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segunda-feira, abril 16, 2007

Tremenda cara-de-pau essa Míriam Leitão

Eu venho cantando a pedra aqui neste espaço já faz um tempo. Está em curso uma ofensiva da mídia tucanalha-demoníaca contra os evidentes progressos e as boas expectativas do segundo governo Lula.

A perspectiva da oposição "se arruinar", como se expressou o deputado Aleluia (PFL), já é admitida. Já admitem também, abertamente, que o PAC pode matar as chances de sobrevivência dos - por assim dizer - "Democratas".

Vez ou outra até escapa uma saudação aos novos tempos da economia brasileira pela boca de quem vive a exconjurar o governo. Matéria favorável ao governo na Veja aqui, elogio do Sardenberg na CBN ali, um reconhecimento pela redução da desigualdade, pela Míriam Leitão, acolá.

Nada muito desabrido - e qualquer elogio é sempre seguido de dez ressalvas. Como no caso do crescimento do PIB, sempre citado como "à frente apenas do Haiti" (e dá vontade de tomar o microfone da rádio e completar, provocando: e muito atrás da campeão de crescimento na América Latina, Cuba, com mais de 12% em 2006!).

Veja-se a Míriam Leitão, porta voz dos anos FHC. Parece ter sido fortemente admoestada pela companhia a que serve em razão da saudação que fez ao estudo do IPEA atestando a queda do referido índice de desigualdade. Saiu-se com esta correção tardia: "Penso que a notícia é boa para o país e, sinceramente, quem entende o processo econômico sabe que ninguém pode se atribuir o feito. É obra coletiva."

Ou seja, não tem nada de meritório para o governo Lula o fato de o processo político e social que coincide com a redução da desigualdade no país estar em perfeita sincronia com as ações e políticas da atual administração. Haja paciência para tamanho sofisma.

Outra pérola eu ouvi na CBN, dela mesmo. Injuriou-se a comentarista pelo fato de que Chávez tenta "pautar" o Brasil em relação à política energética do continente sul-americano. Pra quem adora falar de pragmatismo e outros quejandos, soa estranho a chorumela de que o Brasil se deixa enredar pelos esforços de propaganda do venezuelana e por isso corre o risco de abandonar os próprios interesses estratégicos. É fazer pouco da seriedade (e inteligência) de nossa política externa.

Tem mais bobagem no blog da moça. Mas não vou gastar meu neurônios, nem o do prezado leitor, com tanta baboseira. Apenas cito o esforço dela para agradar os patrões ao fazer coro com Veja e Estadão (logo quem!), assumindo como coisa séria a campanha contra a Infraero e o Banco do Sul.

Quer passar raiva, vai lá: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/

sexta-feira, março 30, 2007

Lula é destaque em jornais internacionais

Em artigo assinado nesta sexta-feira no diário Washington Post, o Presidente Lula defende a parceria Brasil-Estados Unidos para produção de etanol, e diz que o dilema entre biocombustíveis e preservação ambiental é um "mito"."É um primeiro passo importante no sentido de comprometer nossos países a desenvolver fontes de energia limpas e renováveis (garantindo) a proteção ambiental", afirma Lula.O artigo escrito pelo Presidente Lula é publicado um dia antes da visita que Lula fará ao seu colega americano, George W. Bush, em Camp David, e um dia depois de o líder cubano Fidel Castro ter criticado a iniciativa no jornal oficial do Partido Comunista cubano, Granma...Leia mais aqui no Washington Post, ou aqui no terra

Lula se encontra com Bush em busca de 'novo paradigma'


No encontro que o Presidente Lula terá com o presidente americano George W. Bush em Camp David, neste sábado, o Brasil vai se apresentar “com um novo paradigma de cooperação em terceiros países”, de acordo com o subsecretário de Assuntos Políticos do Itamaraty, Everton Vieira Vargas.o Brasil quer se colocar com um parceiro em pé de igualdade com os Estados Unidos, disposto a utilizar seu conhecimento tecnológico ou solidez institucional em países mais atrasados. Leia mais no BBC Brasil

Brasil virou país 'emergido' com novo PIB, diz 'Le Monde'

O Brasil passou de país "emergente" a "emergido", depois que o recálculo das riquezas nacionais levou o Produto Interno Bruto (PIB) a mais de US$ 1 trilhão, diz em sua edição desta sexta-feira o diário francês Le Monde...Continue lendo aqui no Le Monde ou aqui na BBC Brasil

Thanks to Amigos do Presidente Lula

segunda-feira, março 12, 2007

O que Míriam Leitão quer dizer quando faz pouco caso da visita de Bush

Altamente esclarecedor o exercício feito por Paulo Henrique Amorim para desnudar o que vai nas entrelinas do discurso dor-de-cotovelo de Míriam Leitão, fazendo pouquíssimo caso da visita que mobilizou a mídia, calou a oposição e fez evaporarem as críticas à política externa pretensamente "anti-americana" do governo Lula.

"Reproduzo abaixo o que disse Miriam Leitão no seu blog em O Globo:

Visita de Bush foi tardia e vazia

A visita do presidente George Bush tomou muitas páginas dos jornais neste sábado, provocou muita confusão no trânsito de São Paulo na sexta, mas produziu muito pouco efeito. Foi uma viagem tardia, um gesto de um presidente perdendo rapidamente seu poder. O debate da imprensa sobre a visita ficou contaminado demais pelos gestos inocuos de Hugo Chavez, levando a sério um suposto conflito Washington-Caracas.

Hugo Chavez é apenas patético com gestos como fazer manifestação de rua em vez de governar seu país que tem sérios problemas. Um deles: a taxa de homicídios em Caracas é quase três vezes maior do que a do Rio e mais de seis vezes maior do que a de Bogotá.

George Bush é apenas um presidente caminhando rapidamente para virar um lame duck, como resultado de ter perdido as eleições legislativas do ano passado e o país já estar pensando na eleição presidencial do ano que vem.

Bush ignorou a América do Sul na maior parte do seu governo. Ao tomar posse ficou mais de um ano sem sequer nomear o sub-secretário para Assuntos Latino-Americanos. Depois do 11 de setembro a política externa ficou definitivamente em torno da questão do terrorismo.

Hugo Chavez seu suposto inimigo na América do Sul faz ótimos negócios com os Estados Unidos. É o país que compra quase a metade de todo o petróleo que a Venezuela exporta, e esse petróleo representa 11% de tudo o que os Estados Unidos importam. Esse produto entra sem pagar imposto no mercado americano e é a garantia de receita da PDVSA. Dos cofres da empresa petrolífera saem os dólares para financiar tudo: a política populista interna e a ajuda a países como Bolivia, Equador e Cuba. O suposto amigo Brasil tem que pagar 48% de tarifa para entrar com seu etanol no mercado americano e este ano, como tem etanol sobrando lá, não deve vender nada. E que não se espere coisa diferente dos democratas. O senador Barack Obama já está hoje nos jornais defendendo o produtor americano, para provar a fama de protecionista dos democratas.

Enfim, uma visita tardia e vazia, que não representa nada mais que isso.

______________

Vamos fazer um exercício de “metalinguagem” e reescrever a coluna de Miriam com O QUE ELA DE FATO QUIS DIZER:

Lula não pode faturar essa visita

A vista do presidente da nação mais poderosa do mundo ao Brasil não deve ser interpretada como uma vitória política do Brasil nem da diplomacia brasileira.

