar, "certamente" não foi porque ela não sabia...
O próprio senador se contradiz, olha só! Pois ele não tinha dito que o que se pretende é "simples e demagogicamente" anular o leilão? Com as justas adequações adverbiais, o que se pretende é isso mesmo, "legal e democraticamente" anular um leilão que tem razões de sobra para ser considerado fraudulento e, portanto, ilegítimo. Seria pra rir se o senador acreditasse mesmo que, depois de tudo, a proposta ainda fosse pagar para ter o que é nosso de volta!
"Não há dinheiro para coisas essenciais", ele diz. Essenciais para quem, cara pálida? Dentre outros acertos do governo, 6 milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza, as obras do PAC andam a todo vapor, os programas sociais de redistribuição de renda são aplaudidos no exterior, o Brasil tem uma economia forte e respeitada pelos grandes mercados. Não há dinheiro para fazer tudo, isso é verdade. Nem para fazer milagres. Mas, até hoje, nenhum governo soube escolher tão bem suas prioridades. Falando nisso, quê que o ex-presidente FHC fez com o dinheiro da venda da Vale mesmo?
Finalmente, "gera riqueza para os brasileiros"? 62% dos acionistas preferenciais da Vale são estrangeiros, se tem alguém enchendo o bolso aí com certeza não é o Brasil. Isso sem contar as diversas denúncias de violação dos direitos trabalhistas, destruição ambiental e impactos violentos em comunidades indígenas e quilombolas nativas dos locais em que a Vale se instala.
Aqui o senador nem tenta disfarçar a superficialidade de seus argumentos. Primeiro, por determinar a incompatibilidade entre ideologia e interesse nacional. Segundo, por classificar "a simples discussão" como demagogia. Para mim está claro que, na opinião do senador, povo não tem que decidir, povo não tem que discutir, povo não tem que questionar, o ideal seria que povo nem pensasse. Provavelmente, o ideal de povo para o senador deve ser aquele que obedece calado e ainda agradece feliz.
ISSO é que não pode ser sério!
Acorda, senador, o senhor está vivendo no século errado!
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domingo, setembro 23, 2007
Movimento dos Sem-Mídia
Que sociedade é essa em que alguns homens e mulheres perdem sempre, no que toca o embate de idéias sobre as grandes questões nacionais, sobre os rumos que o país deve tomar ou manter? É uma sociedade em que sempre perdi sem nem poder lutar. Uma sociedade em que a derrota já vige antes da peleja. Uma sociedade em que os poderosos barões da mídia debatem sem antagonista.
Em dado momento, refletindo sobre o esmagamento das divergências, sobre a fabricação dos consensos midiáticos no que tange a política, a economia, os costumes, o entretenimento, veio-me à mente uma imagem, a imagem de brasileiros e brasileiras que, cansados de vegetar à beira das estradas, cansados de não poderem exercer sua vocação ancestral para a agricultura por falta de terra, resolveram não mais se conformar com a condição de sem-terra num país em que ela há em profusão e não pode ser semeada porque constitui reserva de valor de latifundiários. Estes cidadãos não têm terra, e cidadãos como eu, cheios de idéias e opiniões legítimas, não temos espaço, nos latifúndios midiáticos, para semearmos nossos pontos de vista. Somos, pois, sem-mídia.
Esse é um trecho do artigo escrito pelo Eduardo Guimarães sobre como nasceu o Movimento dos Sem-Mídia - MSM, idealizado por ele, que começou a se concretizar no último dia 15 de setembro, quando mais de 100 pessoas se concentraram na porta do jornal Folha de São Paulo, onde entregaram (e protocolaram) uma cópia do Manifesto do Movimento.
Veja a seguir a reportagem do Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, sobre a manifestação:
Apesar da óbvia falta de divulgação pelos grandes meios de comunicação, a iniciativa recebeu tantas mensagens de apoio que acabou sendo o pontapé inicial para a legalização do Movimento. Estão sendo cadastrados e-mails de simpatizantes e organizada uma assembléia, para se definir um estatuto e as melhores estratégias de ação. Enfim, a história completa, detalhada e atualizada é grande, e você pode ler lá no blog do Eduardo. (Sugiro voltar nos arquivos até as vésperas do dia 15, quando houve a manifestação.)
Ao contrário de que possa parecer a muitos - principalmente se/quando os "com-mídia" resolverem se manifestar sobre o MSM - o Movimento luta "por um jornalismo limpo, plural, fidedigno, apartidário e desideologizado." O grifo é meu.
Eu, Clarice, tenho minha posição política e minha ideologia, e elas são muito claras nestes meus dois blogs, o Votolula e o Fora, Aécio!. Por elas, eu luto neles. Mas não são elas as principais razões para eu assinar e divulgar esse Movimento. Eu, como cidadã, acredito que o acesso a informações isentas e completas é fundamental para o fortalecimento da democracia em sua essência, ou seja, da soberania do POVO, e não de poucos que se apropriam de sua voz.
E você?
Em dado momento, refletindo sobre o esmagamento das divergências, sobre a fabricação dos consensos midiáticos no que tange a política, a economia, os costumes, o entretenimento, veio-me à mente uma imagem, a imagem de brasileiros e brasileiras que, cansados de vegetar à beira das estradas, cansados de não poderem exercer sua vocação ancestral para a agricultura por falta de terra, resolveram não mais se conformar com a condição de sem-terra num país em que ela há em profusão e não pode ser semeada porque constitui reserva de valor de latifundiários. Estes cidadãos não têm terra, e cidadãos como eu, cheios de idéias e opiniões legítimas, não temos espaço, nos latifúndios midiáticos, para semearmos nossos pontos de vista. Somos, pois, sem-mídia.
Esse é um trecho do artigo escrito pelo Eduardo Guimarães sobre como nasceu o Movimento dos Sem-Mídia - MSM, idealizado por ele, que começou a se concretizar no último dia 15 de setembro, quando mais de 100 pessoas se concentraram na porta do jornal Folha de São Paulo, onde entregaram (e protocolaram) uma cópia do Manifesto do Movimento.
Veja a seguir a reportagem do Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, sobre a manifestação:
Apesar da óbvia falta de divulgação pelos grandes meios de comunicação, a iniciativa recebeu tantas mensagens de apoio que acabou sendo o pontapé inicial para a legalização do Movimento. Estão sendo cadastrados e-mails de simpatizantes e organizada uma assembléia, para se definir um estatuto e as melhores estratégias de ação. Enfim, a história completa, detalhada e atualizada é grande, e você pode ler lá no blog do Eduardo. (Sugiro voltar nos arquivos até as vésperas do dia 15, quando houve a manifestação.)
