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quarta-feira, novembro 21, 2007

Só para comparar...

Recebi hoje, pelo grupo do MSM, entre outros bons textos, dois que me chamaram atenção por serem exemplos opostos de ética jornalística.

O primeiro é o texto da postagem anterior, "Para compreender a força de Lula", em que o professor Ladislau Dowbor traça um panorama da questão da desigualdade social e das políticas públicas praticadas pelo governo Lula, baseando-se em números oficiais, com fontes não só citadas como linkadas, ou seja: acessíveis a qualquer leitor. Mais do que despejar números, Dowbor cruza dados e os contextualiza, o que confere credibilidade e coerência ao texto.

O segundo é um post do blog Logística e Transporte, em que o autor, o engenheiro José Augusto Valente, põe abaixo, com dados, fontes e links, qualquer credibilidade ou coerência que poderia ter um artigo publicado no Estadão de hoje. Com o título Sem ferrovias, rodovias, hidrovias e portos, o festival de irresponsabilidades pinta um quadro tétrico para o futuro do Brasil, baseando-se em "fatos" do presente tais como "as estradas estão em petição de miséria", "as ferrovias praticamente não existem" e "os portos continuam reféns das Docas politizadas". Tais afirmações, ao contrário dos argumentos de Valente, não vêm acompanhadas de nem uma única pistazinha que ajude o leitor a descobrir de onde elas saíram, o que me faz deduzir que a origem das mesmas é tão somente (para não dizer outra coisa...) o sovaco da jornalista. Convido todos a lerem os dois - o artigo no Estadão e a análise do engenheiro - e tirarem suas próprias conclusões.

E ouso fazer um pedido: mesmo não encontrando de imediato uma fonte tão precisa quanto as do blog do engenheiro, mantenha sempre um pé atrás com a grande mídia. Pergunte-se sempre de onde veio aquela informação, quem disse, quando, em que contexto, é comprovável? Se o artigo contiver palavras e expressões do tipo "supostamente", "hipótese", "não-confirmado" ou "documentos guardados a sete chaves", desconfie em dobro. Não serei leviana de dizer que a mídia mente sempre, mas que é bom checar antes de comprar gato por lebre, ah, disso eu não tenho a menor dúvida!

domingo, abril 08, 2007

O jeito bem brasileiro de fazer jornalismo sem fato

De volta ao combate depois de imerecido descanso, compartilho minhas impressões sobre a campanha da mídia para nos convencer de que o Brasil está mal, ruim, pior, em crise e no limite.

O tom dos jornalões é este: na ausência dos acontecimentos que sustentem suas devoções, dá-lhe fantasia. O desejo se transforma em matéria-prima de um jornalismo que prescinde de fatos.

O JB de 8 de abril afirma em sua primeira página que a classe média, "na história deste país", nunca esteve tão "martirizada". Assim, na maior, contrariando os dados da PNUD, do IBGE e o bom senso. É o modo que encontrou de criticar a política de aumento da oferta de crédito - um dos mecanismos exitosos que o governo encontrou para "destravar" a economia.

A Folha, por sua vez, nos oferece um prato requentado e sem sabor (ou novidade) acerca da fantasiosa "caixa-preta" da Infraero. Requentado porque desconhece e não informa o leitor que denúncias feitas pelo TCU têm sido derrubadas por utilizarem-se de pressupostos técnicos incompatíveis com a natureza do negócio da Infraero. Numa das denúncias "graves", o TCU questionava custos de asfalto e concreto adotando parâmetros da Caixa Econômica Federal e do DNIT para habitações e estradas - um mico técnico monumental do TCU. Mas, a quem interessaria expor a inépcia do TCU?

O Globo, como bem indicou Paulo Henrique Amorim, está mirando agora no compadre de Lula, Roberto Teixeira, advogado ligado a empresas aéreas. As perguntas feitas a Teixeira na entrevista são um primor de parti pris, de preconceito, arrogância e presunção de culpa. Uma vergonha.