Isso seria péssimo para os conservadores brasileiros como eu e as Organizações Globo para que trabalho.

É importante evitar que se solidifique a impressão de que uma política externa diferente da política pró-americana de FHC possa dar certo.

É importante impedir que um presidente trabalhista como Lula seja capaz de se impor ao presidente da nação mais poderosa do mundo como um político maduro, bem preparado, que sabe o que diz.

A política do Itamaraty é um fracasso.

E Lula é um despreparado.

É preciso fixar a idéia de que um presidente americano com APENAS dois anos de mandato tem tanto poder quanto o presidente da Ilha de Malta.

Que veio ao Brasil com medo do Chávez.

Que só parou no Brasil porque é a melhor escala antes de Montevidéu.

Outra coisa: esse acordo do etanol é irrelevante. Como diz a Folha de São Paulo de hoje, brevemente o Brasil perderá essa efêmera liderança.

O Brasil pode querer ser o maior produtor de cana do mundo, mas, no Governo Lula, NADA será feito para manter e ampliar essa liderança.

Todos os esforços positivos - se houver - se deverão à iluminada liderança do Governador de São Paulo, o homem mais preparado para governar o Brasil, e que saberá dinamizar as pesquisas e manter o que Lula vai perder.

Bush é um pobre coitado. Não manda nada. Hoje, quem manda é o Barack Obama que já disse que não vai ter redução dos subsídios agrícolas.

Aliás, Lula, se fosse minimamente preparado, nessa próxima viagem aos Estados Unidos, não deveria ficar em Camp David, mas visitar Barack Obama, porque é ele quem dá as cartas, nos próximos dois anos.

Bush é tão irrelevante que Fernando Henrique Cardoso sempre debochou dele, nunca o levou a sério. Para que? De que adiantaria ficar amigo de um pobre coitado, como Bush. FHC é que estava certo!

(Ainda bem que as gestões de Mario Garnero e Nelson Jobim para aproximar FHC de Bush não deram certo...)

Quem está certo é o Kirchner, que, sequer, recebeu esse presidente irrelevante, esse tal de Bush.

domingo, março 11, 2007

Se ficar, o bicho pega...

Depois de dois anos criticando o anti-americanismo da política externa brasileira, agora o jogo virou: serão mais dois anos criticando o americanismo da política externa do Lula. E ele que não ouse a neutralidade, senão serão dois anos criticando a indefinição da política externa do Lula.

Por Luis Nassif

sexta-feira, março 09, 2007

Notas esparsas sobre uma visita polêmica

1. São Paulo - ou o amálgama entre os entes estadual e municipal - bem que tentou sair bonito na foto, fazendo, no hotel onde Bush se hospedou, uma decoração de fundo de palco muito bacana. Mas a tentativa de agradar esteve em evidente divórcio com o ânimo do paulistano, que ficou furibundo com o enorme transtorno urbano causado pelo pesado esquema de segurança.

2. Os grandes veículos abriram largo espaço para os protestos. Afinal, com uma pauta pró-governo que se auto-impôs de modo tão forte, era preciso buscar alguma coisa pra contrabalançar e desgastar a imagem do governo. Nem que pra isso fosse preciso mostrar as mais batidas cenas de anti-americanismo. Coisa que, em geral, merece indiferença e pouco caso da mídia.

3. O avião do Bush Jr. é pelo menos 10 vezes maior do que o nosso bem conhecido Aerolula. As TVs, para mostrar o casal presidencial embarcando e desembarcando, focalizaram de longe a aeronave; mesmo assim, foi possível ter dimensão exata do exagero. Por certo, não deve haver um Arthur Virgílio no Congresso norte-americano para dizer que aquilo é fruto da vaidade ou deslumbramento do presidente.

4. Ironicamente, apenas a Globo foi enfática ao informar que Bush não tem poderes para derrubar as barreiras protecionistas contra o álcool do Brasil. As demais se esforçaram para colocar a manutenção do mecanismo na conta de um "fracasso" da visita. Fracasso que mais parece dor-de-cotovelo mesmo.

5. A gravata de Lula, na entrevista coletiva, tinha o mesmo vermelho das bandeiras que protestaram na avenida Paulista e picharam consulados e lanchonetes aqui e ali. Que o presidente opera com maestria os elementos simbólicos, disso já sabíamos. Mas daí ele dizer que o acordo para destravar a Rodada de Doha "depende apenas de se encontrar o ponto G", aí já é arrasar, é quebrar paradigmas!

6. Será que depois de encontrar o "ponto G" das negociações bilateriais, EUA e Brasil voltarão a ter as relações carnais que mantiveram durante anos, em passado não muito longínquo?

7. Quer saber da honestidade de propósitos do governo americano em relação à América Latina? Ou o quanto os EUA se sente à vontade falando de ajuda, de solidariedade, de combate à pobreza e cuidado com o meio ambiente? É fácil. Basta ver a desenvoltura e a naturalidade com que Bush tocou o chucalhinho lá na ONG do Morumbi. "Integração total" é aquilo.

8. E o anti-americanismo da política externa brasileira? Com a palavra, a revista Veja.

terça-feira, março 06, 2007

Se o presidente fosse FHC, tudo seria diferente - II

A manchete da edição impressa do jornal O Globo de hoje é: "Divergências já ameaçam sucesso da visita de Bush".

O subtítulo é: “Lula insiste em redução da taxa de importação do álcool, descartada pelos Estados Unidos”.

Ah, se o presidente fosse FHC...

A manchete seria: “FHC defende o interesse brasileiro na questão do etanol”.

Subtítulo: “Mesmo com a resistência de Bush, FHC está do lado do Brasil!”.

E a Miriam Leitão, a Controladora Geral da República, começa a coluna dela de hoje assim: “A briga com o Paraguai em torno das receitas de Itaipu promete ser um grande imbróglio, se ocorrer”.

O que equivale a dizer que “a compra da Rede Globo pela Record promete ser um grande imbróglio, se ocorrer”.

Se ocorrer, tudo será possível.

E se o presidente fosse FHC, a coluna da Miriam de hoje seria: “Só FHC tem condições políticas, morais e intelectuais para defender com coragem o acesso do etanol brasileiro ao mercado americano”.

Enquete:

Bush ainda não chegou e o jornal O Globo já decretou na manchete o fracasso retumbante da viagem: "Divergências já ameaçam sucesso da visita de Bush". Qual a intensidade dessa manchete no Índice 'Vamos Derrubar o Lula'?

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Grande mídia muda de argumento para requentar denúncias de ex-embaixador

A resistência da grande mídia em aceitar diferenças retorna aos jornais, mais uma vez com as declarações do ex-embaixador do Brasil nos EUA, Roberto Abdenur, que ontem compareceu no Senado, a convite do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) - aquele que introduziu Marcos Valério no financiamento de campanhas políticas - para explicar suas denúncias veiculadas na revista Veja. A Folha de S.Paulo confunde-se de Eduardo: disse que o ex-embaixador foi convidado por Eduardo Suplicy (PT-SP). Grave? Sim, mas acontece com freqüência quando a cobertura é feita de orelha.