Ao contrário de que possa parecer a muitos - principalmente se/quando os "com-mídia" resolverem se manifestar sobre o MSM - o Movimento luta "por um jornalismo limpo, plural, fidedigno, apartidário e desideologizado." O grifo é meu.
Eu, Clarice, tenho minha posição política e minha ideologia, e elas são muito claras nestes meus dois blogs, o Votolula e o Fora, Aécio!. Por elas, eu luto neles. Mas não são elas as principais razões para eu assinar e divulgar esse Movimento. Eu, como cidadã, acredito que o acesso a informações isentas e completas é fundamental para o fortalecimento da democracia em sua essência, ou seja, da soberania do POVO, e não de poucos que se apropriam de sua voz.
E você?
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terça-feira, setembro 18, 2007
Sobre justiça, democracia, informação e outros valores...
Percebo uma tendência das pessoas de achar que, porque eu defendo o governo Lula, eu comemorei a absolvição do Renan Calheiros. Isso não é verdade. Fui contra o voto secreto (aliás, sempre fui, se os caras tão lá me representando, eu quero saber o que eles andam fazendo!) e torci pela cassação, mesmo sabendo que o isso poderia custar ao governo.
Mas, antes de tudo, sempre defendo que não se deve condenar ninguém sem provas, sem um julgamento justo, sem o cumprimento de certas formalidades que, podem não ser as mais rápidas ou eficientes, mas são as que temos e que são necessárias para resguardar direitos individuais que, no ambiente democrático, são inalienáveis e inegociáveis.
Se por um lado eu preferia ver um suspeito de tantos crimes afastado do governo que apóio, por outro reconheço que, para ter legitimidade, julgamentos devem obedecer a certos procedimentos e respeitar princípios jurídicos como, por exemplo, ao acusador caber o ônus da prova e ao acusado o amplo direito à defesa. Quem me conhece sabe que não é de hoje que eu penso assim, e sempre fui contra o pré-julgamento e a mania que alguns brasileiros ainda têm de querer fazer justiça pelas próprias mãos, alegando que "a justiça não funciona nesse país". (Imagino que talvez sejam esses os mesmos brasileiros que se sempre arrumam um jeito de burlar a lei, mas enfim, isso já é outra história...)
Hoje recebi por e-mail texto do senador Aloizio Mercadante, em que ele justifica sua abstenção. Em certo momento, ele diz: Ante a impossibilidade do adiamento da decisão, vi-me num dilema ético. O voto "sim" significava a culpa comprovada acima de quaisquer dúvidas e a cassação. O voto "não", por seu turno, significava o reconhecimento de uma inocência ainda em questão e o arquivamento do processo. Optei, dessa maneira, pela abstenção. Portanto, não dei esse voto por falta de convicções, mas porque acreditava e continuo a acreditar que todos os processos abertos no Conselho de Ética devam seguir com rigor, até que se possa fazer um julgamento final e conclusivo sobre todas as acusações. Defendo, inclusive, que o Senador Renan Calheiros deva licenciar-se da Presidência do Senado, de forma a assegurar que os processos transcorram com isenção e sem percalços de qualquer tipo.
Eu, que a princípio torci pela cassação e, talvez pelo calor do bombardeio no noticiário, me revoltei contra aqueles que se abstiveram, não pude deixar de dar total razão ao senador Mercadante. Na falta de provas conclusivas para um lado ou para o outro, como decidir o destino de outra pessoa?
Apesar de ser representante do povo, o senador tem garantido o direito de sigilo do voto, sob o qual poderia muito bem se esconder, mas preferiu ser transparente, ético e coerente. E é aí que fica inevitável voltar ao mesmo e já tão debatido assunto para fazer a comparação: nesse episódio, ele, Mercadante, representou o contraponto perfeito a ela, nossa velha conhecida "grande mídia". Vejamos:
Ele, legitimamente escolhido pelo povo para o representar, foi eleito com todos sabendo a qual partido pertencia, que ideologia defendia e por quais valores brigaria; ela, que possui concessão do Estado e deveria informar com imparcialidade, é sempre mutante, escorregadia, usa de seu poder de difundir informação para direcionar a "vontade popular", de modo que esta sempre esteja em consonância com seus objetivos particulares, que nunca se sabe exatamente quais são (afinal, enquanto ele abre mão do direito ao sigilo, ela viola o dever da transparência).
Ele, mesmo correndo o risco de prejudicar os interesses de seu partido, não cogita esquecer seus valores; ela, se sabe o que são valores, certamente só se empenha em defender os meramente monetários, mesmo. Ele, mesmo sendo político, buscou abstrair os interesses políticos envolvidos para priorizar o respeito aos princípios da democracia e da justiça; ela, mesmo devendo teoricamente informar os fatos com isenção, não hesita em criar histórias fantásticas, subverter discursos, tratar suspeitas infundadas como provas definitivas, dirigir seus holofotes de forma bem selecionada, acusar, julgar e condenar previamente quem quer que esteja de alguma forma obstruindo seu caminho. Caminho esse que, acredito eu, se levasse a coisa boa não precisava de tanta artimanha...
Os oposicionistas nos acusam (sim, me incluo, pois acusam o governo e qualquer simpatizante dele) de sermos radicais, de não enxergar os defeitos no governo, de mistificar a imagem do presidente Lula como um homem perfeito, de fazer "qualquer coisa" para que o PT continue no poder, quando na verdade o que acontece é exatamente o contrário. Mesmo as poucas publicações assumidamente favoráveis ao governo não se furtam a fazer críticas quando elas são necessárias e fundamentadas. Nós, os simpatizantes, temos perfeita noção de o presidente Lula não é um milagreiro, é um ser humano, com defeitos como todos os humanos. Nós estamos sempre prontos a debater civilizadamente, com argumentos, fatos e números, e somos igualmente alvos de agressões irracionais, xingamentos vazios e generalizações de toda espécie.
Não, ao contrário do que eles dizem, não queremos catequizar ninguém nem impôr nossas crenças. Queremos apenas que as pessoas ouçam, com atenção, os argumentos, fatos e números que divulgamos e tentem comparar, sem pré-julgamentos, com os argumentos, fatos e números divulgados pela grande mídia, para então formar, cada um, sua PRÓPRIA opinião, fruto de suas PRÓPRIAS reflexões e conclusões. Qualquer opinião contra o governo formada dessa maneira será sempre respeitada por nós, ao contrário da repetição vomitada e mecânica de textos de "grandes pensadores" como Arnaldo Jabor ou Diogo Mainardi. Pensem, é só o que pedimos.