O Estadão, esquizofrênico, critica o governo por aquilo que ele, Estadão, acredita: pelo governo estar abrindo espaço e criando as condições para que a iniciativa privada invista nos portos. A coisa funciona assim: se o Estado brasileiro faz, não devia, porque não é sua atribuição fazer. Se não faz, é porque é inepto, pois devia investir em infra-estrutura para equacionar os gargalos que impedem o crescimento econômico. É aquela velha história: se correr o bicho pega...

Noutra matéria, o Estadão desanca o governo porque o governo está se metendo numa aventura temerosa e arriscada que é buscar o aumento de suas exportações para os EUA... Só falta chamar a Míriam Leitão para provar que a produção de álcool para o mercado norte-americano vai trazer a devastação da Amazônia e o encarecimento dos alimentos no mercado interno. Que idéia mais absurda esta de vender álcool para o mercado americano! Muito grave, né mesmo?

Como diz um deputado da oposição: "se esse PAC der certo nós estamos ferrados".

quarta-feira, março 28, 2007

8 milhões de brasileiros deixam a baixa renda, diz pesquisa

Inflação controlada, crédito e salário maior explicam ascensão de trabalhadores

(Márcia De Chiara, para o Estadão - ó!)

SÃO PAULO - Em apenas um ano, mais de 8 milhões de brasileiros deixaram a baixa renda e ascenderam para níveis da população com maior poder de consumo. Isto é o que revela a pesquisa O Observador 2007, feita pela financeira francesa Cetelem, em parceria com o instituto de pesquisas Ipsos Public Affairs.

De acordo com a pesquisa, as camadas D e E reuniram 84,8 milhões de pessoas no ano passado ou 46% da população. Em 2005, o contingente dessas classes sociais era de 92,9 milhões ou mais da metade da população brasileira (51%). Foram ouvidas 1.200 famílias no fim de 2006 em 70 cidades do País. Elas foram avaliadas não só pela renda recebida, mas também pela posse de bens.

Os dados mostram ainda que a população de mais baixa renda migrou para as classes imediatamente superiores. Com isso, a classe C, que reunia 62,7 milhões habitantes em 2005, encerrou o ano passado com 66,7 milhões de brasileiros. O topo da pirâmide, isto é, as classes A e B, recebeu nesse período 6,3 milhões de pessoas.

"2006 foi um ano extremamente bom para as classes menos favorecidas", afirma o diretor de Marketing e Desenvolvimento da Cetelem, Franck Vignard Rosez.

Segundo ele, uma combinação favorável de fatores contribuiu para a mobilidade social da população. Entre esses fatores, ele aponta o aumento da massa salarial, a inflação controlada e, especialmente, o crescimento do crédito. Por meio de prazos esticados e juros cadentes, o crédito fez o dinheiro render mais nas mãos do consumidor.

Virada

Prova disso é que, pela primeira vez, sobrou dinheiro no bolso do brasileiro de baixa renda no ano passado. Em 2006, as famílias das classes D e E conseguiram ter um troco de R$ 2,49 no fim do mês, depois de quitar todas as despesas, mostra a pesquisa.

O saldo parece insignificante, mas indica o começo de uma virada no poder de compra da baixa renda. Em 2005, faltavam para essas mesmas famílias R$ 16,56 para fechar as contas no fim do mês.

Também nesse período, a situação melhorou para a classe C. A renda familiar disponível, isto é, os recursos que sobram após cobrir as despesas do mês, que era de R$ 122,34 em 2005, subiu para R$ 191,41 em 2006. O ganho foi de 56%.

Em contrapartida, as classes A e B viram a renda disponível cair 18% no período, de R$ 631,79 em 2005 para R$ 518,29 em 2006. O recuo é reflexo da renda líquida familiar desse estrato social, que teve queda de 6%. Além disso, gastos que não são essenciais, como combustível, telefone, TV por assinatura, entre outros, consomem 44% da renda dos mais ricos.

O grande destaque da pesquisa é o Nordeste, que reúne 25% dos brasileiros. Foi a região do País que registrou, no ano passado, o maior crescimento da renda média familiar disponível. A alta foi 38%. Rosez destaca que, dos 12 itens de compra analisados em 2005 e no ano passado, a intenção de adquirir esses itens aumentou em 11 deles. "Tudo melhorou no Nordeste".