Nos demais jornais - alguns poucos, outros mais - a ida de Abdenur ao Senado ressuscita a estratégia de supervalorizar as denúncias vazias do ex-embaixador. Na primeira onda denuncista, ganhou peso a entrevista à Veja. Nela, entre outras denúncias (vide posts anteriores, por favor), ele acusou a política externa brasileira de ser anti-americana.

A campanha noticiosa que a revista abriu foi prontamente abraçada pelos jornais nas “repercussões”, e com igual barulho. A aposta era firme para a criação de nova crise no governo, desta vez desqualificando a política externa dos últimos anos. Mas, para azar deles, o noticiário emulado foi surpreendido com o desembarque, em Brasília, da missão norte-americana de primeiro nível, portadora do convite dos EUA para o Brasil ser sócio no megaprojeto de expansão da produção de biocombustível.

Os jornais contorceram-se em editoriais e novas reportagens para manter a verdade noticiada, muito diferente da verdade dos fatos.

Sintomaticamente, no noticiário sobre a ida do ex-embaixador ao Senado, os jornais de hoje não martelam mais na denúncia de anti-americanismo do governo Lula. Convenientemente, deixaram de lado essa argumentação, que não se sustenta mais. Afinal, há quase duas semanas, quase que diariamente, o noticiário continua explorando detalhes do que pode sair da parceria oferecida pelos EUA - a “Opep do etanol”. Mais: como segurar a denúncia de anti-americanismo ao lado das notícias sobre os preparativos da visita de Bush ao Brasil, no final semana que vem?

Restou-lhes carregar as tintas nas denúncias de ideologização do Itamaraty.

A denúncia mais grave de Abdenur nesse quesito – de que as promoções no Itamaraty vêm sendo mais influenciadas pela preferência partidária do que pela competência – foi desmentida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em mais de uma entrevista, ele pediu a Abdenur para apontar um único caso onde a grande inversão de valores teria ocorrido. Abdenur calou.

Ontem, esperava-se que ele desse nomes aos bois no Senado, mas nada. Os senadores aventaram até mesmo a possibilidade de promover uma reunião secreta para que Abdenur pudesse listasse os diplomatas que foram beneficiados ou prejudicados por essa prática. Mas desistiram. Por que? Os jornais não informam o porquê. Preferem reafirmar que Abdenur “reforça” (Folha e Estado) ou que “ratifica” (Globo) as críticas contra “a cúpula do Itamaraty de contaminar a carreira diplomática com questões ideológicas”, como publica o mesmo Globo hoje.

A dificuldade da grande mídia em aceitar pensamentos diferentes dos seus foi, mais uma vez, exposta na entrevista com o economista Tom Trebat, publicada no Estado do último domingo. Apresentado pelo jornal como “brasilianista da Universidade de Columbia”, Trebat, na verdade, é diretor-executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia, e ex-diretor da divisão de América Latina do Citigroup - em resumo, alguém que não pode ser taxado de esquerdista ou petista-lulista.

O jornalista Pedro Dória perguntou-lhe:

Apesar do bom relacionamento entre Bush e Lula, discute-se nas últimas semanas se a diplomacia brasileira tem hoje um certo acento anti-americano.

Trebat respondeu:

Ninguém aqui (nos EUA) teme que o Brasil seja anti-americano. O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA. E agora isto está mudando. Cada vez mais, as relações entre os dois países se dará no setor privado, com pouca participação governamental.

Sublinho: O que há é que o Brasil está muito acostumado a ver o mundo pelo viés dos governos dos EUA.

A boa entrevista colhida por Pedro Dória insistiu em outra fixação da grande mídia: Hugo Chávez. De novo, o brasilianista confirmou que o presidente venezuelano incomoda muito mais as famílias que controlam a mídia na América Latina do que o governo de Bush:

Ele faz barulho, mas não é uma ameaça para os EUA. Só cria instabilidade política. Pode ser que eu esteja enganado, mas acho que o auge de Chávez já passou. Quando Felipe Calderón ganhou no México, em parte pelo medo de “chavização” do país, Rafael Corrêa teve de mudar de linha, no Equador. Eu não exageraria a importância prática de Chávez. Mas também não existem vozes para contradizê-lo na América Latina. Ele fala as coisas mais absurdas, numa base diária, e não há ninguém, não há uma voz erguida para dizer que os gastos fiscais de seu governo são um desastre, que suas políticas são paternalistas, que suas cooperativas não funcionam. Ninguém está a fim de seguir a linha de Chávez, sobretudo no Brasil.

Dória retrucou:

Mas o presidente argentino Néstor Kirchner sugeriu esta semana que Washington quer o Brasil assumindo uma liderança anti-chavista na América Latina.

Trebat respondeu:

Os EUA nunca pediriam ao presidente Lula que tomasse uma posição agressiva contra Chávez. Alguém tem que enfrentá-lo, mas não precisa ser Lula. O Brasil é percebido aqui como um aliado discreto. A visita de Bush não terá por objetivo dividir a América Latina em dois blocos. Para os EUA isso não é necessário e, para o Brasil, não é desejável. O que há é um interesse em construir melhores laços de comércio. Do ponto de vista americano, se você olhar a região, há um problemão na Venezuela, um problema menor na Bolívia, talvez um terceiro no Equador. .. Mas, no resto do continente, o que houve foi um tipo de contra-revolução a favor de líderes moderados, como Lula.

28 de Fevereiro de 2007 @ 06:21 por Alceu Nader - www.blog.contrapauta.com.br

Governo comemora resultado das negociações com Uruguai

Depois do entendimento com a Bolívia, o relançamento das relações com o Uruguai. O Itamaraty está comemorando discretamente os resultados das conversações entre os presidentes Lula e Tabaré Vasquez, ontem, em Colônia de Sacramento. Ao fim da reunião, o Uruguai desistiu da idéia de negociar um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, o que na pratica acarretaria sua saída do Mercosul. Bush estará em Montevidéu no início de março, depois de uma visita a São Paulo.

No encontro, foram assinados vários acordos e impulsionadas algumas iniciativas que, de um modo geral, beneficiaram fortemente o Uruguai. Nosso vizinho ressente-se do fato de, nos últimos anos, estar perdendo espaço nas trocas comerciais com os demais países do Mercosul. Suas exportações para o Brasil, no ano passado, por exemplo, foram da ordem de US$ 600 milhões, contra importações no valor de US$ 1 bilhão.

Os uruguaios queixavam-se com razão de uma série de obstáculos burocráticos, fiscais e alfandegários que impediam o crescimento de suas vendas para nosso país. E pediam também um esforço do Brasil para gerar projetos comuns capazes de emprestar dinamismo à economia uruguaia.

De um modo geral, esses pleitos foram atendidos. A Petrobras deve partir para a instalação de uma fábrica de etanol no Uruguai e injetará também recursos na construção de uma linha de transmissão, de gasodutos e de uma planta de gaseificação, contribuindo para minorar o problema energético de nossos vizinhos. Além disso, o BNDES financiará a construção de uma grande fábrica de cimento, bem como as obras do anel rodoviário de Montevidéu e da segunda ponte sobre o rio Jaguarão, a serem tocadas por empreiteiras brasileiras.