Mas, antes de tudo, sempre defendo que não se deve condenar ninguém sem provas, sem um julgamento justo, sem o cumprimento de certas formalidades que, podem não ser as mais rápidas ou eficientes, mas são as que temos e que são necessárias para resguardar direitos individuais que, no ambiente democrático, são inalienáveis e inegociáveis.
Se por um lado eu preferia ver um suspeito de tantos crimes afastado do governo que apóio, por outro reconheço que, para ter legitimidade, julgamentos devem obedecer a certos procedimentos e respeitar princípios jurídicos como, por exemplo, ao acusador caber o ônus da prova e ao acusado o amplo direito à defesa. Quem me conhece sabe que não é de hoje que eu penso assim, e sempre fui contra o pré-julgamento e a mania que alguns brasileiros ainda têm de querer fazer justiça pelas próprias mãos, alegando que "a justiça não funciona nesse país". (Imagino que talvez sejam esses os mesmos brasileiros que se sempre arrumam um jeito de burlar a lei, mas enfim, isso já é outra história...)
Hoje recebi por e-mail texto do senador Aloizio Mercadante, em que ele justifica sua abstenção. Em certo momento, ele diz: Ante a impossibilidade do adiamento da decisão, vi-me num dilema ético. O voto "sim" significava a culpa comprovada acima de quaisquer dúvidas e a cassação. O voto "não", por seu turno, significava o reconhecimento de uma inocência ainda em questão e o arquivamento do processo. Optei, dessa maneira, pela abstenção. Portanto, não dei esse voto por falta de convicções, mas porque acreditava e continuo a acreditar que todos os processos abertos no Conselho de Ética devam seguir com rigor, até que se possa fazer um julgamento final e conclusivo sobre todas as acusações. Defendo, inclusive, que o Senador Renan Calheiros deva licenciar-se da Presidência do Senado, de forma a assegurar que os processos transcorram com isenção e sem percalços de qualquer tipo.
Eu, que a princípio torci pela cassação e, talvez pelo calor do bombardeio no noticiário, me revoltei contra aqueles que se abstiveram, não pude deixar de dar total razão ao senador Mercadante. Na falta de provas conclusivas para um lado ou para o outro, como decidir o destino de outra pessoa?
Apesar de ser representante do povo, o senador tem garantido o direito de sigilo do voto, sob o qual poderia muito bem se esconder, mas preferiu ser transparente, ético e coerente. E é aí que fica inevitável voltar ao mesmo e já tão debatido assunto para fazer a comparação: nesse episódio, ele, Mercadante, representou o contraponto perfeito a ela, nossa velha conhecida "grande mídia". Vejamos:
Ele, legitimamente escolhido pelo povo para o representar, foi eleito com todos sabendo a qual partido pertencia, que ideologia defendia e por quais valores brigaria; ela, que possui concessão do Estado e deveria informar com imparcialidade, é sempre mutante, escorregadia, usa de seu poder de difundir informação para direcionar a "vontade popular", de modo que esta sempre esteja em consonância com seus objetivos particulares, que nunca se sabe exatamente quais são (afinal, enquanto ele abre mão do direito ao sigilo, ela viola o dever da transparência).
Ele, mesmo correndo o risco de prejudicar os interesses de seu partido, não cogita esquecer seus valores; ela, se sabe o que são valores, certamente só se empenha em defender os meramente monetários, mesmo. Ele, mesmo sendo político, buscou abstrair os interesses políticos envolvidos para priorizar o respeito aos princípios da democracia e da justiça; ela, mesmo devendo teoricamente informar os fatos com isenção, não hesita em criar histórias fantásticas, subverter discursos, tratar suspeitas infundadas como provas definitivas, dirigir seus holofotes de forma bem selecionada, acusar, julgar e condenar previamente quem quer que esteja de alguma forma obstruindo seu caminho. Caminho esse que, acredito eu, se levasse a coisa boa não precisava de tanta artimanha...
Os oposicionistas nos acusam (sim, me incluo, pois acusam o governo e qualquer simpatizante dele) de sermos radicais, de não enxergar os defeitos no governo, de mistificar a imagem do presidente Lula como um homem perfeito, de fazer "qualquer coisa" para que o PT continue no poder, quando na verdade o que acontece é exatamente o contrário. Mesmo as poucas publicações assumidamente favoráveis ao governo não se furtam a fazer críticas quando elas são necessárias e fundamentadas. Nós, os simpatizantes, temos perfeita noção de o presidente Lula não é um milagreiro, é um ser humano, com defeitos como todos os humanos. Nós estamos sempre prontos a debater civilizadamente, com argumentos, fatos e números, e somos igualmente alvos de agressões irracionais, xingamentos vazios e generalizações de toda espécie.
Não, ao contrário do que eles dizem, não queremos catequizar ninguém nem impôr nossas crenças. Queremos apenas que as pessoas ouçam, com atenção, os argumentos, fatos e números que divulgamos e tentem comparar, sem pré-julgamentos, com os argumentos, fatos e números divulgados pela grande mídia, para então formar, cada um, sua PRÓPRIA opinião, fruto de suas PRÓPRIAS reflexões e conclusões. Qualquer opinião contra o governo formada dessa maneira será sempre respeitada por nós, ao contrário da repetição vomitada e mecânica de textos de "grandes pensadores" como Arnaldo Jabor ou Diogo Mainardi. Pensem, é só o que pedimos.
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quinta-feira, setembro 13, 2007
Democracia e o vírus do brasilianismo
Dói na alma, mas nem sempre a educação é um bem sem contra-indicação. As pesquisas reiteram a cada rodada que as classes subalternas têm respondido com apoio e votos às políticas sociais do governo.
Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda também o acusam de trair sua base popular de origem.
Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental, que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.
Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa própria.
Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia, descaracterizando o bem-feito.
E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.
Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso, mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.
Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda, habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e comunicação.
Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.
Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria, fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas jornalísticas e assessores de grupos de interesse.
Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos. Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.
Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura, particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.
Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles, os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da lista de preconceitos que cultuam.
Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.
O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil, porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.
A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.
O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento, monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e difusão das novidades.
A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico, enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores. Nunca o Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso: aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para asfixiá-la.
O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto pelo brasilianismo.
O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa alguma.
(Wanderley Guilherme dos Santos, membro da Academia Brasileira de Ciências)
Onde o governo está mais presente é ali onde, proporcionalmente, tem crescido seu eleitorado. Desmentindo o argumento de que o governo falha em suas promessas de campanha. As oposições e os descontentes da esquerda também o acusam de trair sua base popular de origem.