A intenção de ter computador em casa mais que dobrou em um ano, de 7% para 15%. O interesse de comprar a casa própria passou de 6% para 10%.

quinta-feira, março 22, 2007

O novo PIB e a diferença entre notícia boa e notícia ruim (2)

Até a Folha de S. Paulo teve de desdizer a forçação de barra que cometera há algumas semanas, quando publicou o último índice do PIB medido segundo a antiga metodologia. Anunciara mentirosamente, em primeira página, que o crescimento da era Lula vinha sendo igual ao do primeiro mandato de FHC. Hoje, sem o mesmo destaque e sem a menor cerimônia, podemos ler no jornal o seguinte:

“A revisão mostrou que a média de crescimento do PIB nos três primeiros anos do governo Lula (2003-05) foi de 3,2%, acima dos 2,6% apurados no modelo anterior. Em sete anos de FHC (1996-02), o crescimento médio foi revisado ligeiramente para baixo: de 2,1% para 2%.”


Não apenas a Folha, mas a mídia conservadora em geral não está engolindo com facilidade a história do novo PIB. O Correio Braziliense não deixa de levantar a suspeita de uma motivação política no trabalho de aperfeiçoamento do indicador, feito pelo IBGE: “Coincidência ou não, o novo método fez a economia crescer no governo Lula e cair nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso”

A mesma confiança desconfiada tem a porta-voz da era FHC, Miriam Leitão: “Mas claro que, para qualquer brasileiro, a notícia ficou parecendo que é aquela frase definitiva inventada por ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola: no Brasil, até o passado é incerto.” Esclareço nós do Votolula nos incluímos fora desta.

Já o Estadão, pra não perder o costume, investe num dado capcioso, irrelevante mesmo, relacionado com a participação do Brasil no comércio mundial – para não ter de encher suas páginas da edição de hoje (22/02) somente com notícias favoráveis ao governo que tanto combate: “Em 2006, a participação do Brasil no comércio internacional manteve-se entre 1,1% e 1,2%. Com isso, o País deve cair uma posição no ranking mundial elaborado pela OMC neste ano.”

A notícia do Estadão tenta claramente minimizar o mais importante – e que a matéria admite! “Apesar de o governo destacar que o valor das exportações em 2006 bateu o recorde do País, com US$ 137,4 milhões, o aumento em relação a 2005 não foi suficiente para que o Brasil subisse no ranking da OMC.”

O Estadão acha que não basta, a cada ano, sermos melhores do que nós mesmos. Pura maldade.

domingo, março 18, 2007

Falácia ideológica pinta o Estado como culpado pelo baixo crescimento

Sob o título "Gasto do governo triplica em 20 anos e trava crescimento", o conservador Estadão insiste na tecla de que é preciso reduzir o tamanho do Estado para se ter crescimento econômico. Publico os argumentos do jornal e, em seguida, apresento uma noticiazinha singela da Gazeta Mercantil que põe por terra a falácia.

"As despesas correntes do governo se multiplicaram por três em 20 anos. Em 1986, estes gastos consumiam 10,3% do Produto Interno Bruto do País. No ano passado já representavam 30,2% do PIB. As contas foram feitas pelo economista Alexandre Marinis, da Mosaico Economia Política, num estudo que mostra o porte do Estado brasileiro como o principal entrave ao crescimento econômico. Marinis obteve dados do tamanho do Estado de 27 países emergentes em 2002 e constatou que o Brasil aparece em sexto lugar. Perde para Israel e Arábia Saudita, mas é 56% maior que o da China e do Chile. O estudo também revela que, em 215 países analisados no período de 1971 a 2005, há uma relação direta entre Estado possante e desempenho esquálido. A média de crescimento nos países onde os Estados gastam até 10% do PIB foi de 4,7%. Naqueles onde o tamanho do Estado equivale a 30% do PIB a média de expansão ficou em apenas 2,4%. "Com um aumento tão expressivo no tamanho do governo brasileiro, a desaceleração da economia que se seguiu não deveria surpreender ninguém", diz Marinis."

