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quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Reduzir ou não, eis a questão

Reflexões para os que não se divertem com o carnaval

Pacto com a morte

Neste momento em que parlamentares e jornalistas incentivam uma reação irracional contra os assassinos do pequeno João Hélio, levantando até idéias como a pena de morte, vale discutir como são construídos os criminosos no Brasil.


Mauro Santayana

Quando uma jovem da alta classe média paulista – Suzana Richthofen - planejou e participou do assassinato de seus pais, trucidados, enquanto dormiam, a golpes de barras de ferro pelo namorado e o irmão dele, ninguém pediu a pena de morte para a moça. Ao contrário: surgiram comunidades de internautas, dizendo que a amavam. Da mesma forma, quando um índio pataxó foi queimado, enquanto dormia, para o divertimento de rapazes da alta classe média brasiliense, respeitável juíza do Distrito Federal quis desclassificar o crime, a fim de evitar que fossem levados ao tribunal do júri. Algumas das pessoas de bem da capital da República se mobilizaram, a fim de desculpar os assassinos. Eles estavam apenas querendo “brincar” com o índio. Depois se soube que os rapazes estavam sendo privilegiados na prisão: um deles saía para freqüentar o curso universitário e, entre o fim das aulas e o retorno a uma cela especial da penitenciária, tomava cerveja com os amigos.

É claro que nos revolta muito mais a morte de uma criança de seis anos, da forma brutal como ela se deu, do que a execução de duas pessoas de meia-idade, e a de um remanescente dos bravos tapuias do litoral da Bahia, membro de pequena tribo que escapou do extermínio secular.

A morte por nada
O que choca, ainda mais, no caso do menino João Hélio, é a extrema precariedade da vida nas grandes cidades brasileiras. Morre-se sem nenhuma explicação, como se todos nós andássemos com uma pistola carregada, jogando a roleta-russa. Quando menos se espera, a única bala fica diante do percussor, e o dedo invisível das circunstâncias dispara o gatilho. Se a mãe do menino houvesse passado pelo local cinco minutos antes, ou cinco minutos depois, talvez nada houvesse ocorrido. Ao sair do centro espírita naquele exato momento e ao escolher aquele trajeto, a senhora estava, para seu desespero, entregando o filho ao despropositado martírio.

Todos nós nos sentimos atingidos pelo crime, mas não temos a mesma carga de sofrimento e de ódio que atinge os pais do garoto. Eles têm todo o direito de exigir punição mais severa para os criminosos – até mesmo a morte – incluída a do menor que participou do assassinato. Se pensarmos no que sentiríamos se isso ocorresse a qualquer um de nós, não há limite para o ódio, não há como conter o desejo de vingança pessoal. Qualquer pai seria capaz de matar o assassino de seu filho, ou de sua filha, como tem ocorrido. A senhora, que matou a facadas o adolescente que violentara seu filho pequeno, fez o que muitos de nós seríamos capazes de fazer.

Quando crimes tão bárbaros são cometidos há uma reação coletiva irracional. É o que está ocorrendo agora, quando se pede a pena de morte para os assassinos do pequeno João Hélio. E essa reação é tão mais despropositada quando parte de alguns dos mais poderosos meios de comunicação de massa em nosso país. É o momento da desforra de parte da classe média contra os que defendem os direitos humanos. Jornalistas e parlamentares recorrem aos adjetivos mais fortes, arregalam os olhos, gesticulam, pedindo que o Estado exerça vingança implacável contra os assassinos. Eles se esquecem de que todos nós, criminosos ou não, já estamos condenados à morte. E se esquecem também de que a execução de qualquer criminoso, seja jovem ou velho, não é exatamente um castigo. A agonia de um condenado dura, quando muito, alguns segundos. Depois disso, é o nada. A prisão por bom tempo, nas condições carcerárias do Brasil de hoje, talvez seja punição bem pior do que a morte.

A construção de um bandido
Como se faz um criminoso? Os criminosos, salvo os casos de psicopatia congênita, são construídos, não nascem feitos. A nova deputada federal Marina Magessi, veterana policial carioca, não pode ser apontada como esquerdista, fanática defensora dos “direitos dos bandidos”. Ao contrário: sempre foi vista como “durona” na ação policial. Em recente depoimento à TV Câmara, em companhia do rapper MV Bill, Marina Magessi lembrou que o dia mais difícil da sua vida foi o do assalto ao ônibus da linha 174, em 2000, no Rio, porque teve que prender uma menina de 12 anos, envolvida no incidente. Ela resume o problema, ao dizer que nesses episódios não há algozes: só há vítimas. A menina era tão vítima como Sandro do Nascimento o assaltante, um sobrevivente do massacre da Candelária, que seria assassinado logo em seguida pela polícia, e a jovem Geisa Gonçalves, morta durante a intervenção policial.