Alternativamente, conservadores e progressistas descobrem motivo de congraçamento entre si na crítica ao suposto paternalismo governamental, que seria a razão da aquiescência das massas antes que da promoção de sua consciência cívica e autonomia política. Como é natural, não se há de responder com imperfeições terrenas às exigências do mundo platônico das idéias.
Equivalente ideal de pureza orienta os murmúrios de insatisfação quanto ao funcionamento das instituições legislativas, maculadas que estariam por operadores corruptos, por vícios simultâneos de origem e decrepitude, além de repetidas manifestações do insultuoso hábito de legislar em causa própria.
Do Executivo, o defeito mínimo que se lhe atribui é o da incompetência gerencial. Mencionam-se ademais, aqui e ali, alheamento, preguiça e incapacidade de decisão. Pela esquerda histórica, do mesmo modo insatisfeita, se assegura que o Executivo se encontra manietado por escandalosos acordos com o conservadorismo. Ou seja, o Executivo, a bem dizer, nada faz e, quando faz, faz mal ou em má companhia, descaracterizando o bem-feito.
E assim marcharia o país entre corrupção e inércia, de cambulhada com alguns outros países, poucos, igualmente cretinos, à margem do benéfico período de progresso material aproveitado pelo resto do mundo. Nem as migalhas, nós estaríamos saboreando desta vez.
Trata-se, é claro, de um diagnóstico brasilianista. Tão grave quanto o bócio e a elefantíase, o brasilianismo é a enfermidade típica do atraso, mas com patológica distribuição sociologicamente distinta.
Ela contamina preferencialmente pessoas de elevada classe de renda, habitantes de áreas urbanas, sobretudo no Sudeste do país, com diplomas universitários concentrados nas áreas de ciências sociais, economia e comunicação.
Em geral, o brasilianismo não provoca estados febris nem suores inoportunos, apresentando como principais sintomas uma enorme confusão de raciocínio, miopia conceitual e daltonismo partidário, estimulando surtos de verborragia, descontrole de adjetivos e relaxamento das vias gramaticais. Eventualmente, uma diarréia substantiva.
Dotados de imbatível lógica esquizofrênica, os contaminados costumam passar por professores, cheios de comendas, donos de escritórios de consultoria, fartos de encomendas, colunistas bem remunerados, intrigantes de notinhas jornalísticas e assessores de grupos de interesse.
Honestíssimos, em sua maioria, acreditam no que dizem, com grande pompa e muita circunstância. Causa dissabor vê-los. Ao contrário dos portadores de bócio e de elefantíase, cônscios estes da enfermidade que os atormenta, os brasilianistas desfilam orgulhosamente a própria miséria como portariam um estandarte de cruzados. Em certo sentido, são mesmo monocromáticos. Felizmente, o brasilianismo não é sexualmente transmissível. Segundo alguns clínicos, porque não é sexualmente ativo. Polêmicas médicas.
Embora bem-educados, os brasilianistas têm horror à leitura, particularmente de matérias sobre o Brasil, à exceção, obviamente, dos artigos que escrevem uns para os outros. Ignoram as estatísticas, têm vaga noção do que significa o coeficiente de Gini e não fazem a menor idéia do que foi a história da América do Sul nem do percurso secular do grande mito que são os Estados Unidos. Da Europa, conhecem os vinhos, os queijos e o carnaval de Veneza, em pacote turístico de sete dias. Constituem a mais acachapante evidência do fracasso da universidade brasileira.
Jamais um brasilianista aceitará a tese de que os pobres votam por uma razão idêntica à sua, isto é, por interesse. E, conseqüentemente, também rejeitarão a hipótese de que os carentes sejam tão racionais quanto eles, os poucos abundantes. Negarão que pertençam ao mesmo gênero de distribuição de privilégios os subsídios à exportação, a remuneração dos títulos da dívida pública e os empréstimos pré-consignados. São favoráveis ao controle da natalidade da população de salário mínimo e à pena de morte, em certos casos, que é uma forma substitutiva, ou complementar, de controle da mortalidade. Consideram-se liberais de boa cepa, pois têm entre seus melhores amigos, segundo testemunho voluntário, um negro, um judeu e um gay. A discriminação dos melhores amigos é a confissão inconsciente da lista de preconceitos que cultuam.
Não obstante os brasilianistas, ou melhor, inclusive com parcela do trabalho deles, vai se livrando das algemas do arcaísmo um país em que os conservadores parecem ter, finalmente, abandonado a estratégia de rondar os quartéis sempre que contrariados pela política. A integração material da sociedade avança pela via do mercado, a despeito dos revolucionários e dos adoradores dos monopólios, e no qual a Constituição de 1988 conseguiu evitar a institucionalização de práticas discriminatórias.
O custo de combater preconceitos e discriminações é baixo, no Brasil, porque não são protegidos por lei. Aspecto crucial, cuja relevância é perfeitamente reconhecida pelos negros da África do Sul e dos Estados Unidos e pelos antigos judeus imigrantes argentinos, por exemplo.
A sociedade precisa dos brasilianistas na exata medida em que as deficiências materiais são ainda tamanhas e a tentação para a autocomplacência é enorme. Mas estão sobre-representados na produção e controle da informação pública, comprometendo com sua vesguice melhor avaliação do que vai pelo mundo e pelo Brasil.
O formigamento social é extenso, a vida comunitária se enriquece municípios afora, mas de nada disso a maioria da população toma conhecimento, monopolizado que está o mecanismo de produzir idéias e imagens. Há evidente descompasso entre o processo de democratização em curso na vida política e social e o processo de concentração oligopolista no sistema de captação e difusão das novidades.
A unanimidade brasilianista que absorveu as fontes de informação prejudica a democracia, constitui ameaça aos direitos do cidadão de estar servido de fontes alternativas de opinião, nega, na prática, o pluralismo ideológico, enquanto busca a massificação bovina de leitores e telespectadores. Nunca o Brasil moderno, período ditatorial à parte, enfrentou inimigo tão poderoso: aquele que, tal como um partido subversivo, usufrui da liberdade para asfixiá-la.
O Brasil real é complexo, pleno de deficiências e de linhas de força, não está representado na rede para-ideológica de informação, tomada de assalto pelo brasilianismo.
O brasilianismo é a doença infantil da ditadura da opinião. De onde se segue a divergência entre o que ocorre no país e o que pensam sobre ele aqueles que se imaginam educados. Para estes, a educação não vale coisa alguma.