Já a Gazeta Mercantil nos brinda com o seguinte:

"A Argentina manteve o ritmo de crescimento vigoroso pelo quarto ano seguido, só superado por Cuba e Venezuela na América Latina. Os dados oficiais do PIB mostraram ontem que o país cresceu 8,5% no ano passado. Analistas projetam expansão de 7,7% para 2007."

Queria ouvir do tal de Marinis, que sustenta a "tese" do Estadão, uma boa explicação para o crescimento robusto dos países com economia mais estatizada da América Latina... O país de Chavez e o país de Fidel.

Ah! Meus sais...

quarta-feira, março 07, 2007

JB não tem mais o que inventar pra desgastar o governo

"EUA insultam o Brasil", é a manchete que tenta fazer cortina de fumaça para o encontro desta quinta-feira entre Lula e Bush, em Sampa. Vejam se tem novidade no texto da primeira página:

"Um relatório de 23 páginas, divulgado ontem, acusa as forças de segurança de cometerem "inúmeros e sérios" abusos. O país, por onde Bush começará uma cruzada latina contra Hugo Chávez, é criticado por não respeitar os direitos humanos e discriminar mulheres e crianças."

Estadão


Outro que também tenta desviar a atenção do leitor da exitosa aproximação de Brasil e EUA em torno de interesses econômicos concretos é O Estadão. Tudo porque Lula já disse que não aceita falar de Venezuela no encontro. O foco é outro, é o etanol e estamos conversados. Na manchete, carrega: "Estatismo de Chávez só traz mais miséria, diz Bush" O que evidentemente, sabemos, é mentira.

O Globo

Por sua vez, o carioca O Globo vê chifre em cabeça de cavalo com a oportuna decisão do governo federal, de permitir que estados negociem seus passivos - dívidas com o próprio governo, inclusive - com os bancos comerciais, indo à praça em busca de condições mais favoráveis para cumprir seus compromissos. O jornal vê aí tentativa de driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal. Não cola. Afinal não se trata de "dinheiro novo", mas de "dinheiro em melhores condições", tal qual o cidadão que refinancia seu cheque especial, por meio de empréstimo pessoal, e desafoga seu orçamento com a redução dos juros sobre a dívida.

Correio Braziliense


Já o xiita (do contra) Correio Braziliense, tenta por que tenta desqualificar o ótimo saldo, para o governo, das conversas de ontem com os 27 governadores. Como sempre, prefere enfatizar os pontos divergentes - o governo não abre mão da CPMF e da Cide - a reconhecer a habilidade do governo, que agradou até mesmo a turma tucana, que saiu elogiando. Coisa que também a Folha de S.Paulo não conseguiu esconder.


E assim segue a mídia conservadora.

segunda-feira, março 05, 2007

Se o presidente fosse FHC, tudo seria diferente

Convido os amigos a um exercício (inútil) de ficção.

Vamos imaginar que o presidente Bush chegasse ao Brasil esta semana para tratar de uma parceria dos produtores de 70% do etanol do mundo – EUA e Brasil.

Vamos imaginar que em lugar do presidente que ocupa o cargo provisoriamente (até a posse do presidente eleito José Serra em 2010), o presidente fosse Fernando Henrique Cardoso, o Farol de Alexandria, aquele que lança luzes sobre o passado.

E que a situação econômica fosse exatamente a que é hoje.

Quer dizer: seria tudo igual, só que o presidente seria FHC.

Vamos ver o que faria a mídia conservadora:

A Miriam Leitão, a Controladora Geral da Republica, escreveria não sobre florestas – como faz hoje no Globo (clique aqui para ler sobre florestas), mas sobre a parceria do etanol. E diria: “Isto só se tornou possível por causa da consistência e da austeridade da política econômica do atual Governo.” E concluiria: “Uma política econômica tão responsável é obra, sobretudo, de um presidente que tem noção das virtudes de arrumar a casa das finanças públicas. Já imaginaram se o presidente eleito fosse o do PT ?”