Lula comprometeu-se ainda a trabalhar para que a indústria automotiva brasileira formate um programa especial voltado para a renovação de toda a frota de ônibus de Montevidéu e das principais cidades uruguaias, do qual participem empresas locais de autopeças. No médio prazo, há possibilidades de que estaleiros sediados na margem oriental do Rio da Prata participem de trabalhos de reforma de navios brasileiros.

No Itamaraty, a avaliação é de que o saldo da rodada de conversações de ontem foi extremamente positivo. Praticamente fechou a porta a saída do Uruguai do Mercosul, produziu um novo clima nas relações entre Brasília e Montevidéu e abriu uma nova etapa de cooperação entre os dois países. À primeira vista, o Brasil foi generoso, ao atender a pleitos que gerarão atividade econômica, emprego e renda no Uruguai. Mas, ao se olhar mais para frente, se verá que o Brasil também sairá ganhando com o estreitamento dos laços econômicos com nosso vizinho. Afinal, a tecnologia, as empresas e os capitais envolvidos nas várias frentes de cooperação serão, em quase todos os casos, brasileiras.

No próximo dia 8 de março, Bush chega ao Brasil para uma rápida visita; O Itamaraty quer uma agenda enxuta de discussões, centrada basicamente em três pontos: Organização Mundial do Comércio, etanol e Conselho de Segurança da ONU. O Departamento de Estado, provavelmente, tentará incluir nas discussões um quarto tema: a situação geral da América do Sul – leia-se Hugo Chavez. O Brasil não se furtará a conversar sobre o assunto, dentro da linha de sempre de respeito à autodeterminação dos povos e aos processos internos de cada país. Mas tudo indica que o grande tema do encontro será mesmo o etanol. No encontro, devem ser amarradas as linhas mestras para o lançamento, no final de março, durante a visita de Lula a Washington, de um mega-programa de produção de biocombustíveis, com capitais americanos e tecnologia brasileira, na América do Sul, na América Central e na África.

A expectativa no Palácio do Planalto é grande. As preocupações, também.

Por Franklin Martins

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Política externa brasileira é "a favor do Brasil e não contra qualquer país"

A Folha nessa ficou falando sozinha, e a entrevistadora deu com os burros n'água, ao insistir na tese, evidentemente falsa, de anti-americanismo por parte da política externa brasileira. O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães foi fino ao expor o preconceito da colunista da Folha. Vamos agora ver se esse papo furado cessa.


Entrevista com Samuel Pinheiro Guimarães

Secretário-geral do Itamaraty diz não haver ideologia no trabalho do ministério e nega antiamericanismo no governo Lula, mas manda recados sutis aos EUA

DEPOIS DE atravessar os quatro anos do primeiro governo Lula falando muito para dentro do Itamaraty e pouco para fora, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães deu uma rara entrevista em que nega antiamericanismo no governo e classifica a política externa de "pragmática e não ideológica". Não deixou, porém, de mandar recados sutis aos EUA. "Um mundo melhor", segundo ele, "será aquele em que as promessas de desarmamento se realizem, os preceitos do Direito Internacional sejam obedecidos pelas grandes potências, as diferenças econômicas entre os Estados se reduzam e o meio ambiente seja preservado". Por exigência dele, as perguntas foram feitas por escrito e respondidas por e-mail. Segue a íntegra da entrevista.

FOLHA - O ex-embaixador em Washington Roberto Abdenur declarou que há "um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado" na política externa brasileira. O sr. concorda?
SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES - A política externa do presidente Lula, conduzida pelo ministro Celso Amorim, é pragmática e não ideológica; é a favor do trabalho sem ser contra o capital; compreende que a globalização apresenta oportunidades mas também riscos para os países subdesenvolvidos; é a favor do Brasil e não contra qualquer país. Como o próprio presidente e o ministro não se cansam de repetir, a política externa desperta o interesse e desfruta do respeito de todos os países, ricos e pobres; do Ocidente e do Oriente; da América do Sul e do Norte, o que se reflete no grande número de presidentes, primeiros-ministros, chanceleres, autoridades e empresários que vêm ao Brasil e desejam nossa cooperação política, econômica e social.

FOLHA - Os críticos da política externa afirmam que o Brasil tem uma participação há anos estacionada em 1,4% da economia norte-americana, perdendo milhões de dólares em negócios por conta de um suposto antiamericanismo. Como é possível menosprezar o principal mercado do mundo?
PINHEIRO GUIMARÃES - O aumento da presença da China no mercado americano fez com que, no período de 1999 a 2006, nas importações americanas, a participação do Canadá caísse de 19% para 16,9%; a do Japão, de 12,8% para 7,9%; a da Alemanha, de 5,3% para 4,9%; a da França, de 2,5% para 2,0%. Ao contrário, a participação do Brasil cresceu de 1,1% para 1,4%, refletindo o aumento de nossas exportações de US$ 10 bilhões para US$ 24 bilhões. São as empresas brasileiras que exportam: elas não menosprezaram o mercado americano, nosso principal comprador, e tiveram todo o apoio do governo brasileiro em seu esforço.

FOLHA - O sr. é uma espécie de símbolo do suposto antiamericanismo, inclusive por ser ferrenho adversário da Alca. Convém ao governo brasileiro mantê-lo no segundo cargo na hierarquia do Itamaraty? O objetivo é justamente marcar posição?
PINHEIRO GUIMARÃES - O cargo de secretário-geral das Relações Exteriores é de livre nomeação do presidente Lula, por indicação do ministro Celso Amorim. Cabe ao presidente e ao ministro, naturalmente, decidir sobre o que convém.

FOLHA - A Alca acabou, e o chanceler Amorim dizia que o importante era a OMC. Mas as negociações na OMC também empacaram. Onde o Brasil está errando?
PINHEIRO GUIMARÃES - As negociações na OMC estão em pleno andamento e há grandes expectativas. O Brasil tem tido papel central nessas negociações na liderança do G20 [grupo de 20 países em desenvolvimento liderado por Brasil e Índia] e em entendimentos com os interlocutores dos Estados Unidos e da União Européia. As perspectivas de uma conclusão positiva para o Brasil são maiores do que em qualquer outro momento.

FOLHA - A adesão da Venezuela ao Mercosul tem sido duramente criticada, pois seria uma forma de transformar o bloco em uma ponta-de-lança contra Washington, ou pelo menos num palanque para o presidente Hugo Chávez atacar Bush. O bônus da adesão compensa o ônus?
PINHEIRO GUIMARÃES - O comércio entre o Brasil e a Venezuela passou de US$ 880 milhões em 2003 para US$ 4,1 bilhões em 2006. Empresas brasileiras fazem grandes investimentos e constroem hidrelétricas, linhas de metrô, pontes, represas e sistemas de irrigação na Venezuela. Todos os membros do Mercosul estão de acordo quanto à adesão da Venezuela. O Mercosul é uma união aduaneira e não um bloco político de oposição a qualquer outro país e muito menos aos EUA, que, aliás, percebem isto perfeitamente.

FOLHA - Pelo menos na retórica, Chávez está ganhando aliados na região, como os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Corrêa, do Equador. É um novo pólo de poder?
PINHEIRO GUIMARÃES - Cada país da América do Sul tem o direito de cooperar com os demais países sem que isto signifique a formação de pólos de poder. Qualquer pretensão hegemônica de qualquer país encontra grande resistência dos demais, e a forma natural de influência é o exemplo, o que supõe relações de parceria, como as que o Brasil tem desenvolvido com cada país da América do Sul, com excelentes resultados.