(Wanderley Guilherme dos Santos, membro da Academia Brasileira de Ciências)
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terça-feira, setembro 04, 2007
Carta da filha de José Genoíno
Acreditar. E vencer.
Há muitos anos atrás, quando eu ainda era aluna do Logos e nem sonhava em tomar os caminhos que depois surgiram na minha vida, minha mãe veio me contar que meu pai tinha sido convidado para ir à Ilha de Caras com todos nós. E que tinha dito não. Eu fiquei um pouco desapontada, não porque seja fã de tal revista, mas porque imaginava a mordomia e os brindes que poderia conseguir com uns dias naquele paraíso. Quando meu pai chegou de Brasília e eu perguntei o porquê da recusa ele foi taxativo: jamais iria participar de tal ambiente, jamais iria conseguir relaxar no meio de tanto esbanjamento de luxo e dinheiro e não ia deixar que ficassem fotografando a hora dele nadar, comer, ir ao banheiro. Pouco tempo depois encontramos aqui em casa uma caixa, pro meu pai, com um tubinho todo chique, com um convite dentro: era para a festa de lançamento da novela "O Clone", que já tinha acontecido há alguns dias. Novamente indaguei ao meu pai para saber porquê ele não tinha ido (e me levado junto) e a resposta foi bem parecida: não quero estar no meio de uma festa que não significa nada para mim. E ponto.
Durante todos estes anos em que esteve na política, nos altos e baixos, meu pai nunca mostrou qualquer mínimo sentimento de ambição e de ilusão com o poder. Nunca se deixou maravilhar por este mundo das revistas sociais e das ocasiões de luxo e glamour. Nunca teve nem aquela ambição do tipo Odette Roitman, nem aquela pequena, ínfima, que todo mundo tem, de querer ter algumas coisinhas nas nossas vidas. Ele nunca teve isso porque para ele não era o que o movia, não era o que dava sentido à sua vida, à sua história, à sua luta.
O que sempre moveu meu pai foi um sentimento amplo, único, de trabalhar para um bem maior, para algo que pudesse de verdade "melhorar a vida das pessoas", esta era a frase que a gente mais ouvia. Ele sempre me dizia que, desde a época da ditadura, o que sempre deu força para seguir lutando, seguir vivendo, seguir sonhando, era esta certeza de que com a sua luta, seus ideais, as coisas poderiam melhorar, poderiam ser diferentes. E que certamente um dia seriam.
Muito tempo se passou e recebemos esta semana a dura notícia de que meu pai, meu Genoino pai, vai ser processado por corrupção ativa e formação de quadrilha. Durante todo este processo, ele nunca teve muita dúvida de que iria ser condenado pelo STF; ele me dizia: "a mídia não vai deixar eu não ser indiciado...". E assim foi. Tivemos que ler barbaridades, tivemos que agüentar monstruosidades, tivemos que ouvir frases sem lógica como, "é, não tem mesmo provas contundentes para ser condenado, mas vou indiciar...". Que mundo é esse em que mesmo sem provas, uma pessoa é processada por um crime que jamais cometeu?
Desde então temos recebido alguns importantes telefonemas de apoio, de solidariedade, mas também temos recebido telefonemas da nossa velha amiga imprensa. Aquela mesma imprensa que condenou meu pai pelos "dólares na cueca" e depois, quando meu tio foi absolvido, colocou apenas uma nota de rodapé. A mesma imprensa que depois do meu pai ter sido sempre o interlocutor mais fiel, escrevia absurdos nos jornais sem nem ao mesmo realizar um telefonema para checar antes... Esta mesma imprensa que nos fez passar por tudo, desde mobilizar uma multidão na porta da nossa casa para nos xingar, até escrever que meus pais tinham ido ao meu casamento na Espanha com dinheiro do Marcos Valério - não foram capazes de perguntar antes na companhia aérea sobre as 10 parcelas que minha mãe pagou para que eles pudessem estar comigo naquele momento.
Eu nunca serei contra a liberdade de imprensa. Nem eu, nem meus pais, que lutaram, sofreram, foram presos e torturados por defender a liberdade que a ditadura esmagou. Mas não posso ser a favor de ir de um extremo ao outro... Saímos das notícias falsas do regime militar e a omissão sobre os fatos, ao vale tudo da imprensa, que hoje em dia parece conversa de vizinha: ouviram um rumor, já está lá publicado. Sofro com tudo isso porque é a mesma injustiça que, na volta da minha lua-de-mel, fez com que eu fosse deportada: não importam os fatos, não vou checar nada porque eu mesma já decidi que o que você está dizendo é mentira. E o mais triste não é nem isso, alguém ser assim de injusto; o pior é ver um monte de outras pessoas acreditando e se deixando levar pelo movimento.
O que percebo é que as pessoas não são mais inocentes até que se prove o contrário. Estão tratando a todos como se fossem culpados até que se prove o contrário.
Tudo isso me fez lembrar uma passagem do livro "O nome da morte", de Kléster Cavalcanti, que conta a história de um matador de aluguel que por acaso foi quem deu um tiro no meu pai e o prendeu no Araguaia. Quando tudo aconteceu, ele era apenas um jovem de 17 anos que não queria fazer mal a ninguém. E lá foram dizer a ele, para convencê-lo a realizar o tal serviço, de que ele estava ajudando a combater os comunistas terroristas e assim ajudando ao progresso do Brasil. E o tal matador acreditou. Tanto tempo se passou desde esta história, mas parece que muita coisa continua igual... "Eles são corruptos e formaram uma quadrilha!" e um monte de gente vai lá, acredita, se revolta e ainda reclama da demora da justiça, porquê vai demorar tanto tempo para eles serem condenados???? Já existiram tempos em que tudo era mais rápido não é mesmo?
Tudo isso parece um inferno, parece um calvário, mas se querem saber algo, nós não vamos desistir. Acho que a história da minha família é essa, derrubar para dar a volta por cima e vencer, vencer todos os desafios. Nós vamos vencer mais este desafio, vamos lutar até o fim para provar a inocência do meu pai, vamos lutar até o fim para que todos possam perceber que meu pai pode até ter cometido alguns erros políticos, mas que nunca, jamais, cometeu qualquer ação criminal. Jamais.