A Veja colocaria na capa FHC e Bush abraçados e o titulo ufanistico: “A aliança de gigantes – Brasil – EUA”. No sub-título: “”Bye-bye Chávez!”

A Folha de São Paulo: “Acordo do etanol: Brasil e EUA podem dominar o mundo”. Uma pesquisa do Datafolha mostraria que a popularidade de FHC é maior que a do Alemão do Big Brother.

Estadão
: “Visita de Bush: FHC é o líder da América Latina”. Um editorial demonstraria de forma cabal que essa aliança só se tornou possível porque FHC respeita o marco regulatório e coibiu de forma exemplar as invasões no Portal do Paranapanema. Um artigo da colunista Dora Kramer traria o seguinte titulo: “FHC – terceiro mandato – por que não?”

IstoÉ
, sob inspiração de Daniel Dantas: “Acordo do etanol com EUA mostra que a privatização das telefônicas foi um sucesso”.

O Jornal Nacional faria uma reportagem em Nova York sobre o posto que já vende gasolina misturada ao álcool brasileiro e um “povo fala” de consumidores entusiasmados: “We love gas Made in Brazil!”

Paulo Henrique Amorim

sábado, fevereiro 17, 2007

Folha e Estado protegem governo paulista


As capas dos jornais dos três grandes conglomerados de comunicação que publicam jornais em São Paulo, reproduzidas acima, revelam a proteção em dois deles – grupos Folha e Estado – ao governo tucano de José Serra.


Como se pode ver acima, apenas o jornal Diário de S. Paulo, das Organizações Globo, publicou a paralisação das obras da linha 4 (amarela) do Metrô de São Paulo na manchete. Na Folha, o assunto ficou abaixo da dobra da primeira página, portanto sem visibilidade para quem olha o jornal dobrado nas bancas. O Estadão disfarçou um pouco a proteção a Serra e deu no alto, mas escondeu a notícia dentro do caderno Metrópoles, mesma opção feita pela Folha, que publicou a história em uma página interna e par do caderno cotidiano.

As obras da linha amarela do Metrô paulistano são as mais caras em andamento no Brasil. Um desabamento no início do ano já matou 7 pessoas e deixou uma cratera no coração do bairro de Pinheiros. Assim, custa a crer que a paralisação dos trabalhos não mereça da imprensa de São Paulo nem sequer a capa de seus cadernos locais.

No caso da Folha, em que a proteção ao tucano Serra é mais evidente, o jornal não apenas deu o menor destaque para a paralisação das obras em sua primeira página como também publicou uma pequena reportagem em que "especialistas garantem" que os problemas de soldagem encontrados em uma das estações não oferece riscos de desabamentos, contrariando o laudo divulgado anteontem pelo Jornal Nacional da TV Globo.

Alguém precisa avisar ao pessoal do Estadão e da Folha que o problema do Metrô é na verdade uma herança que Serra recebeu de seu antecessor e correligionário Geraldo Alckmin. A lambança foi feita na gestão anterior e nada tem a ver com Serra. É claro que não é bom para os tucanos reconhecer erros passados, mas no caso específico de Serra os erros na construção Metrô podem significar uma pá de cal nas pretensões de Alckmin em disputar a prefeitura de São Paulo em 2008 ou a presidência da República em 2010. Em suma, parece que os jornalões paulistas estão sendo mais realistas do que o Rei...

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

O Brasil já teve conspiradores melhores

Por Luiz Antonio Magalhães - Nova-E

Mídia vive nova fase no combate a Lula

A cada dia que passa, fica mais nítido o fenômeno: depois de perder a guerra da conquista de corações e mentes no ano que importava – 2006, quando estava em jogo a reeleição do presidente Lula –, a grande imprensa brasileira vive uma espécie de ressaca da derrota do projeto que defendeu no ano passado. Remar contra a maré não é uma tarefa simples e os veículos estão tentando descobrir o tom para fazer oposição a um presidente que talvez seja o mais popular da história do país.

Há os que insistem em picuinhas – para a revista Veja, da editora Abril, por exemplo, qualquer picuinha serve, como o leitor pode verificar na condenação do suposto anti-americanismo da política externa do atual governo, presente nas páginas amarelas desta semana.