FOLHA - De outro lado, o governo Bush praticamente escolheu o Irã como novo alvo, digamos, das preocupações norte-americanas. Esse será um tema do encontro Lula-Bush em 9 de março? O que o Brasil tem a ver com isso?
PINHEIRO GUIMARÃES - A agenda do encontro dos presidentes ainda não está definida. O Brasil, que tem a sexta maior reserva de urânio do mundo, domina a tecnologia de enriquecimento de urânio e tem uma demanda interna importante por energia, defende o direito de todos os países de desenvolver a tecnologia nuclear para fins pacíficos, desde que respeitados fielmente os compromissos internacionais. Nossa posição na AIEA se pauta por este princípio e pela preferência pelo diálogo como forma de solucionar impasses.

FOLHA - Há duas versões no governo e no Itamaraty: uma de que o sr. é decisivo para a formulação da política externa; outra de que, na verdade, é o grande executivo que está "botando a casa em ordem". Qual a verdadeira?
PINHEIRO GUIMARÃES - O presidente formula e dirige a política externa com o auxílio do ministro. Ao secretário-geral cabem as tarefas definidas pelo decreto 5979/2006, que são assessorar o ministro na execução da política e na orientação da secretaria de Estado e das missões no exterior.

FOLHA - Por que o sr. participou dos primeiros palanques do presidente Lula na campanha do segundo mandato, mas de repente sumiu?
PINHEIRO GUIMARÃES - Todo cidadão brasileiro tem o direito, e até o dever, de participar da vida política de seu país.

FOLHA - E por que o sr. decidiu impor livros de sua própria preferência para os diplomatas que estejam sendo promovidos ou assumindo missões no exterior? Qual o viés desses livros? E porque o ministro determinou o fim da prática?
PINHEIRO GUIMARÃES - Gilberto Freire disse: "O livro do sr. Álvaro Lins sobre o Barão do Rio Branco é um destes livros que desde as primeiras páginas nos dão o gosto raro de contato com uma obra monumental". Celso Furtado, sobre Bielschowsky, disse: "Considero "Pensamento Econômico Brasileiro" o mais importante trabalho já realizado para caracterizar e apreciar o considerável esforço produzido entre nós a fim de resgatar o Brasil das armadilhas do pensamento ortodoxo". Roberto Campos, ex-embaixador em Washington, sobre Bielschowsky, disse: "Erudito, objetivo e correto. "Pensamento Econômico Brasileiro" é referência indispensável, por sua análise balanceada e percuciente das controvérsias ideológicas da época". Rubens Ricupero, ex-embaixador em Washington, sobre o livro de Moniz Bandeira disse: "É uma obra original, uma autêntica história conjunta das relações diplomáticas do Brasil e da Argentina durante 133 anos. Tem razão, assim, o historiador americano Frank Mc Cann, ao apresentá-la como "leitura indispensável". Não conheço, nem creio que exista, outro trabalho desse fôlego, cerca de 680 páginas, que cubra de modo tão completo e analítico o período contemporâneo". Sobre "Chutando a Escada", de Ha-Joon Chang, professor de Cambridge, na Inglaterra, Charles Kindleberger, um dos maiores economistas americanos, disse: "uma crítica estimulante dos sermões dos economistas da corrente dominante dirigidos aos países em desenvolvimento." O aperfeiçoamento dos diplomatas é uma necessidade constante. A leitura de três ou quatro livros não poderia jamais modificar o modo de pensar de qualquer diplomata, mas pode trazer informações importantes. O ministro Celso Amorim considerou que a celeuma provocada não justificava a energia despendida.

FOLHA - O que se deve esperar de um bom diplomata? E de um diplomata brasileiro no mundo atual?
PINHEIRO GUIMARÃES - De um bom diplomata se espera que defenda e promova os interesses de seu país. De um diplomata brasileiro se espera que defenda e promova os interesses do Brasil, de acordo com os objetivos da política externa definidos no Art. 4º da Constituição Federal, em especial a independência nacional, a não-intervenção e a autodeterminação, e com a orientação do Presidente da República.

FOLHA - Como o Brasil pode interferir para que o mundo seja melhor? Aliás, o que seria, a seu ver, um "mundo melhor"?
PINHEIRO GUIMARÃES
- O Brasil pode contribuir para a preservação da paz, para o desenvolvimento econômico e social, para a construção da democracia na esfera internacional, de tal forma que cada sociedade, observados os preceitos fundamentais de autodeterminação e não-intervenção inscritos na Carta da ONU, possa prosseguir em sua evolução histórica.
Um mundo melhor será aquele em que as promessas de desarmamento se realizem; em que os preceitos do Direito Internacional sejam obedecidos pelas grandes potências; em que as diferenças econômicas entre os Estados se reduzam; em que o meio ambiente seja preservado; em que os direitos humanos, políticos, econômicos e sociais sejam respeitados; em que a pobreza e a miséria sejam abolidas; em que cada indivíduo possa desenvolver todo o seu potencial. Com esses objetivos, o presidente Lula e o ministro Celso Amorim têm defendido a democratização das instâncias internacionais de decisão, como o Conselho de Segurança da ONU e o G-8.

Por Eliane Catanhêde, Folha de S.Paulo, em 26/02/2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Acordo com a Bolívia deixa governo muito satisfeito

Como registrou Paulo Henrique Amorim, até a Míriam Leitão elogiou. Está cada vez mais difícil para a oposição, como já deixamos registrado aqui. O texto que se segue é do sempre lúcido Franklin Martins.

A avaliação do governo brasileiro é de que o resultado das negociações com o presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciado ontem, é extremamente positivo para o desenvolvimento e a consolidação das relações entre os dois países. Não só a questão do preço do gás foi resolvida de forma satisfatória para ambos os lados, como se abriu caminho para a realização de projetos importantíssimos que, em dez ou quinze anos, colocarão a integração entre Brasil e Bolívia num novo patamar.

A fórmula encontrada na questão do gás foi engenhosa. Politicamente permitiu aos dois países salvar a face. A Bolívia conseguiu o que queria: aumentou os preços. Atualmente, ela recebe US$ 4,20 por milhão de BTU (British Termal Unity). Pretendia elevar o preço para US$ 5, o mesmo pago pela Argentina. Na prática, o entendimento de ontem ficou a meio caminho entre as pretensões dos dois países: algo entre US$ 4,50 e US$ 4,60 . .

O Brasil também tem o que comemorar. Saiu da mesa de negociações com a garantia de fornecimento e a manutenção dos contratos anteriormente firmados. Tecnicamente, a Petrobras e a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos assinarão um aditivo aos antigos contratos, dando forma jurídica ao “pulo do gato” que permitiu o entendimento.

Pelo acordo, a Petrobrás passará a pagar um adicional sobre os gases mais nobres, como o etano e o GLP, que vêm junto com o metano usado nas usinas termoelétricas e nas fábricas de São Paulo. Na maioria dos países, os gases mais nobres, de alto valor, usados na indústria química ou nas cozinhas, são separados na origem. Na Bolívia, isso não era feito até agora. Por outro lado, tampouco a Petrobras fazia a segregação da matéria prima no Brasil. Certamente passará a fazê-lo agora que terá de pagar pelo que antes recebia de graça.