São muitos os sentimentos que me invadem neste momento porque estou já me despedindo do meu país para voltar para minha casa, que é Sevilha. E o que mais dói dentro de mim é que vou magoada com este meu Brasil, decepcionada com as pessoas, descrente com o que estamos criando por aqui... Espero algum dia conseguir perdoar ou ao menos entender tudo isso... São tantas contradições! Hoje recebi um e-mail amigo com uma defesa ao meu pai feita por um deputado de um partido da oposição, enquanto muitos do próprio PT, muitos amigos de esquerda, parecem hoje ter vergonha de conhecer meu pai, nossa família, de apóia-lo e defendê-lo. De defender a sua história, a sua luta, a sua verdade. Eu não me preocupo porque sei que pra todo mundo chega o momento de pensar, de avaliar, de prestar contas dos seus atos perante uma força maior, seja a força que for, interna, humana, coletiva, divina.
Não vamos desistir. Não vamos desistir, não vamos nos envergonhar e não vamos fraquejar. Nossa união sempre se mostrou imbatível e é ela que vai nos ajudar a vencer tudo isso e a provar que sim, os anos passaram, mas meu pai nunca deixou de ser aquele ser humano determinado, verdadeiro e íntegro, que nos momentos "em alta" não se deixou iludir pelas ilhas de caras da vida e por isso não vai ser agora, um pouco em baixa, que vai se deixar levar pelo mar de injustiça e desrespeito. Ele é maior que tudo isso, eu sei. E nós também, algum dia, seremos.
Miruna Kayano Genoino - agosto de 2007
Há muitos anos atrás, quando eu ainda era aluna do Logos e nem sonhava em tomar os caminhos que depois surgiram na minha vida, minha mãe veio me contar que meu pai tinha sido convidado para ir à Ilha de Caras com todos nós. E que tinha dito não. Eu fiquei um pouco desapontada, não porque seja fã de tal revista, mas porque imaginava a mordomia e os brindes que poderia conseguir com uns dias naquele paraíso. Quando meu pai chegou de Brasília e eu perguntei o porquê da recusa ele foi taxativo: jamais iria participar de tal ambiente, jamais iria conseguir relaxar no meio de tanto esbanjamento de luxo e dinheiro e não ia deixar que ficassem fotografando a hora dele nadar, comer, ir ao banheiro. Pouco tempo depois encontramos aqui em casa uma caixa, pro meu pai, com um tubinho todo chique, com um convite dentro: era para a festa de lançamento da novela "O Clone", que já tinha acontecido há alguns dias. Novamente indaguei ao meu pai para saber porquê ele não tinha ido (e me levado junto) e a resposta foi bem parecida: não quero estar no meio de uma festa que não significa nada para mim. E ponto.
Durante todos estes anos em que esteve na política, nos altos e baixos, meu pai nunca mostrou qualquer mínimo sentimento de ambição e de ilusão com o poder. Nunca se deixou maravilhar por este mundo das revistas sociais e das ocasiões de luxo e glamour. Nunca teve nem aquela ambição do tipo Odette Roitman, nem aquela pequena, ínfima, que todo mundo tem, de querer ter algumas coisinhas nas nossas vidas. Ele nunca teve isso porque para ele não era o que o movia, não era o que dava sentido à sua vida, à sua história, à sua luta.
O que sempre moveu meu pai foi um sentimento amplo, único, de trabalhar para um bem maior, para algo que pudesse de verdade "melhorar a vida das pessoas", esta era a frase que a gente mais ouvia. Ele sempre me dizia que, desde a época da ditadura, o que sempre deu força para seguir lutando, seguir vivendo, seguir sonhando, era esta certeza de que com a sua luta, seus ideais, as coisas poderiam melhorar, poderiam ser diferentes. E que certamente um dia seriam.
Muito tempo se passou e recebemos esta semana a dura notícia de que meu pai, meu Genoino pai, vai ser processado por corrupção ativa e formação de quadrilha. Durante todo este processo, ele nunca teve muita dúvida de que iria ser condenado pelo STF; ele me dizia: "a mídia não vai deixar eu não ser indiciado...". E assim foi. Tivemos que ler barbaridades, tivemos que agüentar monstruosidades, tivemos que ouvir frases sem lógica como, "é, não tem mesmo provas contundentes para ser condenado, mas vou indiciar...". Que mundo é esse em que mesmo sem provas, uma pessoa é processada por um crime que jamais cometeu?
Desde então temos recebido alguns importantes telefonemas de apoio, de solidariedade, mas também temos recebido telefonemas da nossa velha amiga imprensa. Aquela mesma imprensa que condenou meu pai pelos "dólares na cueca" e depois, quando meu tio foi absolvido, colocou apenas uma nota de rodapé. A mesma imprensa que depois do meu pai ter sido sempre o interlocutor mais fiel, escrevia absurdos nos jornais sem nem ao mesmo realizar um telefonema para checar antes... Esta mesma imprensa que nos fez passar por tudo, desde mobilizar uma multidão na porta da nossa casa para nos xingar, até escrever que meus pais tinham ido ao meu casamento na Espanha com dinheiro do Marcos Valério - não foram capazes de perguntar antes na companhia aérea sobre as 10 parcelas que minha mãe pagou para que eles pudessem estar comigo naquele momento.
Eu nunca serei contra a liberdade de imprensa. Nem eu, nem meus pais, que lutaram, sofreram, foram presos e torturados por defender a liberdade que a ditadura esmagou. Mas não posso ser a favor de ir de um extremo ao outro... Saímos das notícias falsas do regime militar e a omissão sobre os fatos, ao vale tudo da imprensa, que hoje em dia parece conversa de vizinha: ouviram um rumor, já está lá publicado. Sofro com tudo isso porque é a mesma injustiça que, na volta da minha lua-de-mel, fez com que eu fosse deportada: não importam os fatos, não vou checar nada porque eu mesma já decidi que o que você está dizendo é mentira. E o mais triste não é nem isso, alguém ser assim de injusto; o pior é ver um monte de outras pessoas acreditando e se deixando levar pelo movimento.
O que percebo é que as pessoas não são mais inocentes até que se prove o contrário. Estão tratando a todos como se fossem culpados até que se prove o contrário.
Tudo isso me fez lembrar uma passagem do livro "O nome da morte", de Kléster Cavalcanti, que conta a história de um matador de aluguel que por acaso foi quem deu um tiro no meu pai e o prendeu no Araguaia. Quando tudo aconteceu, ele era apenas um jovem de 17 anos que não queria fazer mal a ninguém. E lá foram dizer a ele, para convencê-lo a realizar o tal serviço, de que ele estava ajudando a combater os comunistas terroristas e assim ajudando ao progresso do Brasil. E o tal matador acreditou. Tanto tempo se passou desde esta história, mas parece que muita coisa continua igual... "Eles são corruptos e formaram uma quadrilha!" e um monte de gente vai lá, acredita, se revolta e ainda reclama da demora da justiça, porquê vai demorar tanto tempo para eles serem condenados???? Já existiram tempos em que tudo era mais rápido não é mesmo?