“Não é a pobreza que leva ao crime, mas, sim, a falta de inclusão” – disse a mesma senhora, em outra oportunidade. “No Rio, essas crianças não pertencem a nada. Não têm família, não têm igreja, não têm Estado”. Se quisermos ir mais fundo no problema, devemos deixar os limites das favelas, do Rio de Janeiro e do Brasil. Escolhemos nessa pobre cultura universal contemporânea, induzidos pelos meios de comunicação de massa, sobretudo do cinema e da televisão, modelo de vida que pode ser definido como o de pacto com a morte. Passamos parte de nossa vida vendo as balas penetrarem na testa de bandidos ou não, acostumamo-nos com o jorro de sangue e, em certos casos, experimentamos voluptuosa emoção diante dos corpos que tombam. Mesmo os homens mais velhos se recordam da influência do cinema nos jogos infantis - e a violência daquele tempo era quase inocente, diante da que nos chega, pela televisão, todos os dias. Brincava-se, então, de artista e bandido. Os heróis eram artistas, e os vilões, os bandidos. Era o mito da “violência positiva”, que os norte-americanos haviam criado, com suas “short-stories”, destinadas a distrair os trabalhadores imigrantes do início do século XX, que depois passaram a ser filmadas por judeus húngaros, em Hollywood. Ainda que houvesse, em contraponto, a arte de Chaplin e outros, o mito da violência acabou prevalecendo. Chaplin era um realizador para quem conseguia pensar.

Hoje, crianças de três, quatro anos, treinam para matar nos vídeo-games, em que, do sangue que espirra dos atingidos pelas balas virtuais, só falta o cheiro da morte. Os super-heróis ganharam a força dos elétrons.

O Brasil não é pior
Há quem debite a violência brasileira ao nosso caráter. É uma conclusão estúpida. O Brasil tem cerca de duzentos milhões de habitantes, e uma exígua parcela dessa população se envolve em episódios violentos, seja no campo ou nas cidades, maiores e menores. Os criminosos não chegam a meio por cento da população. Crimes horripilantes – como os de canibalismo - ocorrem no berço da civilização ocidental, que é a Europa, isso sem falar nos Estados Unidos, onde meninos de dez, onze anos, matam seus colegas de escola a tiro limpo. As penas são pesadíssimas e, em alguns Estados, como o Alabama, o Arizona, e Lousiana, crianças de qualquer idade poderiam ser condenadas à morte até 1º de março de 2005, quando a Suprema Corte proibiu a execução de menores de 18 anos, com base na oitava emenda da Constituição, que proíbe castigos cruéis. Nem por isso a criminalidade juvenil nos Estados Unidos se viu reduzida.

A juíza e a policial
A presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, fez a observação certa: os legisladores não podem agir sob a pressão das circunstâncias. É necessário ver todos os ângulos do problema. No caso, com toda a diferença biográfica entre a jurista e a inspetora de Polícia que se elegeu deputada, as duas se encontram do mesmo lado da razão. Para uma é preciso que a lei esteja dentro da lógica do direito; para a outra, que conhece a realidade de perto, é muito difícil distinguir entre algozes e vítimas. E, já que citamos o rapper MV Bill, não podemos desprezar o seu duro libelo, pelo menos no que toca ao tráfico de drogas. É o viciado da classe média (ele também uma vítima de um modo de vida opressivo) que faz o traficante. E podemos levar o tema mais longe: são os viciados norte-americanos e europeus – e os que “lavam” o dinheiro sujo do tráfico - que promovem o cultivo da coca na América do Sul e o da papoula no Afeganistão, crescente mesmo com a invasão militar estrangeira. É bom não esquecer que os ingleses moveram duas guerras contra a China (a segunda delas aliados aos franceses) porque o governo chinês proibira o uso do ópio, e a puritaníssima Inglaterra, da Era Vitoriana, era exportadora do narcótico, cultivado na Índia, para o grande mercado do Império do Meio. O mundo anglo-saxão tem todas as razões para temer uma revanche amarela.