Para muitos especialistas, a fórmula deixa claro que está para sair do papel o projeto de montagem de um pólo gasoquímico perto na fronteira do Brasil e da Bolívia, que aproveitaria o etano como matéria prima para a produção de plásticos. O assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, um dos principais negociadores pelo lado brasileiro, confirmou, em conversas reservadas, que essa é a idéia-mãe que permitiu o entendimento na questão dos preços.

O projeto terá três grandes acionistas: a Petrobras, a YPFB e a Braskem, empresa química do grupo Odebrecht. A avaliação é que o pólo, depois de consolidado, poderia gerar de 30 a 40 mil empregos diretos e indiretos na região, com enorme impacto na economia da Bolívia e de Mato Grosso do Sul.

Outros projetos também foram postos na mesa de negociações. Dois deles são especialmente importantes em termos da cooperação econômica. O primeiro, em fase de estudos bastante adiantada, prevê a construção de uma rodovia entre La Paz e o Norte do Brasil. A estrada não só permitiria um salto na integração física e econômica entre os dois países, como aproximaria os produtos brasileiros dos portos do Oceano Pacífico. O segundo projeto, ainda em fase embrionária, é o da construção de uma grande usina hidrelétrica no Rio Madeira, na fronteira entre os dois países. A empresa teria caráter binacional, nos moldes de Itaipu, onde Brasil e Paraguai são sócios.

Já do ponto de vista político, a avaliação do governo brasileiro é de que os entendimentos dos últimos dias foram importantíssimos, porque assentaram as bases para uma cooperação de longo prazo. Para o Brasil, isso é duplamente importante. Primeiro, porque o estreitamento das relações com a Bolívia gera inúmeras possibilidades econômicas e comerciais para o nosso país. Segundo, porque favorece o crescimento econômico e a estabilidade política da Bolívia, país com quem compartilhamos nossa fronteira mais extensa. São 3.500 quilômetros que tanto podem nos unir como nos separar, tanto podem trazer progresso como imensas dores de cabeça. Ter um sócio, um parceiro e um amigo ao longo de uma fronteira tão extensa é muito melhor do que ter de conviver com um vizinho problemático, ressentido e instável na casa ao lado.

domingo, fevereiro 11, 2007

Estadão se corrige sobre ‘antiamericanismo’; Veja omite.

O Estado de S.Paulo de hoje cai fora do barco furado que embarcou ao dar como verdadeiros os erros a que fora induzido pela entrevista editorializada do ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Roberto Abdenur à revista Veja. O jornal comprara gato por lebre, e investiu pesado na denúncia de antiamericanismo e promoções por afinidade ideológica que a revista magnificou. Até editorial rendeu criticando a “agenda embolorada” da política externa.

Mas aconteceu que as denúncias do encerramento melancólico da carreira diplomática de Abdenur seriam desmentidas dias depois com a visita do subsecretário de Estados dos EUA, Nicola Burns. Ele trouxe o assentimento dos EUA à proposta brasileira para que ambos os países investiam juntos, no Brasil e em países pobres da América Latina e da África, num projeto global de produção de etanol que, agora, com a luz de emergência acesa pelo aquecimento global, ganha proporções globais. Brasil e EUA respondem, hoje, por 70% do etanol vendido em todo o mundo.

Ocorre que a tecnologia utilizada pelos EUA é de etanol extraído de grãos, particularmente milho, cuja prioridade é alimentar seres humanos e rebanhos para abate. A demanda por milho combustível poderia estourar as economias de países onde o milho é ingrediente básico da alimentação da população, como é o caso do México, ou de países que dependem da importação de grãos para a segurança alimentar, como é o caso da Argélia e outros países africanos.

O início das negociações para a criação do projeto Brasil-EUA transformam em pó-de-traque as denúncias do triste ex-embaixador.

Em sua edição de hoje, o jornal repara o equívoco ouvindo os dois principais atores desse início de entendimentos – Burns e Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Várias perguntas do jornal a Burns enfocam as “denúncias” de Abdenur. Por assunto, ele disse o seguinte:

DIÁLOGO SUL-SUL

Disse o ex-embaixador à revista:


“Existe um elemento ideológico muito forte presente na política externa brasileira. A idéia do Sul–Sul como eixo preponderante revela um antiamericanismo atrasado.”
(…)
“A esta altura da vida, com o mundo em transformação vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado.”

Diz o subsecretário na entrevista ao Estado:

“Achamos que o Brasil está seguindo uma agenda muito responsável, muito cooperativa, muito positiva na América do Sul e na relação Sul-Sul”.
(…)
“Parece que o Brasil está certo em ter uma orientação Sul-Sul porque é hoje um dos grandes líderes do mundo. O Brasil tem apelo para alguns países pobres porque eles vêem que o Brasil teve sucesso. O Brasil tem laços étnicos e de língua com países africanos, além de com países europeus. Então, se o Brasil pode ter uma boa relação Sul-Sul com países da América Latina e da África, é positivo”.

Na entrevista do ministro brasileiro Estado, várias denúncias são desmentidas:

Afinidade ideológica e promoções no Itamaraty

“É leviano afirmar que as promoções no Itamaraty obedeçam a critérios ideológicos. Isso é uma ofensa”.

Antiamericanismo na diplomacia brasileira

“Não há antiamericanismo. Muito pelo contrário. A busca de parceria não é só a discussão em torno de acordos bilaterais como o do etanol, mas a busca de um diálogo sobre o mundo. Se os EUA percebessem uma atitude antiamericana, você acha que isso ocorreria? A melhor resposta está nos fatos.”
(…)
“Os contatos intensos do presidente Lula com o presidente George W. Bush, muitas vezes por nossa iniciativa e muitas vezes por iniciativa deles. Sempre de maneira produtiva e amistosa. Por exemplo, na discussão em torno do biocombustível, temos o interesse comum em criar o mercado global do etanol. Isso foi uma iniciativa brasileira. Temos também trabalhado juntos no Haiti, sobre o qual eles nos ouvem muito. Há uma relação madura e positiva em relação aos temas do continente.”

Já a revista Veja desta semana omite completamente a vinda da missão dos EUA ao Brasil, bem como o projeto comum entre os dois países para a produção de etanol em escala global. Seus leitores são brindados com a reportagem que remete para a suspensão da bibliografia recomendada pelo secretário-geral do Itamaraty na reportagem

“Sururu no Itamaraty
Está suspensa a leitura engajada. Já a política externa…”


Nela, sobre a “doutrinação”, que

“Até a leitura obrigatória, que Amorim mandou suspender diante da entrevista de Abdenur, foi minimizada pelo chanceler. Ele disse que, de três obras obrigatórias (Chutando a Escada, do chinês Ha-Joon Chang, Rio Branco, de Álvaro Lins, e Brasil, Argentina e Estados Unidos – Da Tríplice Aliança ao Mercosul, de Luiz Alberto Moniz Bandeira), apenas a última poderia ter algum viés esquerdista. Ainda assim, Amorim afirmou que decidiu suspender as leituras apenas para evitar o que chamou de “mal-entendidos” explicitados pela entrevista de Abdenur a VEJA”.