Tudo isso parece um inferno, parece um calvário, mas se querem saber algo, nós não vamos desistir. Acho que a história da minha família é essa, derrubar para dar a volta por cima e vencer, vencer todos os desafios. Nós vamos vencer mais este desafio, vamos lutar até o fim para provar a inocência do meu pai, vamos lutar até o fim para que todos possam perceber que meu pai pode até ter cometido alguns erros políticos, mas que nunca, jamais, cometeu qualquer ação criminal. Jamais.
São muitos os sentimentos que me invadem neste momento porque estou já me despedindo do meu país para voltar para minha casa, que é Sevilha. E o que mais dói dentro de mim é que vou magoada com este meu Brasil, decepcionada com as pessoas, descrente com o que estamos criando por aqui... Espero algum dia conseguir perdoar ou ao menos entender tudo isso... São tantas contradições! Hoje recebi um e-mail amigo com uma defesa ao meu pai feita por um deputado de um partido da oposição, enquanto muitos do próprio PT, muitos amigos de esquerda, parecem hoje ter vergonha de conhecer meu pai, nossa família, de apóia-lo e defendê-lo. De defender a sua história, a sua luta, a sua verdade. Eu não me preocupo porque sei que pra todo mundo chega o momento de pensar, de avaliar, de prestar contas dos seus atos perante uma força maior, seja a força que for, interna, humana, coletiva, divina.
Não vamos desistir. Não vamos desistir, não vamos nos envergonhar e não vamos fraquejar. Nossa união sempre se mostrou imbatível e é ela que vai nos ajudar a vencer tudo isso e a provar que sim, os anos passaram, mas meu pai nunca deixou de ser aquele ser humano determinado, verdadeiro e íntegro, que nos momentos "em alta" não se deixou iludir pelas ilhas de caras da vida e por isso não vai ser agora, um pouco em baixa, que vai se deixar levar pelo mar de injustiça e desrespeito. Ele é maior que tudo isso, eu sei. E nós também, algum dia, seremos.
Miruna Kayano Genoino - agosto de 2007
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terça-feira, agosto 07, 2007
Um pouco de lucidez em meio ao caos — da mídia
Vendo as inúmeras manifestações que circulam na internet sobre a crise aérea, nos perguntamos: será que tanta gente assim também se deixou enganar por essa conversa pra boi dormir que quer fazer a gente acreditar que o nosso país piorou com Lula no governo? Tudo bem que um país se engane uma vez, como foi com o Collor, mas desta vez Lula foi reeleito. Tantos não poderiam estar errados, não é mesmo?
Ao receber mais um desses contundentes textos, em forma de "desabafo" de um comandante (que estava no Oriente Médio e soube do acidente da TAM pela CNN), resolvemos responder ao remetente (ou "repetinte").
Essa revolta quase histérica é fruto da influência que exerce a opinião de meia dúzia de empresários do ramo de comunicação, que publicam as Vejas da vida e tratam a classe média como "Homer Simpson", como é o caso do Willian Bonner, do JN. Fazem mesmo a cabeça de quem lê pouco, conhece pouco a história do país e que ainda não viu
a vantagem para si da estabilização DE FATO do Real, do pagamento da dívida, da redução da miséria (7 milhões de famílias deixaram a miséria em 4 anos!), da crescente capacidade de compra e de participação política dos pobres...
Temos trocentos números, testemunhos de vida, testemunhos políticos, análises de gente daqui e de fora, das universidade, de governos outros que não o nosso - para atestar que NÃO SOMOS precisamente o que afirma um dos "desabafantes", "respaldado" pela autoridade de comandante, mas lunático ao afirmar que somos "um país sem identidade política, sem atitudes cívicas e de cidadania, sempre pensando em nós mesmos e nunca no próximo." Nada mais falso. Nada mais forçado. Isso é desconhecer o que a nossa geração e a seguinte fizeram nos últimos 20 anos...
Tampouco é lícito esses mequetrefes dizerem que o presidente nos envergonha. Nós do VOTOLULA, particularmente, (e uns 63 milhões de brasileiros recém consultados sobre o assunto) temos orgulho de ter nosso país governado por um "prático", uma pessoa honesta, que com muita habilidade política tem levado o país a crescer novamente, solucionando problemas que, sim senhores, "nunca na história deste país" foram resolvidos, por incompetência.
Lembrem-se do último sociólogo no poder, por exemplo. Lembrem a merda que deu: em nome de equacionar a dívida, vendeu - mal e porcamente vendido, esse é o problema - o patrimônio público, para, segundo ele, diminuir o estado, porque, segundo ele, o estado era grande e gastava mal... No final da história, o doutor não fez nem uma coisa nem outra: multiplicou por 10 a dívida e os setores mal privatizados avançaram sobre a pobre renda do brasileiro. Ou vocês acham as tarifas de celular e elétrica baratas?
O tal comandante já fez a investigação dele, ele certamente já leu e degravou a fita e os dados da caixa-preta e tudo mais e já conseguiu o que o Cenipa - responsável oficial pela investigação - ainda não nos forneceu, que é uma versão consistente para o triste acidente, embasada em fatos (e não em especulações alçadas à condição de verdade).
Quanto a deixar o comando do país na mão de políticos da base de sustentação do governo, é natural que, vencidas as eleições, o presidente do PT governe com gente do PT e dos partidos que apoiaram. Quanto a os chamar de assassinos, a vontade é de meter um processo nele pedindo para provar o que diz. A propósito, há uma revista dizendo que o acidente foi culpa do piloto. Como ficará a extensa argumentação desse sem-moral se isso for verdade? Vai continuar chamando o Lula de assassino?
Quanto a falar de incompetência, é e não é, TEM RAZÃO E NÃO TEM AO MESMO TEMPO. O crescimento do país é um fato. O aumento do poder de compra é outro fato. A incapacidade dos poderes públicos de acompanhar o crescimento da malha aérea é outro fato. Todos eles são de competência do governo. Mas a liberalização do mercado, que provocou a concentração em Congonhas, não. É mais antiga. O governo errou feio por não ter mexido nisso - nos interesses todos ali - antes.
Na nossa modesta opinião, partidarizar o debate sobre o acidente (notem, falamos do acidente, não da crise aérea) é - isso sim - de uma irresponsabilidade que beira à má-fé.