Tem também o pessoal mais "nasty", especialmente na Folha de S. Paulo, um jornal cheio de má-vontade com tudo ocorre no planeta e que, no tocante ao Brasil, tenta mostrar que o Executivo federal só faz besteiras e está sempre munido de malvadas segundas intenções. Um raciocínio típico da Folha é o seguinte: se o governo deixou de fazer algo, antes mesmo de saber a razão o jornal conclui que foi porque alguém avisou que a falcatrua fora descoberta.

Há por fim os mais "ideológicos", de crítica radical, mas razoavelmente civilizada, como a turma do Estadão e, em parte, de O Globo.

É certo que no dia a dia as reportagens e textos dos grandes jornais, revistas e portais de internet contêm uma mistura desses três estilos. Nos blogs conservadores, como o de Reinaldo Azevedo, a pancadaria no governo é mais forte e muitas vezes inconsequente em função da prolixia desse meio. Os podcasts de Diogo Mainardi, por exemplo, já começam a se parecer peças cômicas, tamanho o distanciamento entre o que se ouve ali e a tal "talk of the town" que ele gostaria de ser porta voz. No máximo, Mainardi consegue exprimir a conversa da última reunião de pauta da Veja e os telefonemas ao seu amigo Azevedo. O Brasil já teve conspiradores melhores.

O fato é que está faltando um "gancho", como se diz no jargão das redações, para bater forte no governo. Sem mensalão, dossiê Vedoin ou escândalo dos sanguessugas, o trabalho ficou realmente mais complicado. A oposição também não anda ajudando, o PSDB está praticamente de joelhos e o PFL desidratou, caindo de 65 deputados eleitos para pouco mais do que 50. Aparentemente, resta aos opositores de Lula esperar que os "aloprados" reapareçam ou que o presidente comece a ter arroubos chavistas, tome um porre e mande expulsar o Larry Rother do país. Se nada disto acontecer, vamos todos passar 4 anos acompanhando futricas de salão contra o presidente e o PT e lendo recados cifrados de Serra para Aécio e vice versa.

Como a vida não pode ser tão chata, talvez Ciro Gomes se mostre disposto a animar um pouco as coisas. E aí, podem apostar, Mainardi e sua turma passarão a se dedicar à nobilíssima tarefa de tentar evitar que Ciro chegue lá em 2010. Pelo menos Lula ficará longe dessa chateação...

domingo, fevereiro 11, 2007

Estadão se corrige sobre ‘antiamericanismo’; Veja omite.

O Estado de S.Paulo de hoje cai fora do barco furado que embarcou ao dar como verdadeiros os erros a que fora induzido pela entrevista editorializada do ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Roberto Abdenur à revista Veja. O jornal comprara gato por lebre, e investiu pesado na denúncia de antiamericanismo e promoções por afinidade ideológica que a revista magnificou. Até editorial rendeu criticando a “agenda embolorada” da política externa.

Mas aconteceu que as denúncias do encerramento melancólico da carreira diplomática de Abdenur seriam desmentidas dias depois com a visita do subsecretário de Estados dos EUA, Nicola Burns. Ele trouxe o assentimento dos EUA à proposta brasileira para que ambos os países investiam juntos, no Brasil e em países pobres da América Latina e da África, num projeto global de produção de etanol que, agora, com a luz de emergência acesa pelo aquecimento global, ganha proporções globais. Brasil e EUA respondem, hoje, por 70% do etanol vendido em todo o mundo.

Ocorre que a tecnologia utilizada pelos EUA é de etanol extraído de grãos, particularmente milho, cuja prioridade é alimentar seres humanos e rebanhos para abate. A demanda por milho combustível poderia estourar as economias de países onde o milho é ingrediente básico da alimentação da população, como é o caso do México, ou de países que dependem da importação de grãos para a segurança alimentar, como é o caso da Argélia e outros países africanos.

O início das negociações para a criação do projeto Brasil-EUA transformam em pó-de-traque as denúncias do triste ex-embaixador.