No parágrafo abaixo, a revista acrescenta:

A leitura obrigatória de obras alinhadas com a doutrina nacional-terceiro-mundista do chanceler Amorim foi introduzida pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, no início de 2004. A leitura é parte de um cursinho de duas semanas a que Pinheiro Guimarães submete todos os diplomatas que estão sendo transferidos de posto.

O viés ideológico das aulas, apelidadas no Itamaraty de ‘Escolinha do Professor Samuel’, é inequívoco.

O apelido não é do Itamaraty. Em setembro de 2004, a revista trouxe a reportagem “Escolinha do professor Samuel”, cujo alvo era precisamente o secretário-geral do Itamaraty.

Por Alceu Nader, do blog Contrapauta

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

EUA desprezam noticiário e convidam Brasil para projeto estratégico na América Latina

Alceu Nader, 8 de Fevereiro de 2007 - Blog Contrpauta

Jornais que apostaram na criação de crise, a partir de entrevista publicada na revista Veja, ficam sem ter o quê dizer sobre iniciativa norte-americana


Ontem, editorial do O Estado de S.Paulo condenava:

"As aventuras da nova diplomacia brasileira, vagamente antiamericana, antiglobalização e comprometida com uma embolorada agenda do passado, foram denunciadas com grande elegância pelo embaixador Roberto Abdenur numa entrevista publicada pela revista Veja”.

Hoje, o jornal traz como manchete principal que: “EUA querem novo papel do Brasil na AL”. Na verdade, o “novo papel” é a oferta ao Brasil de coordenar, junto com os EUA, um projeto continental de expansão da produção de etanol, a partir da cana-de-açúcar. Dando certo, os países pobres da América Latina que não têm reservas de gás ou petróleo (leia-se a Bolívia, de Evo Morales, e a Venezuela, de Hugo Chávez) teriam nova fonte para combater a pobreza. De quebra, tornaria dispensável a ajuda que Chávez vem oferecendo aos países latino-americanos.

A curva para a direção contrária ao noticiário dos últimos dias deixa, de inicio, várias dúvidas:

Como pode ser que o país mais poderoso do mundo não tenha lido na isenta imprensa brasileira que, na verdade, o governo Lula alimenta hostilidades contra os EUA?

Como pode, por cima de tudo, querer como sócio esse insidioso governo para um projeto estratégico de produção de etanol de proporção continental?

Outra integrante do primeiro escalão do governo dos EUA, a secretária de Estado Condoleezza Rice, também não deve estar a par das denúncias da nossa imprensa. Segundo informam todos os jornais de hoje, ela desembarcará em breve no Brasil para acertar detalhes do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush.

Outra dúvida: Bush quer se encontrar com Lula para cobrar pessoalmente as razões do nefasto trabalho do Itamaraty?

Para não dar por nulo tudo que publicou nos três últimos dias, na mesma página em que traz o desmentido ao seu noticiário, o Estado usa o senador Jefferson Peres (PDT-AM), mostrando-o indignado com a “doutrinação ideológica” que corre solta no Itamaraty. A reportagem também informa que o ex-embaixador Roberto Abdenur foi convidado a comparecer no Senado na próxima terça-feira, para explicar suas denúncias na revista Veja. O convite atende ao requerimento apresentado pelo ilibado, quase beato, senador Eduardo Azeredo (PDSD-MG).

Outra pergunta se apresenta: O requerimento de Azeredo seria retribuição à solidariedade da maioria dos grandes jornais e revistas durante a apuração das origens do valerioduto?

A Folha de S.Paulo, que não embarcou na mesma canoa furada do Estado e do Globo (este, por obra da colunista Miriam Leitão), acrescenta que o requerimento foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores, chefiada por outro senador acima de qualquer suspeita, o ilibado Heráclito Pontes (PFL-PI).

Deve-se à Folha, mais precisamente ao repórter e comentarista Clóvis Rossi, a aproximação dos fatos noticiados com a realidade. Ontem, Rossi apontou as contradições do discurso de Abdenur na entrevista. Hoje, ele entrevista o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e revela quais são os perigosos autores da bibliografia que o secretário-geral do Itamaraty, vice-chanceler Samuel Pinheiro Guimarães, tentou ao Itamaraty:

"Amorim cita alguns dos livros recomendados por seu secretário-geral como prova de que não há um viés ideológico no método.
Um dos livros é do embaixador Álvaro Lins e trata do Barão do Rio Branco, o patrono da diplomacia brasileira. Nada tem, portanto, de esquerdista ou de texto de um simpatizante do atual governo (Álvaro Lins morreu em 1975).
Outro dos livros recomendados é “Chutando a Escada”, do acadêmico chinês Ha-Joon Chang, hoje na Cambridge University, do Reino Unido, que não é exatamente um templo esquerdista. A “escada” do título são ações protecionistas adotadas pelos países hoje ricos, na escalada para a riqueza, mas que, agora, “chutam” para impedir que os países em desenvolvimento as utilizem.
Amorim acha que o ruído despertado pelas recomendações de Guimarães se deve a um livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor emérito da Universidade de Brasília, o único dos recomendados que teria um viés esquerdista.
(…)
O Itamaraty adota indicações de leitura em todas as etapas do curso de preparação para a carreira diplomática, desde o Instituto Rio Branco até o curso de Altos Estudos, uma espécie de segundo vestibular, indispensável para ascender na hierarquia. Por isso, recomendações fora da estrutura dos cursos são contraproducentes.

Na reportagem, o ministro ainda apresenta a nomeação de vários embaixadores ligados ao governo de FHC para desmentir a denúncia de privilégios aos que têm a mesma afinidade ideológica.
O Estado também traz entrevista com Amorim, mas não traz palavra sobre os esclarecimentos publicados pela Folha:

Ao falar com a imprensa, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, saiu em defesa da maneira como o atual governo conduz sua política externa. “Vocês falam muito nisso”, disse aos jornalistas. “Não sei se estão impressionados com entrevistas recentes, mas o diálogo Brasil-Estados Unidos é o melhor possível. O presidente Lula fala com o presidente Bush com relativa freqüência. Meu diálogo com a Condoleezza Rice e os diálogos em variados níveis não podiam ser melhores”, reagiu.

E amanhã, o que trarão os jornais que apostaram na geração da crise no Itamaraty a partir da entrevista na Veja? Vão se desculpar pela má informação aos seus leitores ou dirão que, infelizmente, o governo dos EUA não põe fé na imprensa brasileira?

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

De volta, a Lei Ricupero às avessas

5 de Fevereiro de 2007 @ 18:21 por Alceu Nader, do blog Contrapauta

Veja distorce entrevista com ex-embaixador para reforçar sua idéia pré-concebida sobre política externa do governo Lula

Um dos instrumentos costumeiros que a grande mídia utiliza para impor sua opinião é destacar aquilo que pretende transferir ao público nas partes mais visíveis e lidas de uma reportagem, como título, subtítulo, legendas etc.

Pesquisas, de circulação restrita entre os diretores de redação e editores, confirmam: quase a totalidade dos leitores pesquisados lê o que se destaca nesses campos da página, ao passo que o percentual de leitores que lê as reportagens propriamente diminui na medida em que avança o texto da matéria.

O truque de realçar a informação conveniente ou encomendada pela diretoria, na maior parte das vezes, provoca distorce o que é a pura verdade. Além disso, exige malabarismos extras dos editores que, muitas vezes, entregam-se nas contradições evidentes que surgem depois de uma leitura mais ou menos atenta.