Quanto à corrupção, vamos dar graças a Deus (e ao governo do PT, do Lula) porque atualmente a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União, com o Ministério Público independente e as CPIs de quebra, todos existem e podem funcionar com liberdade, podem investigar e mandar ver contra! Mas isso, repetimos, também é de competência deste governo - é inédito e foi sob o governo do presidente Lula (e não de outro) que se fez!
Por fim, o sujeito que escreveu tanta besteira deve estar muito mal informado sobre o que se passa no país (lembrem-se de que ele ficou sabendo do acidente pela CNN...), para estar tão desesperançoso. Esqueceu-se de que fazia 20 anos que não havia crescimento, não havia ambiente de investimentos nem confiabilidade externa, não havia planejamento estratégico, não havia responsabilidade cambial e que não havia ganho salarial para 86% das categorias, não havia reajuste para funcionalismo público, não havia crédito, não havia juros tão baixos, não havia lei de pequena e micro empresa, não havia investimento em infra-estrutura, não havia tratamento de dente para pobre de graça pelo SUS, não havia SAMU...
Então, pra terminar: o Lula fez uma declaração à imprensa 4 horas depois do acidente, por meio do porta-voz. Um pronunciamento à nação, medidas drásticas, mudança do ministro etc. Em 22 de junho, os amotinados do controle aéreo tinham sido afastados. Que mais precisa fazer? Quem souber, mande para nós, vamos publicar e espalhar. E ainda vamos dizer que "tava demorando".
Ao receber mais um desses contundentes textos, em forma de "desabafo" de um comandante (que estava no Oriente Médio e soube do acidente da TAM pela CNN), resolvemos responder ao remetente (ou "repetinte").
Essa revolta quase histérica é fruto da influência que exerce a opinião de meia dúzia de empresários do ramo de comunicação, que publicam as Vejas da vida e tratam a classe média como "Homer Simpson", como é o caso do Willian Bonner, do JN. Fazem mesmo a cabeça de quem lê pouco, conhece pouco a história do país e que ainda não viu
a vantagem para si da estabilização DE FATO do Real, do pagamento da dívida, da redução da miséria (7 milhões de famílias deixaram a miséria em 4 anos!), da crescente capacidade de compra e de participação política dos pobres...
Temos trocentos números, testemunhos de vida, testemunhos políticos, análises de gente daqui e de fora, das universidade, de governos outros que não o nosso - para atestar que NÃO SOMOS precisamente o que afirma um dos "desabafantes", "respaldado" pela autoridade de comandante, mas lunático ao afirmar que somos "um país sem identidade política, sem atitudes cívicas e de cidadania, sempre pensando em nós mesmos e nunca no próximo." Nada mais falso. Nada mais forçado. Isso é desconhecer o que a nossa geração e a seguinte fizeram nos últimos 20 anos...
Tampouco é lícito esses mequetrefes dizerem que o presidente nos envergonha. Nós do VOTOLULA, particularmente, (e uns 63 milhões de brasileiros recém consultados sobre o assunto) temos orgulho de ter nosso país governado por um "prático", uma pessoa honesta, que com muita habilidade política tem levado o país a crescer novamente, solucionando problemas que, sim senhores, "nunca na história deste país" foram resolvidos, por incompetência.
Lembrem-se do último sociólogo no poder, por exemplo. Lembrem a merda que deu: em nome de equacionar a dívida, vendeu - mal e porcamente vendido, esse é o problema - o patrimônio público, para, segundo ele, diminuir o estado, porque, segundo ele, o estado era grande e gastava mal... No final da história, o doutor não fez nem uma coisa nem outra: multiplicou por 10 a dívida e os setores mal privatizados avançaram sobre a pobre renda do brasileiro. Ou vocês acham as tarifas de celular e elétrica baratas?
O tal comandante já fez a investigação dele, ele certamente já leu e degravou a fita e os dados da caixa-preta e tudo mais e já conseguiu o que o Cenipa - responsável oficial pela investigação - ainda não nos forneceu, que é uma versão consistente para o triste acidente, embasada em fatos (e não em especulações alçadas à condição de verdade).
Quanto a deixar o comando do país na mão de políticos da base de sustentação do governo, é natural que, vencidas as eleições, o presidente do PT governe com gente do PT e dos partidos que apoiaram. Quanto a os chamar de assassinos, a vontade é de meter um processo nele pedindo para provar o que diz. A propósito, há uma revista dizendo que o acidente foi culpa do piloto. Como ficará a extensa argumentação desse sem-moral se isso for verdade? Vai continuar chamando o Lula de assassino?
Quanto a falar de incompetência, é e não é, TEM RAZÃO E NÃO TEM AO MESMO TEMPO. O crescimento do país é um fato. O aumento do poder de compra é outro fato. A incapacidade dos poderes públicos de acompanhar o crescimento da malha aérea é outro fato. Todos eles são de competência do governo. Mas a liberalização do mercado, que provocou a concentração em Congonhas, não. É mais antiga. O governo errou feio por não ter mexido nisso - nos interesses todos ali - antes.
Na nossa modesta opinião, partidarizar o debate sobre o acidente (notem, falamos do acidente, não da crise aérea) é - isso sim - de uma irresponsabilidade que beira à má-fé.
Quanto à corrupção, vamos dar graças a Deus (e ao governo do PT, do Lula) porque atualmente a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União, com o Ministério Público independente e as CPIs de quebra, todos existem e podem funcionar com liberdade, podem investigar e mandar ver contra! Mas isso, repetimos, também é de competência deste governo - é inédito e foi sob o governo do presidente Lula (e não de outro) que se fez!
Por fim, o sujeito que escreveu tanta besteira deve estar muito mal informado sobre o que se passa no país (lembrem-se de que ele ficou sabendo do acidente pela CNN...), para estar tão desesperançoso. Esqueceu-se de que fazia 20 anos que não havia crescimento, não havia ambiente de investimentos nem confiabilidade externa, não havia planejamento estratégico, não havia responsabilidade cambial e que não havia ganho salarial para 86% das categorias, não havia reajuste para funcionalismo público, não havia crédito, não havia juros tão baixos, não havia lei de pequena e micro empresa, não havia investimento em infra-estrutura, não havia tratamento de dente para pobre de graça pelo SUS, não havia SAMU...
Então, pra terminar: o Lula fez uma declaração à imprensa 4 horas depois do acidente, por meio do porta-voz. Um pronunciamento à nação, medidas drásticas, mudança do ministro etc. Em 22 de junho, os amotinados do controle aéreo tinham sido afastados. Que mais precisa fazer? Quem souber, mande para nós, vamos publicar e espalhar. E ainda vamos dizer que "tava demorando".
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