Em sua edição de hoje, o jornal repara o equívoco ouvindo os dois principais atores desse início de entendimentos – Burns e Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Várias perguntas do jornal a Burns enfocam as “denúncias” de Abdenur. Por assunto, ele disse o seguinte:

DIÁLOGO SUL-SUL

Disse o ex-embaixador à revista:


“Existe um elemento ideológico muito forte presente na política externa brasileira. A idéia do Sul–Sul como eixo preponderante revela um antiamericanismo atrasado.”
(…)
“A esta altura da vida, com o mundo em transformação vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado.”

Diz o subsecretário na entrevista ao Estado:

“Achamos que o Brasil está seguindo uma agenda muito responsável, muito cooperativa, muito positiva na América do Sul e na relação Sul-Sul”.
(…)
“Parece que o Brasil está certo em ter uma orientação Sul-Sul porque é hoje um dos grandes líderes do mundo. O Brasil tem apelo para alguns países pobres porque eles vêem que o Brasil teve sucesso. O Brasil tem laços étnicos e de língua com países africanos, além de com países europeus. Então, se o Brasil pode ter uma boa relação Sul-Sul com países da América Latina e da África, é positivo”.

Na entrevista do ministro brasileiro Estado, várias denúncias são desmentidas:

Afinidade ideológica e promoções no Itamaraty

“É leviano afirmar que as promoções no Itamaraty obedeçam a critérios ideológicos. Isso é uma ofensa”.

Antiamericanismo na diplomacia brasileira

“Não há antiamericanismo. Muito pelo contrário. A busca de parceria não é só a discussão em torno de acordos bilaterais como o do etanol, mas a busca de um diálogo sobre o mundo. Se os EUA percebessem uma atitude antiamericana, você acha que isso ocorreria? A melhor resposta está nos fatos.”
(…)
“Os contatos intensos do presidente Lula com o presidente George W. Bush, muitas vezes por nossa iniciativa e muitas vezes por iniciativa deles. Sempre de maneira produtiva e amistosa. Por exemplo, na discussão em torno do biocombustível, temos o interesse comum em criar o mercado global do etanol. Isso foi uma iniciativa brasileira. Temos também trabalhado juntos no Haiti, sobre o qual eles nos ouvem muito. Há uma relação madura e positiva em relação aos temas do continente.”

Já a revista Veja desta semana omite completamente a vinda da missão dos EUA ao Brasil, bem como o projeto comum entre os dois países para a produção de etanol em escala global. Seus leitores são brindados com a reportagem que remete para a suspensão da bibliografia recomendada pelo secretário-geral do Itamaraty na reportagem

“Sururu no Itamaraty
Está suspensa a leitura engajada. Já a política externa…”


Nela, sobre a “doutrinação”, que

“Até a leitura obrigatória, que Amorim mandou suspender diante da entrevista de Abdenur, foi minimizada pelo chanceler. Ele disse que, de três obras obrigatórias (Chutando a Escada, do chinês Ha-Joon Chang, Rio Branco, de Álvaro Lins, e Brasil, Argentina e Estados Unidos – Da Tríplice Aliança ao Mercosul, de Luiz Alberto Moniz Bandeira), apenas a última poderia ter algum viés esquerdista. Ainda assim, Amorim afirmou que decidiu suspender as leituras apenas para evitar o que chamou de “mal-entendidos” explicitados pela entrevista de Abdenur a VEJA”.

No parágrafo abaixo, a revista acrescenta:

A leitura obrigatória de obras alinhadas com a doutrina nacional-terceiro-mundista do chanceler Amorim foi introduzida pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, no início de 2004. A leitura é parte de um cursinho de duas semanas a que Pinheiro Guimarães submete todos os diplomatas que estão sendo transferidos de posto.

O viés ideológico das aulas, apelidadas no Itamaraty de ‘Escolinha do Professor Samuel’, é inequívoco.

O apelido não é do Itamaraty. Em setembro de 2004, a revista trouxe a reportagem “Escolinha do professor Samuel”, cujo alvo era precisamente o secretário-geral do Itamaraty.

Por Alceu Nader, do blog Contrapauta