Poucas publicações desempenham essa prestidigitação com a mesma desenvoltura da revista Veja, quando o tema é adesão à Alca. A vítima da semana é a política externa do governo Lula, sobre a qual a empresa e a direção responsáveis pela revista têm opinião formada. Para enfatizar o que já publicou inúmeras vezes nos últimos anos – a idéia de que a política externa dos últimos quatro anos é um rosário de fracassos – a revista traz o embaixador Roberto Abdenur, aposentado na semana passada, na entrevista das páginas amarelas.

O diplomata serviu aos propósitos da revista, embora tenha sido peça importante da mesma política externa que parece condenar– era embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O primeiro truque aparece já na capa:

“’Nem na ditadura’ – embaixador denuncia doutrinação no Itamaraty”.

A violência embutida na “denúncia” desconhece a história. Durante a ditadura, diplomatas foram cassados e presos, não faltando, inclusive, a presença de pelo menos um filho de diplomata nas listas de desaparecidos políticos.

Nos campos privilegiados das páginas mencionados no início desse comentário, voltam os demais truques mencionados. O título, na falta de um argumento mais sólido para a “denúncia”, repete a mentira da capa: “Nem na ditadura”. No subtítulo, a “doutrinação” é aprofundada, segundo palavras atribuídas ao entrevistado: “O diplomata diz que a política externa do governo Lula é contaminada pelo antiamericanismo e pela orientação ideológica”.

Na legenda da foto do entrevistado, o reforço da idéia pré-concebida baseia-se em uma impressão pessoal do entrevistado: “’Há um sentimento generalizado de que hoje os diplomatas ao promovidos de acordo com sua afinidade política e ideológica, e não por competência’”.

Os truques se repetem nos dois olhos que se destacam nas perguntas e respostas.

O primeiro intertítulo diz:

“A minha maior crítica está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos como eixo básico da nossa diplomacia. Isso é um substrato ideológico, vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado”.

O segundo:

“Existe um elemento ideológico muito forte na política externa brasileira. Está havendo um esforço de doutrinação. Diplomatas de categoria são forçados a certas leituras quando entram ou saem de Brasília. É uma coisa vexatória”.

Não é bem isso o que o ex-embaixador enfatizou, como se verá na reprodução fiel das perguntas e respostas publicadas. Para facilitar a visualização das conclusões manipuladas da revista, os trechos que desmentem o que a revista ressalta estão em recuo.

Veja – Substantivamente, houve pontos positivos na política externa brasileira no primeiro mandato do presidente Lula?
Abdenur – Sim, sem dúvida. O Brasil engatou uma parceria com Índia, Japão e Alemanha para obter uma cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU. É luta válida, que vai trazer resultados. Acho muito bom o que o governo tem feito para abrir novas frentes de comércio com países árabes, com o Sudeste Asiático, com a Ásia Central, com a África. Acho muito positiva também a forma inovadora de trabalho com o Ibas (grupo que reúne Índia, Brasil e África do Sul). É a primeira vez que três países grandes, de três continentes diferentes, se unem para buscar iniciativas conjuntas. Acho que o Brasil tem conduzido com amplo equilíbrio e proficiência as negociações da Rodada de Doha. O Brasil é um jogador decisivo, tem uma atuação de liderança no G20 muito importante. Há ainda a questão do Haiti, onde lideramos pela primeira vez uma ação de países latino-americanos em favor da paz. Enfim, houve acertos…

(Perceberam o truque do “enfim, houve acertos”? Parece até que o entrevistado reconheceu apenas um ou dois avanços da política externa. Mas tem mais:)

Veja – E os erros substantivos?
Abdenur – A minha maior crítica à atuação do Itamaraty está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos como eixo básico da nossa diplomacia. Com a queda do Muro de Berlim, desapareceu completamente o paralelo que dividia o mundo em Ocidente e Oriente. O meridiano Norte-Sul não desapareceu de todo, mas se desvaneceu. O diálogo Norte-Sul é uma realidade. A esta altura da vida, com o mundo em transformação vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado. A nossa relação com a China e com a Índia também apresenta equívocos. É preciso ter parceria com os dois países, mas eles não podem ser considerados nossos aliados.

(…)

Veja – Como o senhor avalia a relação do Brasil com os Estados Unidos nos três anos em que serviu como embaixador em Washington?
Abdenur – Pode parecer paradoxal, mas a relação do Brasil com os Estados Unidos prosperou significativamente nos últimos anos. Graças a uma pessoa que manda muito no governo brasileiro, uma pessoa de extremo pragmatismo e lucidez, que é o presidente Lula. Ele não esconde seu desagrado com algumas coisas que o governo Bush tem feito, particularmente no Iraque. Mas Lula sabe que uma relação melhor com os Estados Unidos é de interesse do Brasil.

Quando fui assumir a embaixada, ele me disse: “Roberto, quero deixar como legado para o futuro bases ainda mais sólidas e mais amplas na relação entre os dois países”. Como embaixador, tive algumas dificuldades, mas nada que fosse impeditivo.

Veja – O senhor não deixou o cargo de embaixador espontaneamente, correto?
Abdenur – Há no Brasil setores, embora minoritários, que têm aversão aos Estados Unidos, inclusive dentro do governo e do Itamaraty. Há esse ranço, mas isso não atrapalhou meu trabalho. A relação Brasil-Estados Unidos nunca esteve tão bem. Lula inclusive deve visitar o presidente Bush nos próximos meses.

Veja – Apesar dessa relação forte com os Estados Unidos, a Alca está em compasso de espera.
Abdenur – O Brasil está, na melhor das hipóteses, deixando de ganhar dinheiro. O mercado americano está se aproximando dos 2 trilhões de dólares. Seria vital para o Brasil ter vantagens preferenciais, de parceria, com os Estados Unidos. Não estou dizendo que deveríamos ter assinado a Alca de qualquer jeito, mas deveríamos ter seguido com a negociação. Os Estados Unidos têm assinado vários acordos de comércio bilaterais, e nós temos perdido competitividade no mercado americano. Nós estamos estacionados há dez anos em 1,4% do mercado americano. Há vinte anos, nossa participação era de 2,2%. Eu lamento que o único aspecto da relação Brasil-Estados Unidos em que não houve progresso tenha sido o comércio. Foram mínimos os recursos alocados para promoção comercial nos Estados Unidos pelo governo brasileiro.

Veja – Qual é a imagem do presidente Lula nos Estados Unidos? Ele ainda é um político respeitado ou sua imagem foi deteriorada pelos escândalos de corrupção?
Abdenur – É uma imagem positiva, os escândalos de corrupção não repercutiram muito por lá. Ele é o líder de uma democracia estável, um governante que tem uma biografia louvável. O governo Lula tem merecido respeito mundo afora por conciliar uma política econômica pragmática com políticas sociais efetivas e uma política externa séria. Isso começou com Fernando Henrique, mas o governo Lula avançou.

A íntegra da entrevista – que desqualifica o título que lhe foi dado, assim como a denúncia de “doutrinação” – pode ser lida, pelos assinantes, no site da revista. Aliás, com o patrocínio do BNDES, do mesmo governo federal que, segundo a revista, persegue os diplomatas com mais violência do que na ditadura