Enfim, estas são algumas reflexões para os que não se divertem com o carnaval.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A segunda morte de João

Passei a semana passada muito incomodado pelo destaque exagerado, pela insistência da Rede Globo em explorar todos os mais sórdidos ângulos da tragédia acontecida com aquele pobre menino de 6 anos no Rio de Janeiro. Era evidente que o desejo da emissora - se ela pudesse - seria mostrar o que sobrou do corpo em frangalhos do garoto, tal foi o cuidado para recuperar em minúcias todo o incidente, e repetir a mesma informação trocentas vezes. Esse incômodo me remoeu o final de semana inteiro, e fez parte de um diálogo com minha esposa aqui em casa. Temos um filho de 11 anos, e nem se desligássemos a TV poderíamos poupá-lo dos "detalhes sórdidos". Fica a impressão de que o Rio piorou, fica a impressão que vivemos uma escalada de violência. Qual nada! Vivemos apenas a decadência do noticiário e a sanha absurda da mídia pra atrair a nossa atenção, a todo custo. Ainda bem que hoje amanhecemos com mais um texto iluminado do Luis Nassif. Ele, mais uma vez, fala o que eu queria ter dito, se eu fosse bom como ele.

Por Luis Nassif

O problema dos grandes crimes que chamam a atenção da opinião pública é a exploração rasteira que se sucede a eles. Cria-se um movimento catártico que vende jornal , mas não aponta saídas; expõe as vísceras, mas não as causas; mostra o problema e não discute a solução.

Nessa cegueira ampla que o show exige, acaba toda a catarse confluindo para soluções simplistas e/ou falsas, como a questão da maioridade penal, um pequeno detalhe dentro de uma engrenagem muito mais ampla e letal.

A família é envolvida por esse show indecente, na vã esperança de que o sacrifício do filho não será em vão. Será sim. O único resultado palpável será aumentar a venda de jornais e a audiência das televisões. E permitir ao veículo se aproximar, se mostrar solidário a todos os telespectadores e leitores, vítimas potenciais do crime, ajudando a estimular sentimentos baixos de vingança, não a reflexão.

Tem-se um quadro amplo de criminalidade, com várias etapas entre a iniciação e a profissionalização do criminoso. Começa pelo ambiente em que a pessoa vive e na falta de oportunidades de uma vida dentro da economia formal.

O ambiente é o entorno, com a facilidade com que crianças são abordadas por traficantes e criminosos em geral. Passa por esse blefe inventado por especialistas como André Urani de que houve melhora na renda familiar depois que as mães tiveram que sair de casa para complementar a renda insuficiente do pai, sem computar os efeitos dessa ausência sobre a estrutura familiar. Some-se a falta de valores, típico de uma sociedade fragmentada, sem projeto de nação, sem projeto de solidariedade, onde até spams abjetos – como o tal “Elite Privilegiada”, falsamente atribuída a mim – têm ampla aceitação junto a setores basbaques da opinião pública.

O entorno se completa com as condições das escolas. E aí é falta de gestão em todo seu espectro. É um quadro dantesco, mais ainda no Rio de Janeiro, nas favelas dominadas pelas milícias e pelo tráfico. Some-se a internacionalização do tráfico e do crime e se terá o mapa do inferno.

O entorno é isso. Já o futuro é cinza, e aí o motivo é falta de crescimento na veia.

Por outro lado, a falta de gestão e a politização da máquina pública levaram a uma corrupção desenfreada que pega parte das forças policiais em todo país. Pelas informações, de forma muito mais ampla no Rio de Janeiro. O crime se profissionaliza e tem um exército de mão de obra reserva quase infinito.

Aí essas campanhas abjetas simplificam tudo. O cidadão, encurralado por todo esse quadro complexo e, aparentemente, insolúvel, finalmente “identifica” o inimigo, aqueles ladrões de carro, que passam a ter cara, identidade e cor. Trocam toda a reflexão necessária sobre como enfrentar esse quadro dantesco, pelos sentimentos que vêm das partes baixas, das entranhas embrutecidas pelo show diário de violência que se vê nas ruas e nas TVs.

E, aí, é apenas aguardar a próxima tragédia para o menino João poder descansar em paz, enquanto o show continua.

No meio desse insensatez, a faixa solitária esticada no Maracanã é um respingo de bom senso: "De olho por olho, a cidade ficará cega".